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sábado, 30 de agosto de 2025

Qual a panela ideal ? por Dr. Frederico Lobo




Quando se fala em saúde, poucas pessoas (incluindo profissionais da saúde: médicos/nutricionistas) lembram das panelas. Mas se partirmos do pressuposto que a alimentação é um dos pilares para a boa saúde, o conhecimento da composição das panelas na qual preparamos esses alimentos é fundamental.

Mas porquê? Hoje já sabemos que as panelas liberam substâncias muitas vezes tóxicas e que são incorporadas aos alimentos durante o preparo das refeições. Posteriormente tais substâncias podem se acumular no nosso organismo. Sugiro que você agende uma consulta para saber qual a panela ideal para você.

Na hora de escolhermos as panelas que utilizaremos, além da praticidade e conforto, precisamos também estar atentos aos problemas que elas podem causar na nossa saúde. Mesmo que as panelas liberem apenas pequenas quantidades de substâncias tóxicas, precisamos levar em conta que isso ocorre em todas as refeições, durante anos seguidos, o que faz com pequenas quantidades, ao longo dos anos, se transformem em grandes quantidades acumuladas no organismo. "De grão em grão a galinha enche o papo"

Panelas de alumínio


As panelas de alumínio são as mais comuns e as mais baratas, mas liberam quantidades variáveis de alumínio nos alimentos podendo causar doenças. Diversos estudos têm demonstrado que a intoxicação por alumínio é um fator importante no mal de Alzheimer e de Parkinson, nas Doenças Ósseas e na Hiperatividade Infantil. Diversos fatores contribuem para a migração do alumínio das panelas para os alimentos, como por exemplo: a acidez ou alcalinidade dos alimentos, a qualidade da liga de alumínio utilizada pela indústria, o tempo de uso do utensílio, o tempo da duração do cozimento dos alimentos, a presença de sal ou açúcar, entre outros.

Mas quais são as evidências científicas disso ?  De acordo com o Open Evidence:

Há evidências robustas de que panelas e utensílios de alumínio podem liberar alumínio para os alimentos durante o preparo e armazenamento, resultando em aumento mensurável da exposição humana ao alumínio. Estudos laboratoriais e intervenções em humanos demonstram que o alumínio é liberado em quantidades variáveis, especialmente em condições de cocção com alimentos ácidos (como tomate ou suco de frutas cítricas) ou em utensílios não revestidos e mais antigos.[1-5]

Estudos experimentais mostram que a quantidade de alumínio liberada pode exceder limites regulatórios, como o Specific Release Limit (SRL) do Conselho da Europa (5 mg/kg de alimento), em até seis vezes, dependendo do tipo de alimento, tempo de contato e temperatura.[1] Panelas de alumínio de uso prolongado tendem a liberar mais alumínio, além de outros metais potencialmente tóxicos, como chumbo, cádmio e arsênio, especialmente quando fabricadas a partir de sucata ou em condições de baixa qualidade.[2-3][6]

Em humanos, um estudo de intervenção controlada demonstrou que a exposição subaguda a utensílios de alumínio (incluindo papel alumínio) resulta em aumento discreto, porém estatisticamente significativo, da excreção urinária de alumínio, indicando absorção sistêmica. Esse aumento foi reversível após a interrupção da exposição, e representou cerca de 8% do valor basal de alumínio urinário.[7] 

Em pacientes com insuficiência renal crônica, a substituição de utensílios de alumínio por aço inoxidável levou a reduções significativas nos níveis séricos e urinários de alumínio, sugerindo que o uso crônico de panelas de alumínio é uma fonte relevante de exposição, especialmente em populações vulneráveis.[8]

No entanto, a literatura também indica que, para a população geral, a quantidade de alumínio transferida para os alimentos por panelas de alumínio é relativamente pequena em comparação com a ingestão dietética total de alumínio, que ocorre principalmente por aditivos alimentares e fontes naturais.[5] 

O risco toxicológico relevante está mais associado a exposições crônicas elevadas, uso de panelas de baixa qualidade, alimentos ácidos e populações com função renal comprometida.

Em resumo, há evidências claras de que panelas de alumínio podem contaminar alimentos com alumínio, levando a aumento mensurável da carga corporal, especialmente em condições específicas de uso e em populações de risco.[1-2][5][7-8]

1. Release of Aluminium and Thallium Ions From Uncoated Food Contact Materials Made of Aluminium Alloys Into Food and Food Simulant. Sander S, Kappenstein O, Ebner I, et al. PloS One. 2018;13(7):e0200778. doi:10.1371/journal.pone.0200778.
2. Metal Exposures From Aluminum Cookware: An Unrecognized Public Health Risk in Developing Countries. Weidenhamer JD, Fitzpatrick MP, Biro AM, et al. The Science of the Total Environment. 2017;579:805-813. doi:10.1016/j.scitotenv.2016.11.023.
3. Effect of the Duration of Use of Aluminum Cookware on Its Metal Leachability and Cytogenotoxicity in Allium Cepa Assay. Alabi OA, Apata SA, Adeoluwa YM, Sorungbe AA. 
Protoplasma. 2020;257(6):1607-1613. doi:10.1007/s00709-020-01536-7.
4. A Simple Pre-Treatment of Aluminium Cookware to Minimize Aluminium Transfer to Food.
Karbouj R, Desloges I, Nortier P. Food and Chemical Toxicology : An International Journal Published for the British Industrial Biological Research Association. 2009;47(3):571-7. doi:10.1016/j.fct.2008.12.028.
5. Aluminum Levels in Foods Cooked and Stored in Aluminum Pans, Trays and Foil. Greger JL, Goetz W, Sullivan D. Journal of Food Protection. 1985;48(9):772-777. doi:10.4315/0362-028X-48.9.772.
6. Toxicity Associated With Long Term Use of Aluminum Cookware in Mice: A Systemic, Genetic and Reproductive Perspective. Alabi OA, Unuigboje MA, Olagoke DO, Adeoluwa YM. Mutation Research. Genetic Toxicology and Environmental Mutagenesis. 2021 Jan-Feb;861-862:503296. doi:10.1016/j.mrgentox.2020.503296.
7. Effect of an Aluminum Foil-Processed Diet on Internal Human Aluminum Burden. Hiller J, Göen T, Seibold-Wulf N, Meyer S, Drexler H. Environment International. 2023;177:108000. doi:10.1016/j.envint.2023.108000.
8. Aluminum Utensils Contribute to Aluminum Accumulation in Patients With Renal Disease.
Lin JL, Yang YJ, Yang SS, Leu ML. American Journal of Kidney Diseases : The Official Journal of the National Kidney Foundation. 1997;30(5):653-8. doi:10.1016/s0272-6386(97)90489-3.

Outras fontes de alumínio que precisam ser consideradas são: determinados aditivos alimentares, água, fermentos, em conservas de picles e de queijos, entre outras fontes.

Porém, não fique desesperado, querendo jogar suas panelas de alumínio fora. Pelo menos em Goiás, o solo é rico em alumínio e você não deixará de ingerir alimentos aqui plantados. Além disso, a empresa que cuida da nossa água, trata-a com sulfato de alumínio. Ou seja, é em vão, essa preocupação com alumínio oriundo da panela ou de desodorante. A nossa "contaminação" é muito mais oriunda do que comemos. Preocupe-se em ingerir lácteos de qualidade, já que o cálcio compete com o alumínio. Procure ingerir fontes de magnésio via alimentação, pois ele é um outro competidor. Procure em ter uma dieta saudável, rica em fibras, ao invés ficar paranóico com alumínio da panela. 

Panelas de inox


As panelas de inox são muito conhecidas pela sua beleza e resistência. O aço inoxidável, conhecido popularmente como inox, é composto por ferro, cromo e níquel. Sendo a proporção destes metais nos utensílios bastante variável: de 50 a 88% para o ferro, 11 a 30% para o cromo e de zero a 31% para o níquel. Entretanto, vários outros elementos como manganês e cobre, podem estar presentes em pequenas quantidades.

As panelas de inox demoram a esquentar, mas também a esfriar. O aconselhável é não escovar a panela com esponja de aço, tipo “bombril”. No polimento forma-se uma camada protetora de óxido que ajuda a impedir que os metais passem para os alimentos. 

Mas o que o Open Evidence fala sobre as panelas de aço inox?

A literatura médica demonstra que panelas de aço inox podem liberar níquel e cromo para os alimentos durante o preparo, especialmente em condições de cocção prolongada, uso de utensílios novos, presença de alimentos ácidos (como molhos de tomate ou frutas cítricas) e em utensílios de determinadas composições ou acabamentos superficiais.[1-7] 

O grau de liberação desses metais depende do tipo de aço inoxidável, do tempo de cozimento, do pH do alimento e do número de ciclos de uso do utensílio.

O níquel e o cromo liberados podem ser detectados em concentrações significativamente superiores ao fundo alimentar, principalmente nas primeiras utilizações do utensílio novo, com tendência à estabilização após múltiplos ciclos de uso.[1-3][5] Em alimentos ácidos, a liberação é mais pronunciada.[1][3-4][6] 

Embora a maioria dos estudos indique que as quantidades liberadas geralmente permanecem abaixo dos limites considerados seguros para a população geral, há risco potencial para indivíduos com hipersensibilidade ao níquel ou ao cromo, podendo ocorrer exacerbação de dermatite de contato ou reações cutâneas.[3-4][6-7]

No contexto populacional, a exposição adicional ao níquel e ao cromo por meio do uso de panelas de aço inox é considerada pequena em relação à ingestão total desses elementos pela dieta, exceto em situações específicas (utensílios novos, alimentos ácidos, indivíduos altamente sensíveis).[5][7] 

Não há evidências de risco toxicológico relevante para a população geral, conforme análise de margem de exposição (MOE).[2] Por outro lado, recomenda-se cautela para pacientes com alergia severa ao níquel, que podem se beneficiar do uso de utensílios alternativos.[4][6]

Em resumo, há evidência robusta de que panelas de aço inox podem contaminar alimentos com níquel e cromo, especialmente em condições específicas, mas o risco para a maioria da população é considerado baixo. O risco é maior para indivíduos com alergia conhecida a esses metais, principalmente níquel.[1][3-4][6-7] 

Não há evidência relevante de contaminação por chumbo em panelas de aço inox, ao contrário do que ocorre com panelas de alumínio ou latão.[8]

1. Stainless Steel Leaches Nickel and Chromium Into Foods During Cooking. Kamerud KL, Hobbie KA, Anderson KA. Journal of Agricultural and Food Chemistry. 2013;61(39):9495-501. doi:10.1021/jf402400v.
2. Determination of Toxic Metal Release From Metallic Kitchen Utensils and Their Health Risks. Koo YJ, Pack EC, Lee YJ, et al. Food and Chemical Toxicology : An International Journal Published for the British Industrial Biological Research Association. 2020;145:111651. doi:10.1016/j.fct.2020.111651.
3. Release of Nickel and Chromium in Common Foods During Cooking in 18/­10 (Grade 316) Stainless Steel Pots. Guarneri F, Costa C, Cannavò SP, et al. Contact Dermatitis. 2017;76(1):40-48. doi:10.1111/cod.12692.
4. Stainless Steel Cookware as a Significant Source of Nickel, Chromium, and Iron. Kuligowski J, Halperin KM. Archives of Environmental Contamination and Toxicology. 1992;23(2):211-5. doi:10.1007/BF00212277.
5. Purity of Food Cooked in Stainless Steel Utensils. Flint GN, Packirisamy S. Food Additives and Contaminants. 1997 Feb-Mar;14(2):115-26. doi:10.1080/02652039709374506.
6. Nickel in Food: The Role of Stainless-Steel Utensils. Brun R. Contact Dermatitis. 1979;5(1):43-5. doi:10.1111/j.1600-0536.1979.tb05534.x.
7. Contribution to Chromium and Nickel Enrichment During Cooking of Foods in Stainless Steel Utensils. Accominotti M, Bost M, Haudrechy P, et al. Contact Dermatitis. 1998;38(6):305-10. doi:10.1111/j.1600-0536.1998.tb05763.x.
8. Evaluating Metal Cookware as a Source of Lead Exposure. Fellows KM, Samy S, Whittaker SG. Journal of Exposure Science & Environmental Epidemiology. 2025;35(3):342-350. doi:10.1038/s41370-024-00686-7.

O níquel pode causar a exacerbação de alergias, dermatites de contato e asma e diversas outras alergias. Devido a esses problemas é recomendado que pessoas sensíveis ao níquel não utilizem utensílios de inox na cocção e preparo dos alimentos pois, a migração deste do utensílio para o alimento, apesar de pequena, não é desprezível, ainda mais se considerarmos o efeito acumulativo do consumo diário de alimentos preparados em utensílios de aço inoxidável.

Os principais fatores que afetam a migração desses minerais da superfície da panela são:
  • a acidez dos alimentos,
  • o tempo de cozimento,
  • temperatura,
  • agitação,
  • teor da água de preparação.
A presença de agentes quelantes no alimento, como por exemplo ácido cítrico e enxofre que está presente em diversos alimentos como por exemplo repolho, cebola, brócolis e couve flor podem também aumentar a migração dos minerais para os alimentos.

Panelas de ferro


O uso de panelas de ferro está associado a benefícios e riscos potenciais, conforme evidências da literatura médica. O principal benefício é o aumento da ingestão de ferro não-heme, especialmente relevante em populações com alta prevalência de anemia ferropriva. Estudos randomizados e revisões sistemáticas demonstram que cozinhar alimentos em panelas de ferro pode elevar os níveis de hemoglobina e melhorar o estado nutricional de crianças e mulheres em países de baixa e média renda, sem evidências de toxicidade aguda nesses contextos.[1-2]

Quanto aos riscos, a liberação de ferro para os alimentos depende de fatores como acidez, tempo de cocção e composição do alimento. Em indivíduos com status de ferro adequado, o excesso de ferro pode ser prejudicial, pois o ferro é um elemento pró-oxidante e pode catalisar reações que aumentam o estresse oxidativo, promovendo danos celulares, disfunção de membranas, e potencialmente aumentando o risco de doenças cardiovasculares e neoplasias, conforme sugerido por estudos epidemiológicos e experimentais.[3-5] 

Não há mecanismos fisiológicos eficientes para excreção de ferro em excesso, e a sobrecarga crônica pode levar a condições como hemocromatose secundária, cirrose hepática, diabetes e insuficiência cardíaca.[5]

Além disso, há evidências de que o uso de panelas de ferro pode liberar pequenas quantidades de outros metais tóxicos (como arsênio, cádmio, cromo e níquel), especialmente em condições de cocção ácida, embora os níveis detectados em estudos recentes estejam abaixo dos limites considerados de risco para a saúde humana.[6] 

O processo de “curar” a panela com óleo reduz significativamente a liberação desses metais.[6]

Outro risco identificado é a emissão de partículas ultrafinas e compostos orgânicos voláteis durante o preparo de alimentos em panelas de ferro, especialmente em ambientes comerciais, podendo contribuir para exposição respiratória a poluentes, incluindo nanopartículas de óxido de ferro, que apresentam toxicidade superior a outras formas de óxidos de ferro.[7]

Em resumo, o uso de panelas de ferro pode ser benéfico para populações com risco de deficiência de ferro, mas deve ser cautelosamente considerado em indivíduos com status de ferro adequado ou elevado, devido ao potencial de sobrecarga e efeitos pró-oxidantes. 

A exposição a metais tóxicos e poluentes atmosféricos é possível, mas os dados atuais sugerem que o risco é baixo em condições domésticas típicas, especialmente com uso adequado e manutenção das panelas.[3-7]

1. Effect of Consumption of Food Cooked in Iron Pots on Iron Status and Growth of Young Children: A Randomised Trial. Adish AA, Esrey SA, Gyorkos TW, Jean-Baptiste J, Rojhani A. Lancet (London, England). 1999;353(9154):712-6. doi:10.1016/S0140-6736(98)04450-X.
2. Iron-Containing Cookware for the Reduction of Iron Deficiency Anemia Among Children and Females of Reproductive Age in Low- And Middle-Income Countries: A Systematic Review. Alves C, Saleh A, Alaofè H. PloS One. 2019;14(9):e0221094. doi:10.1371/journal.pone.0221094.
3. Iron-Catalysed Chemistry in the Gastrointestinal Tract: Mechanisms, Kinetics and Consequences. A Review. Bechaux J, de La Pomélie D, Théron L, Santé-Lhoutellier V, Gatellier P. Food Chemistry. 2018;268:27-39. doi:10.1016/j.foodchem.2018.06.018.
4.Excess Iron Intake as a Factor in Growth, Infections, and Development of Infants and Young Children. Lönnerdal B. The American Journal of Clinical Nutrition. 2017;106(Suppl 6):1681S-1687S.doi:10.3945/ajcn.117.156042.
5. Safety Aspects of Iron in Food. Schümann K. Annals of Nutrition & Metabolism. 2001;45(3):91-101. doi:10.1159/000046713.
6. Determination of Toxic Metal Release From Metallic Kitchen Utensils and Their Health Risks.
Koo YJ, Pack EC, Lee YJ, et al. Food and Chemical Toxicology : An International Journal Published for the British Industrial Biological Research Association. 2020;145:111651. doi:10.1016/j.fct.2020.111651.
7. Α-FeO Nanoparticles and Hazardous Air Pollutants Release During Cooking Using Cast Iron Wok in a Commercial Chinese Restaurant. Le YT, Youn JS, Cho H, et al. Environmental Pollution (Barking, Essex : 1987). 2022;307:119578. doi:10.1016/j.envpol.2022.119578.

Panelas de vidro


As panelas de vidro são as únicas que não transferem qualquer resíduo para a comida, sendo ideais do ponto de vista da saúde. Além disso são lindas e a transparência permite ver o processo de elaboração dos alimentos. A facilidade da limpeza é outro ponto positivo. Os pontos negativos são o preço e fragilidade do material. 

O uso de panelas de vidro para preparo e armazenamento de alimentos é considerado seguro pela maioria dos consumidores e é frequentemente recomendado como alternativa a materiais que podem liberar contaminantes, como plásticos e revestimentos antiaderentes, conforme destacado em estudos de percepção e práticas de segurança [1,2]

O vidro convencional utilizado em panelas e recipientes para alimentos é quimicamente estável, não apresenta porosidade e, quando fabricado segundo padrões industriais, não libera substâncias tóxicas em condições normais de uso doméstico.

O vidro tem a seu favor também o fato de ser um material totalmente reciclável ou seja, seria a panela mais ecologicamente correta.

Há ressalvas importantes quanto ao tipo de vidro utilizado. Vidros artesanais ou vidros-clay (vidro-cerâmica artesanal) podem conter metais pesados, como chumbo, cádmio e cobalto, que podem migrar para os alimentos, especialmente em contato com preparações ácidas ou durante uso repetido.

Estudos demonstram que a lixiviação desses metais ocorre em recipientes artesanais, representando risco potencial à saúde, principalmente quando há reutilização frequente e exposição prolongada [3,4]

O vidro cristal, que contém óxido de chumbo, também pode liberar pequenas quantidades de chumbo, especialmente quando em contato com soluções ácidas e sob temperaturas elevadas, embora a taxa de liberação seja menor que a de outros componentes do vidro [4].

Por isso, recomenda-se evitar o uso de recipientes de vidro cristal para preparo ou armazenamento de alimentos, em especial bebidas ácidas ou alcoólicas.

Além disso, há evidências de que superfícies de vidro expostas a ambientes internos podem acumular partículas orgânicas provenientes de eventos culinários, formando uma película microscópica.

Embora esse fenômeno seja relevante para estudos de química ambiental, não há evidências de impacto direto na saúde humana decorrente desse tipo de deposição em panelas de vidro utilizadas para preparo de alimentos [5].
Conclusão

Em síntese, panelas de vidro industrializadas, sem adição de metais pesados, são consideradas seguras para uso culinário e armazenamento de alimentos, sendo inclusive recomendadas para consumidores preocupados com contaminação por materiais plásticos ou revestimentos antiaderentes [1,2].

O risco está associado principalmente ao uso de recipientes artesanais ou de vidro cristal, que podem liberar metais pesados e devem ser evitados para fins alimentares [3,4].


1. Moura J, Ferreira-Pêgo C, Fernandes AS. Consumers' Practices and Safety Perceptions Regarding the Use of Materials for Food Preparation and Storage: Analyses by Age Group. Food and Chemical Toxicology. 2023;178:113901. doi:10.1016/j.fct.2023.113901.
2. Rock CL, Thomson C, Gansler T, et al. American Cancer Society Guideline for Diet and Physical Activity for Cancer Prevention. CA: A Cancer Journal for Clinicians. 2020;70(4):245-271. doi:10.3322/caac.21591.
3. Valadez-Vega C, Zúñiga-Pérez C, Quintanar-Gómez S, et al. Lead, Cadmium and Cobalt (Pb, Cd, and Co) Leaching of Glass-Clay Containers by pH Effect of Food. International Journal of Molecular Sciences. 2011;12(4):2336-50. doi:10.3390/ijms12042336.
4. Angeli F, Jollivet P, Charpentier T, Fournier M, Gin S. Structure and Chemical Durability of Lead Crystal Glass. Environmental Science & Technology. 2016;50(21):11549-11558. doi:10.1021/acs.est.6b02971.
5. Or VW, Wade M, Patel S, et al. Glass Surface Evolution Following Gas Adsorption and Particle Deposition From Indoor Cooking Events as Probed by Microspectroscopic Analysis. Environmental Science: Processes & Impacts. 2020;22(8):1698-1709. doi:10.1039/d0em00156b.

Panelas de cobre


As panelas de cobre, embora muito bonitas e de transmissão rápida e homogênea do calor, são mais úteis como objetos decorativos na cozinha. O uso de panelas de cobre envolve considerações importantes de segurança à saúde, principalmente relacionadas à possibilidade de lixiviação de cobre para os alimentos. 

Panelas de cobre não revestidas podem liberar quantidades significativas de cobre, especialmente quando utilizadas para preparar alimentos ácidos, como tomate ou vinagre. A exposição aguda a níveis elevados de cobre pode causar sintomas gastrointestinais, como náuseas, vômitos e dor abdominal, e, em casos raros, toxicidade hepática, especialmente em indivíduos com distúrbios genéticos do metabolismo do cobre, como a doença de Wilson.[1-2]

A maioria das panelas de cobre comercializadas atualmente é revestida internamente com estanho ou aço inoxidável, o que impede a migração significativa de cobre para os alimentos e torna seu uso seguro para a população geral.[1]

 No entanto, panelas de cobre não revestidas, misturadores e canecas devem ser evitados, sobretudo por pacientes com distúrbios do metabolismo do cobre, como a doença de Wilson, devido ao risco de acúmulo tóxico.[1]

A exposição crônica a níveis elevados de cobre está associada a efeitos adversos, incluindo aumento do risco de distúrbios metabólicos, como dislipidemia, resistência à insulina, doença hepática gordurosa não alcoólica (NAFLD), doença renal crônica e aumento do risco cardiovascular e de mortalidade geral.[3-6] 

Estudos epidemiológicos demonstram que níveis elevados de cobre circulante estão associados a maior risco de acidente vascular cerebral, mortalidade cardiovascular e por todas as causas, além de maior prevalência de NAFLD e doença renal crônica, especialmente em populações suscetíveis[[4-5]

1. A Multidisciplinary Approach to the Diagnosis and Management of Wilson Disease: 2022 Practice Guidance on Wilson Disease From the American Association for the Study of Liver Diseases. Schilsky ML, Roberts EA, Bronstein JM, et al. Hepatology (Baltimore, Md.). 2022;. doi:10.1002/hep.32801.
2. Critical Review of Exposure and Effects: Implications for Setting Regulatory Health Criteria for Ingested Copper.
Taylor AA, Tsuji JS, Garry MR, et al. Environmental Management. 2020;65(1):131-159. doi:10.1007/s00267-019-01234-y.
3. Potential Interference on the Lipid Metabolisms by Serum Copper in a Women Population: A Repeated Measurement Study.
Chen J, Lan C, An H, et al. The Science of the Total Environment. 2021;760:143375. doi:10.1016/j.scitotenv.2020.143375.
4. Circulating Copper Levels and the Risk of Cardio-Cerebrovascular Diseases and Cardiovascular and All-Cause Mortality: A Systematic Review and Meta-Analysis of Longitudinal Studies. Zhao H, Mei K, Hu Q, et al. Environmental Pollution (Barking, Essex : 1987). 2024;340(Pt 2):122711. doi:10.1016/j.envpol.2023.122711.
5. Copper Exposure Association With Prevalence of Non-Alcoholic Fatty Liver Disease and Insulin Resistance Among US Adults (NHANES 2011-2014). Chen C, Zhou Q, Yang R, et al. Ecotoxicology and Environmental Safety. 2021;218:112295. doi:10.1016/j.ecoenv.2021.112295.
6. Association of Copper Exposure With Prevalence of Chronic Kidney Disease in Older Adults.
Guo F, Lin Y, Meng L, et al. Clinical Nutrition (Edinburgh, Scotland). 2022;41(12):2720-2728. doi:10.1016/j.clnu.2022.10.016.

Panelas de cerâmicas


A panelas de cerâmica sofrem um tratamento térmico em fornos de alta temperatura. Em seguida recebem uma camada fina e contínua de um vidrado, também conhecido com esmalte, que é submetido a queima a 1300ºC, adquirindo uma aspecto vítreo.

A vitrificação torna a panela com uma superfície mais homogênea, impermeável, sem porosidade, ou seja, a panela fica esteticamente mais bonita e com características que a tornam mais higiênica. Entretanto, é muito importante ter certeza que os corantes utilizados na vitrificação não sejam a base de chumbo ou cádmio.

A literatura médica recente demonstra que o uso de panelas e utensílios cerâmicos pode representar riscos à saúde humana, principalmente devido à migração de metais pesados presentes nos esmaltes e pigmentos utilizados na fabricação desses produtos. 

Diversos estudos documentam a lixiviação significativa de chumbo (Pb), cádmio (Cd), arsênio (As) e outros elementos tóxicos para alimentos e bebidas, especialmente em condições de aquecimento, contato com substâncias ácidas e uso repetido.[1-5]

A migração desses metais é influenciada por fatores como o tipo de esmalte, pigmento, pH do alimento, natureza do ácido, temperatura e tempo de exposição. O risco é maior em cerâmicas coloridas, decorativas ou artesanais, e em utensílios novos, nos quais a liberação de chumbo e cádmio pode exceder os limites regulatórios estabelecidos em países como os EUA.[3][5] 

O aquecimento em micro-ondas ou forno pode aumentar substancialmente a lixiviação desses metais.[5] 
Mesmo em cerâmicas industriais, há evidências de migração de outros elementos além de chumbo e cádmio, como alumínio, bário, cobalto, cobre, ferro, manganês, níquel, entre outros, especialmente em contato com alimentos ácidos e sob altas temperaturas.[4]

A exposição crônica a chumbo e cádmio está associada a efeitos neurotóxicos, nefrotóxicos, hematológicos e reprodutivos, com impacto potencial em crianças, gestantes e adultos, mesmo em níveis considerados baixos.[2-3][5] 

O consumo regular de alimentos ou bebidas preparados ou armazenados em cerâmicas com esmaltes contendo esses metais pode contribuir significativamente para a carga corporal total, ultrapassando valores de referência de ingestão segura.[5]

Por outro lado, panelas cerâmicas que utilizam esmaltes livres de metais pesados e seguem padrões industriais rigorosos apresentam menor risco de lixiviação, sendo consideradas seguras para uso culinário. No entanto, a literatura destaca que a ausência de regulamentação específica para áreas de contato indireto (como bordas externas e áreas decorativas) pode resultar em exposições não previstas.[2]

Em síntese, os benefícios do uso de panelas cerâmicas estão relacionados à sua estabilidade térmica, facilidade de limpeza e ausência de reatividade química do material cerâmico em si. Contudo, os riscos à saúde humana decorrem principalmente da composição dos esmaltes e pigmentos, com potencial de lixiviação de metais tóxicos, especialmente em produtos coloridos, decorativos, artesanais ou aquecidos. 

A escolha de cerâmicas industrializadas, certificadas e livres de metais pesados é fundamental para minimizar riscos.[1-5]

1. Leaching of Arsenic From Glazed and Nonglazed Potteries Into Foods. Çiftçi TD, Henden E. The Science of the Total Environment. 2016;569-570:1530-1535. doi:10.1016/j.scitotenv.2016.06.245.
2. Migration Kinetics of Cadmium and Lead From Ceramic Mugs. Turner A. Journal of Hazardous Materials. 2025;496:139204. doi:10.1016/j.jhazmat.2025.139204.
3. High Level Leaching of Heavy Metals From Colorful Ceramic Foodwares: A Potential Risk to Human. Aderemi TA, Adenuga AA, Oyekunle JAO, Ogunfowokan AO. Environmental Science and Pollution Research International. 2017;24(20):17116-17126. doi:10.1007/s11356-017-9385-7.
4. Migration of 18 Trace Elements From Ceramic Food Contact Material: Influence of Pigment, pH, Nature of Acid and Temperature. Demont M, Boutakhrit K, Fekete V, Bolle F, Van Loco J. Food and Chemical Toxicology : An International Journal Published for the British Industrial Biological Research Association. 2012;50(3-4):734-43. doi:10.1016/j.fct.2011.12.043.
5. Leachable Lead and Cadmium in Microwave-Heated Ceramic Cups: Possible Health Hazard to Human. Mandal PR, Das S. Environmental Science and Pollution Research International. 2018;25(29):28954-28960. doi:10.1007/s11356-018-2944-8.

Panelas de Teflon


Panelas de Teflon são revestidas com politetrafluoretileno (PTFE), um polímero que confere propriedades antiaderentes. A literatura médica atual aponta que, em condições normais de uso doméstico (temperaturas abaixo de 250 °C), o PTFE é quimicamente estável e não há evidências de toxicidade aguda relevante. 

No entanto, há preocupações crescentes sobre riscos associados à degradação térmica do revestimento e à liberação de microplásticos e compostos perfluorados, especialmente quando o utensílio é aquecido acima de 250 °C ou apresenta desgaste significativo.[1-3]

A exposição a microplásticos provenientes do desgaste do revestimento de PTFE durante o preparo de alimentos foi recentemente documentada, com ingestão potencial de milhares de partículas por ano. Os efeitos à saúde da ingestão crônica de microplásticos ainda não estão totalmente esclarecidos, mas há preocupação sobre impactos inflamatórios e metabólicos.[2] 

Além disso, o processo de fabricação do PTFE tradicionalmente envolvia o uso de ácido perfluorooctanoico (PFOA), um composto da classe dos PFAS (substâncias per- e polifluoroalquil), reconhecido por sua persistência ambiental, bioacumulação e toxicidade. 

O PFOA foi associado a efeitos adversos em diversos sistemas, incluindo metabolismo lipídico, função endócrina, saúde cardiovascular, hepática, renal, óssea e risco de câncer, embora as evidências epidemiológicas em humanos ainda sejam limitadas e heterogêneas.[4-6]

Devido à toxicidade do PFOA, sua utilização foi progressivamente banida nos Estados Unidos e substituída por outros PFAS, como GenX, que também apresentam potenciais riscos toxicológicos ainda em investigação.[1][6] 

A exposição a PFAS ocorre não apenas por utensílios de cozinha, mas também por água, alimentos e outros produtos de consumo, sendo relevante principalmente em populações vulneráveis e em exposições cumulativas.[5-6]

Em relação à segurança, o uso de panelas de Teflon é considerado seguro desde que se evite superaquecimento (acima de 250 °C), abrasão excessiva e uso de utensílios danificados, pois essas condições aumentam a liberação de partículas e compostos tóxicos.[1][3] 

Não há evidências de benefícios diretos à saúde humana decorrentes do uso de panelas de Teflon, exceto pela facilidade de preparo e limpeza, que pode contribuir indiretamente para práticas alimentares mais saudáveis.

Em resumo, os principais riscos associados ao uso de panelas de Teflon são: liberação de microplásticos e PFAS (especialmente em panelas antigas ou danificadas), potencial toxicidade dos compostos perfluorados, e risco de intoxicação aguda por gases tóxicos em casos de superaquecimento extremo. O uso adequado, em temperaturas moderadas e com utensílios em bom estado, minimiza esses riscos.[1-6]

Os efeitos a longo prazo do uso de panelas de Teflon (revestidas com politetrafluoretileno, PTFE) na saúde estão relacionados principalmente à exposição crônica a compostos da classe dos perfluoroalquil e polifluoroalquil (PFAS), como o ácido perfluorooctanoico (PFOA), e à ingestão de microplásticos de PTFE liberados pelo desgaste do revestimento antiaderente.

A exposição crônica a PFAS, incluindo PFOA e PFOS, está associada a uma série de efeitos adversos documentados em revisões sistemáticas e meta-análises, como dislipidemia (aumento do colesterol LDL), redução do crescimento fetal, diminuição da resposta vacinal, alterações na função tireoidiana, risco aumentado de câncer renal, testicular e mamário, além de possíveis efeitos sobre hipertensão gestacional, pré-eclâmpsia e disfunção endócrina.

Esses compostos são altamente persistentes no organismo, com meia-vida de até 9 anos, e tendem a se acumular ao longo do tempo, especialmente em populações expostas de forma contínua.

Estudos em humanos sugerem ainda associações entre PFAS e alterações metabólicas, como risco aumentado de diabetes tipo 2, disfunção pancreática, alterações hepáticas e renais, imunossupressão, osteoporose, maior risco de cáries dentárias e deficiência de vitamina D, além de potenciais efeitos neurotóxicos e reprodutivos.

Embora a evidência epidemiológica para alguns desses desfechos ainda seja limitada ou inconsistente, há consenso sobre o potencial de toxicidade crônica dos PFAS, especialmente em exposições cumulativas.

Além dos PFAS, o desgaste do revestimento de PTFE pode liberar microplásticos, cuja ingestão crônica está associada à indução de estresse oxidativo, inflamação e ativação de vias intracelulares pró-inflamatórias, como a via ERK, conforme demonstrado em modelos celulares humanos.

Embora os efeitos diretos dos microplásticos de PTFE em humanos ainda estejam em investigação, há preocupação crescente sobre seu potencial de contribuir para processos inflamatórios e disfunções metabólicas a longo prazo.

Em síntese, o uso prolongado de panelas de Teflon pode resultar em exposição crônica a PFAS e microplásticos, com potenciais efeitos adversos sobre o metabolismo lipídico, crescimento fetal, função imunológica, saúde cardiovascular, renal, hepática, óssea, tireoidiana e risco de câncer, além de possíveis efeitos inflamatórios e endócrinos.

A magnitude do risco depende do grau de desgaste do utensílio, da temperatura de uso e da composição do revestimento, sendo maior em panelas antigas ou danificadas. A substituição do PFOA por outros PFAS, como GenX, não elimina completamente o risco, pois esses compostos também apresentam toxicidade relevante.

Portanto, embora o uso adequado de panelas de Teflon em boas condições e em temperaturas moderadas seja considerado seguro, a literatura médica recomenda cautela quanto ao uso prolongado e ao estado de conservação desses utensílios, especialmente em populações vulneráveis, devido ao potencial de efeitos adversos cumulativos à saúde

1. PTFE-coated Non-Stick Cookware and Toxicity Concerns: A Perspective.  Sajid M, Ilyas M. Environmental Science and Pollution Research International. 2017;24(30):23436-23440. doi:10.1007/s11356-017-0095-y.
2. Microplastic and PTFE Contamination of Food From Cookware. Cole M, Gomiero A, Jaén-Gil A, Haave M, Lusher A. The Science of the Total Environment. 2024;929:172577. doi:10.1016/j.scitotenv.2024.172577.
3. Influence of Heating Temperature and Time on Mechanical-Degradation, Microstructures and Corrosion Performances of Teflon/­Granite Coated Aluminum Alloys Used for Non-Stick Cookware. S Alaboodi A, Sivasankaran S, R Ammar H. Heliyon. 2024;10(14):e34676. doi:10.1016/j.heliyon.2024.e34676.
4. American Cancer Society Guideline for Diet and Physical Activity for Cancer Prevention.
Rock CL, Thomson C, Gansler T, et al. CA: A Cancer Journal for Clinicians. 2020;70(4):245-271. doi:10.3322/caac.21591.
5. Environmental Exposures and Pediatric Cardiology: A Scientific Statement From the American Heart Association. Zachariah JP, Jone PN, Agbaje AO, et al. Circulation. 2024;149(20):e1165-e1175.doi:10.1161/CIR.0000000000001234.
6. Health-Related Toxicity of Emerging Per- And Polyfluoroalkyl Substances: Comparison to Legacy PFOS and PFOA. Jane L Espartero L, Yamada M, Ford J, et al. Environmental Research. 2022;212(Pt C):113431. doi:10.1016/j.envres.2022.113431.

Panelas esmaltadas ou de ágata


As panelas esmaltadas atraem pela beleza, pela variedade de cores e desenhos. Geralmente as panelas de ágata tem boa retenção de calor devido à base de ferro, mas são mais leves devido a menor espessura do ferro utilizado para ser esmaltado. Devido ao esmalte essas panelas são facilmente limpas.

Panelas e utensílios esmaltados (enameled cookware) são geralmente considerados seguros para uso culinário, desde que estejam em boas condições e sejam fabricados conforme normas de segurança para materiais em contato com alimentos. 

No entanto, a literatura médica destaca preocupações específicas relacionadas à possibilidade de lixiviação de metais pesados, especialmente chumbo (Pb) e cádmio (Cd), presentes em esmaltes coloridos ou decorativos, principalmente em cerâmicas e vidros esmaltados.[1-3]

A lixiviação desses metais pode ocorrer em condições de uso cotidiano, especialmente quando o esmalte está danificado, desgastado ou exposto a alimentos ácidos e altas temperaturas, como em aquecimento por micro-ondas.[2-3] 

Estudos demonstram que utensílios novos podem liberar quantidades significativamente maiores de chumbo e cádmio do que utensílios antigos, e que os níveis detectados frequentemente excedem os limites considerados seguros por órgãos reguladores, como o FDA nos EUA.[3] 

A exposição crônica a chumbo está associada a efeitos neurotóxicos, redução do QI em crianças, distúrbios hematológicos e reprodutivos, enquanto o cádmio pode causar nefrotoxicidade, osteotoxicidade e efeitos carcinogênicos.[1][3]

A segurança do uso depende fortemente da qualidade do esmalte, do processo de fabricação e da integridade do revestimento. Produtos fabricados segundo padrões atuais tendem a apresentar menor risco de lixiviação, mas artigos antigos, coloridos ou decorativos, especialmente aqueles com esmalte desgastado, podem representar risco significativo.[1-2] 

O risco é maior em utensílios de origem desconhecida ou sem certificação, e em países onde a regulação é menos rigorosa.[2]

Em relação à percepção dos consumidores, há reconhecimento do risco de contaminação por metais pesados, mas o conhecimento sobre simbologia e práticas seguras de uso e manutenção ainda é limitado, o que pode aumentar a exposição inadvertida.[4]

Portanto, do ponto de vista clínico, recomenda-se evitar o uso de utensílios esmaltados danificados, especialmente para preparo ou armazenamento de alimentos ácidos ou para aquecimento em micro-ondas, e dar preferência a produtos certificados e fabricados segundo normas internacionais de segurança. 

A substituição por materiais como vidro ou aço inoxidável é considerada mais segura em termos de risco de contaminação química.[4-5]

1. Cadmium Pigments in Consumer Products and Their Health Risks. Turner A. The Science of the Total Environment. 2019;657:1409-1418. doi:10.1016/j.scitotenv.2018.12.096.
2. High Level Leaching of Heavy Metals From Colorful Ceramic Foodwares: A Potential Risk to Human. Aderemi TA, Adenuga AA, Oyekunle JAO, Ogunfowokan AO. Environmental Science and Pollution Research International. 2017;24(20):17116-17126. doi:10.1007/s11356-017-9385-7.
3. Leachable Lead and Cadmium in Microwave-Heated Ceramic Cups: Possible Health Hazard to Human. Mandal PR, Das S. Environmental Science and Pollution Research International. 2018;25(29):28954-28960. doi:10.1007/s11356-018-2944-8.
4. Consumers' Practices and Safety Perceptions Regarding the Use of Materials for Food Preparation and Storage: Analyses by Age Group. Moura J, Ferreira-Pêgo C, Fernandes AS. Food and Chemical Toxicology : An International Journal Published for the British Industrial Biological Research Association. 2023;178:113901. doi:10.1016/j.fct.2023.113901.
5. American Cancer Society Guideline for Diet and Physical Activity for Cancer Prevention.
Rock CL, Thomson C, Gansler T, et al. CA: A Cancer Journal for Clinicians. 2020;70(4):245-271. doi:10.3322/caac.21591.

Panelas de pedra-sabão


As panelas de pedra sabão além da beleza são antiaderentes e retem o calor por muito tempo. São muito pesadas. São feitas de estealito que é uma rocha abundante em Minas Gerais, que já era utilizada na confecção de utensílios culinários pelos índios. Durante o cozimento libera quantidades expressivas de elementos nutricionalmente importantes como cálcio, magnésio, ferro e manganês. As panelas não curadas liberam também uma quantidade importante de níquel.

A panela é comprada ''crua'', por isso a cor dela é clara, e precisa ser curada com óleo ou gordura antes da utilização. Uma das técnicas de cura mais difundidas consiste em untar a panela com óleo por dentro e por fora, encher o recipiente com água e levar ao forno, na temperatura de 200° por 2 horas. Desligar o forno e aguardar que a panela esteja resfriada para tirar do forno. Repetir o procedimento antes do primeiro uso.

O uso de panelas de pedra-sabão (esteatita) apresenta considerações de segurança distintas em relação à migração de minerais e metais para os alimentos. 

Estudos demonstram que, durante o preparo de alimentos, há liberação de minerais como cálcio, magnésio, ferro e manganês, em níveis que podem contribuir positivamente para a nutrição mineral, especialmente quando as panelas são previamente “curadas” processo que reduz a solubilidade dos componentes e aumenta a durabilidade do utensílio. 

A migração de metais potencialmente tóxicos, como alumínio, cromo, cobalto, chumbo e cádmio, ocorre em níveis desprezíveis em panelas curadas, não representando risco toxicológico relevante. 

No entanto, panelas cruas (não curadas) podem liberar níquel em quantidades mais elevadas, especialmente em contato com soluções ácidas, o que pode ser relevante para indivíduos sensíveis ao níquel ou com histórico de dermatite de contato.[1]

Além disso, a exposição de bebidas alcoólicas a recipientes de pedra-sabão pode reduzir a concentração de cobre e chumbo, mas aumentar significativamente a liberação de níquel, sobretudo no primeiro ciclo de contato. Arsênio e cádmio não apresentaram alteração significativa. A liberação de níquel, embora mais pronunciada em contato com álcool, também pode ocorrer em menor grau durante o preparo de alimentos, especialmente em panelas novas ou não curadas.[2]

Portanto, do ponto de vista clínico, panelas de pedra-sabão curadas e em bom estado não oferecem risco significativo de toxicidade mineral e podem até contribuir para a ingestão de minerais essenciais. 

O principal cuidado envolve evitar o uso de panelas cruas ou danificadas, devido ao potencial de liberação de níquel, e atentar para o preparo de alimentos muito ácidos, que podem aumentar a migração de minerais. Não há evidências de risco relevante de contaminação por chumbo ou cádmio em panelas curadas, segundo a literatura disponível.[1-2]

1. Soapstone (Steatite) Cookware as a Source of Minerals. Quintaes KD, Amaya-Farfan J, Morgano MA, Mantovani DM. Food Additives and Contaminants. 2002;19(2):134-43. doi:10.1080/02652030110066206.
2. Evaluation of Raw Soapstone (Steatite) as Adsorbent of Trace Elements Present in Brazilian Spirits.
Louvera Silva KA, da Costa Fernandes I, Bearzoti E, et al. Food Chemistry. 2016;200:83-90. doi:10.1016/j.foodchem.2016.01.020.

Panelas de barro


A confecção de panelas de barro no Brasil tem uma tradição de 400 anos no Espírito Santo, tendo sido iniciada pelos índios e atualmente produzidas pela população local de forma mais rústica e irregulares. Depois de confeccionadas são queimadas em fogueiras feitas ao ar livre. Ainda quentes são recobertas por tanino que dá a coloração característica da panela.

O uso de panelas de barro (argila) para cozinhar apresenta benefícios e riscos que devem ser considerados à luz da literatura médica.

Entre os benefícios, destaca-se a tradição cultural e a capacidade de conferir características sensoriais específicas aos alimentos, como sabor e aroma, além de potencial retenção de compostos bioativos em preparos específicos, como observado em infusões de chá em panelas de argila Yixing, que podem preservar catequinas e reduzir o teor de cafeína em relação a outros materiais.[1] 

Panelas de barro também apresentam boa retenção térmica e distribuição uniforme de calor, favorecendo o preparo lento de alimentos.

No entanto, os riscos estão principalmente relacionados à lixiviação de metais pesados e elementos tóxicos presentes na argila ou em esmaltes utilizados em panelas de barro, especialmente as artesanais ou de origem desconhecida. Estudos demonstram que panelas de barro podem liberar arsênio, chumbo, cádmio e cobalto para os alimentos, especialmente em preparos ácidos ou após uso repetido.[2-3] 

A lixiviação desses metais pode atingir níveis que representam risco à saúde, com potencial de exceder limites de ingestão segura, principalmente para arsênio e chumbo, que estão associados a efeitos neurotóxicos, nefrotóxicos e carcinogênicos. O risco é maior em panelas não vitrificadas, com esmaltes coloridos ou de fabricação artesanal, e pode ser agravado pelo uso frequente ou prolongado.[2-4]

Além disso, a literatura aponta que o tipo de alimento, o pH e o tempo de contato influenciam a quantidade de metais liberados.[3] 

O processo tradicional de “curar” a panela (oleação e aquecimento) pode reduzir parcialmente a lixiviação de arsênio, mas não elimina completamente o risco.[2] Não há evidências de que panelas de barro ofereçam vantagens nutricionais relevantes em relação à retenção de micronutrientes, e, em alguns casos, podem até contribuir para perdas nutricionais dependendo do tipo de preparo.[5]

Em síntese, panelas de barro podem ser utilizadas com segurança quando há garantia de origem, ausência de esmaltes tóxicos e controle de qualidade na fabricação. O uso de panelas artesanais ou sem certificação deve ser evitado devido ao risco de contaminação por metais pesados. 

Recomenda-se atenção especial ao preparo de alimentos ácidos e ao estado de conservação da panela, além de considerar alternativas mais seguras, como panelas de vidro, aço inoxidável ou esmaltadas certificadas.[2-4]

1.Effect of Teapot Materials on the Chemical Composition of Oolong Tea Infusions. Liao ZH, Chen YJ, Tzen JT, et al. Journal of the Science of Food and Agriculture. 2018;98(2):751-757. doi:10.1002/jsfa.8522.
2. Leaching of Arsenic From Glazed and Nonglazed Potteries Into Foods. Çiftçi TD, Henden E. The Science of the Total Environment. 2016;569-570:1530-1535. doi:10.1016/j.scitotenv.2016.06.245.
3. Lead, Cadmium and Cobalt (Pb, Cd, and Co) Leaching of Glass-Clay Containers by pH Effect of Food. Valadez-Vega C, Zúñiga-Pérez C, Quintanar-Gómez S, et al. International Journal of Molecular Sciences. 2011;12(4):2336-50. doi:10.3390/ijms12042336.
4. High Level Leaching of Heavy Metals From Colorful Ceramic Foodwares: A Potential Risk to Human. Aderemi TA, Adenuga AA, Oyekunle JAO, Ogunfowokan AO.Environmental Science and Pollution Research International. 2017;24(20):17116-17126. doi:10.1007/s11356-017-9385-7.
5. Loss of Food Nutrients Orchestrated by Cooking Pots: A Common Trend in Developing World.
Onyeka UE, Ibeawuchi ON.Journal of Food Science and Technology. 2021;58(8):2906-2913. doi:10.1007/s13197-020-04792-w.

Autor: Dr. Frederico Lobo - Médico Nutrólogo - CRM-GO 13192 - RQE11915
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segunda-feira, 21 de julho de 2025

Será que plantas crioulas têm mais nutrientes que as convencionais? Por Flávia Schiochet (O joio e o trigo)


É provável que sim, mas depende. A combinação de material genético, saúde do solo, manejo e clima não é um quebra-cabeça simples de montar. Até agora, ciência não tem resposta definitiva 

Há uns meses, uma embalagem de fubá chamou a atenção aqui na redação do Joio. Ela dizia que o milho crioulo tinha mais ferro que outras variedades de milho. Ficamos encucados: será que é uma característica das plantas crioulas ter mais nutrientes? E, se for, será que genética basta para que fruto, folha ou raiz tenha mais vitaminas e minerais, independentemente do solo e do manejo? Minha hipótese era que, provavelmente, sim. 

Algumas entrevistas e revisões bibliográficas depois, a resposta se desenhou com uma irônica clareza: na verdade, depende.  

“Crioula” é a denominação dada às plantas selecionadas ao longo de gerações de agricultores. Essa prática resulta em espécies que estão mais bem adaptadas ao local de sua domesticação, e não são registradas como sementes comerciais. 

A venda de sementes crioulas é permitida pela legislação brasileira entre agricultores familiares, e a norma não exige que o material genético crioulo tenha as mesmas taxas de germinação, vigor e pureza que as variedades comerciais registradas junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). 

Segundo os pesquisadores que o Joio ouviu, não é impossível que uma variedade crioula tenha mais vitaminas e minerais. Mas, nesse caso, a comparação do milho crioulo foi feita com qual das 744 variedades comerciais de milho que existem no Brasil? Essa informação, o rótulo não trazia.  

São três as principais variáveis que afetam o desenvolvimento das plantas: 
  1. O solo, 
  2. Sua genética,
  3. O clima. 
É o chamado sistema solo-planta-atmosfera – dessas três coisas, o ser humano consegue influenciar nas duas primeiras. A importância de cada um desses fatores varia de planta para planta. “Não é possível pontuar ou quantificar esses fatores porque isso dependerá de cada espécie vegetal”, resume Mauro Brasil, professor de Agronomia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).  

As variáveis intrínsecas aos seres vivos também são muitas e aumentam a complexidade da equação. Por exemplo, a genética da planta pode influenciar na absorção de minerais e, com isso, pode gerar frutos mais ricos. 

A noção de possibilidade é importante: nenhuma variável é determinante para o acúmulo ou a falta de nutrientes. A botânica é um quebra-cabeça de milhões de peças. E cada peça é também um quebra-cabeça com muitas outras.

A grosso modo, a composição nutricional tem macronutrientes, micronutrientes e compostos bioativos. Foi para entender como frutas, verduras, cereais, legumes e raízes formam sua composição nutricional que começamos essa apuração. E terminamos essa pesquisa com uma resposta bastante longa.  

Glossário 
  • Macronutrientes: Proteínas, gorduras e carboidratos 
  • Micronutrientes: Vitaminas (A, D e do complexo B, por exemplo) e minerais (cálcio, fósforo, ferro, sódio etc.) 
  • Compostos bioativos: Substâncias como os carotenóides, a quercetina, as antocianinas, o licopeno e os terpenóides, que são elaboradas pelas plantas para defesa e comunicação. São benéficas para o consumo humano por suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. 
“Os fatores que mexem com a composição nutricional do fruto são muito, muito variáveis, e muito difíceis de controlar. Não dá para cravar: ‘se eu fizer tal coisa, vai acontecer tal coisa’. A gente consegue ver tendências”, explica Eduardo Purgatto, professor e pesquisador da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP) e diretor-executivo do Centro de Pesquisa em Alimentos, o Food Research Center. Isso se explica pela agilidade com que os vegetais respondem aos estímulos do ambiente, da fauna, da flora e das condições climáticas. “Sendo um organismo que não tem mobilidade, ele tem que ter uma plasticidade enorme para conseguir fazer frente aos desafios que o ambiente traz. É um caso de sucesso evolutivo fantástico”, comenta Purgatto.  

Essa plasticidade é o que faz cada parte de uma mesma planta reagir de forma diferente ao mesmo tempo. Por exemplo: é comum que frutos de um lado da árvore que pega mais sol tenham uma composição diferente dos que estão sujeitos à luz indireta ou sombra. Além disso, é difícil construir um experimento que traga uma resposta definitiva, porque se testa uma variável por vez, para poder medir os resultados e entender o que os causou. Mas aí, quando for hora de repetir o experimento para testar outra variável, os estímulos não controláveis já mudaram: a incidência do sol não será mais a mesma, nem a umidade do ar, nem a amplitude térmica. E o resultado pode ser totalmente diferente do primeiro experimento, mesmo que seja feito em estufas e com clones das plantas.  

Em estudos que comparavam a concentração de nutrientes e antioxidantes em frutas cultivadas de formas distintas, os resultados variaram. Um experimento de 2021, na Grécia, com três tipos de uva apontou que uma variedade concentrou mais nutrientes que as outras, tanto no manejo orgânico quanto no convencional. Já um estudo feito no Irã, publicado em 2025, comparou seis frutas em manejo orgânico e convencional, e encontrou frutos com mais nutrientes, minerais e compostos bioativos no pomar orgânico – entre elas, um tipo de uva.  As conclusões de ambas as pesquisas começam da mesma forma: “os resultados sugerem”. 

Sugerir, outro verbo que, assim como poder, não bate o martelo.  O estudo iraniano cita experimentos similares com frutas e conclui: “Embora a literatura tenha mostrado diferenças entre alimentos orgânicos e convencionais, com os orgânicos em vantagem, as informações existentes permanecem insuficientes, necessitando de mais pesquisas para estabelecer conclusões definitivas.” O porquê de as uvas do experimento grego manterem as mesmas taxas de nutrientes e antioxidantes tanto no cultivo orgânico quanto no convencional é quase impossível de responder – os experimentos nunca mais serão repetidos do mesmo jeito. Pode ser o fato de as uvas serem de plantas em um vinhedo, enquanto o experimento iraniano foi em um pomar com outras espécies? Pode ser a composição dos solos, os microrganismos presentes, a umidade do ar? Ou a genética das videiras?  Pode, na verdade, ser tudo isso. 

Para explicar a complexidade desse quebra-cabeça, vamos passar por duas variáveis controladas pelo ser humano e entender o que é consenso científico e o que os pesquisadores ainda não conseguem responder. 

Solo, manejo e um pouco de estresse 

O solo é vivo. Em sua composição, há uma infinidade de bactérias, fungos, leveduras, insetos e outros seres vivos que interagem entre si e com as plantas. Essa complexidade é quase inteiramente invisível a olho nu, mas influencia a composição vegetal. Na agricultura, o solo é modificado pelo homem: corrigido, adubado e revirado para criar as condições ideais para um cultivo. Nisso, novas variáveis se somam ao quebra-cabeça: matéria orgânica, micro-organismos e minerais.  Em linhas gerais, cada espécie terá sua combinação ideal desses elementos. 

Caso não encontre essas condições, seu desenvolvimento ficará prejudicado, e isso se refletirá na composição nutricional. Outra questão é que, se a planta não cresce de forma saudável, é pouco provável que resista ao ataque de um inseto ou mesmo que produza frutos para continuar sua descendência.  Na revisão bibliográfica feita pela reportagem, o mais comum foi encontrar artigos que comparam o tipo de manejo, dividindo-o entre convencional e orgânico. 

Porém, essa classificação não é completamente descritiva de todas as decisões tomadas pelo agricultor.  A grosso modo, pode-se dizer que o manejo convencional pode usar adubação química e/ou orgânica, pode fazer rotação de culturas ou optar pela monocultura, e o uso de agrotóxicos é liberado.  Já o manejo orgânico não usa fertilizantes químicos, nem agrotóxicos. 

Mas o termo “orgânico” não proíbe, por exemplo, a monocultura – diferentemente da agroecologia, ciência que integra uma visão ecológica com a agricultura, em que a saúde do solo e a biodiversidade são tão importantes quanto a produção agrícola. Nos artigos, não há um detalhamento tão preciso das práticas convencional e orgânica, o que torna a comparação de resultados ainda mais complicada.  Essas combinações possíveis no manejo, somadas às combinações de clima e genética, aumentam a incerteza do que é, exatamente, que faz as plantas serem mais nutritivas.  

Há estudos que apontam que tanto o uso de fertilizantes químicos quanto orgânicos – ou mesmo uma combinação dos dois – trará concentrações similares de nutrientes. Um artigo de 2023 fez uma meta-análise de estudos que compararam formas de adubação. 

Os pesquisadores compilaram e analisaram dados de 551 experimentos, realizados entre 1972 e 2022 em todos os continentes.   Na agricultura, o solo é modificado pelo homem: corrigido, adubado e revirado para criar as condições ideais para um cultivo — e as combinações práticas são incontáveis. 

A conclusão foi que a aplicação de fertilizantes (principalmente o tipo químico nitrogênio, fósforo e potássio, combinado ou não com adubo orgânico) aumentou, em média, em 30,9% a produtividade e em 11,9% a qualidade nutricional dos alimentos do que culturas que não foram adubadas.  

No entanto, os resultados foram pouco expressivos nos solos mais pobres, que apresentavam pouca matéria orgânica. Isso porque os vegetais elaboram seus macronutrientes a partir de elementos presentes na matéria orgânica, que funcionam como blocos de construção: carbono, hidrogênio e oxigênio, principalmente; e algumas moléculas podem ter enxofre, nitrogênio e fósforo. É com essas peças que a planta monta açúcares, gorduras, proteínas e vitaminas. “Você não vai ver uma banana triplicar a quantidade de açúcar só porque ela está em uma região diferente da outra. Você não vai multiplicar por cinco a quantidade de lipídio no abacate só porque você mudou o regime de irrigação dele”, exemplifica Purgatto, da USP.  

O cenário muda quando se fala de vitaminas e minerais. Eles são as menores peças desse quebra-cabeça, e não são produzidos “do zero”, como os macronutrientes. A planta absorve os minerais através das raízes e os estoca em sua estrutura, mas também os usa para desenvolver outros compostos, como as vitaminas. Os resultados do experimento no Irã mostraram uma concentração maior de micronutrientes nas frutas orgânicas: as amoras apresentaram mais cálcio e potássio, e os figos tiveram maior teor de cobre, zinco e ferro que os cultivados na agricultura convencional.  

Ainda que o resultado tenha sido positivo para os orgânicos, os pesquisadores fecham a seção de resultados sem uma explicação causal. Apenas constatam o enigma botânico: “As variações observadas ilustram a diversidade intrínseca e a complexidade dos processos bioquímicos presentes em cada fruta, influenciados por diferentes práticas de manejo na horticultura, sejam elas orgânicas ou convencionais.”  

O manejo apresenta resultados mais consistentes nas pesquisas que estudam a produção de compostos bioativos. O licopeno, encontrado no tomate, e o betacaroteno, responsável pela cor alaranjada da cenoura, são exemplos dessas substâncias.  Elas são geradas pelas plantas em resposta aos estímulos e às adversidades do ambiente (sejam eles outras plantas, uma estiagem ou um inseto que quer comer suas folhas) e consideradas um “bônus” para a alimentação humana. Esses compostos não são nutrientes, nem minerais. Sua falta não causa deficiência nutricional, mas, ao consumi-los, a saúde humana se beneficia.  

Para entender a diferença na produção de compostos bioativos, vamos comparar duas situações completamente opostas – uma laranjeira em produção comercial e uma pitangueira silvestre.  A primeira é uma fruta asiática que, apesar de ser cultivada no Brasil todo, não está completamente adaptada aos biomas brasileiros. Seu cultivo é feito em um pomar de laranjeiras idênticas. 

O acesso à água e a correção do solo são feitos durante todo o ciclo da planta. Agrotóxicos ou outros produtos para controle de pragas podem ser aplicados para evitar ou conter algum ataque de inseto, fungo ou bactéria.  Cultivada assim, mesmo longe de seu bioma de origem, ela sofre pouco estresse: nenhuma praga, nenhuma estiagem, nenhuma competição por nutrientes. 

A planta terá acesso aos “blocos de montar” para criar açúcares, gorduras e proteínas e aos minerais para depositar em seus frutos. Inclusive, sua produtividade será maior que a de uma laranjeira sem manejo, que cresce cercada de outras espécies. Só que, justamente por responder a menos estímulos e ameaças, a laranja deste pomar comercial pode ter menos compostos bioativos, como vitamina C, ácidos fenólicos e carotenóides. 

Agora, pensando na pitangueira, uma espécie endêmica da Mata Atlântica. Mesmo em meio a um bosque, cercada de diversidade e sem manejo, ela vai produzir bem. Por ser uma planta adaptada, uma vez que evoluiu por milhares de anos no mesmo bioma, ela terá facilidade de responder aos estímulos que esse ambiente oferece. Ela é, na expressão botânica, uma planta rústica.  Sementes crioulas também são rústicas – neste caso, sua evolução foi guiada pelas gerações de agricultores que selecionaram as sementes a partir das características desejadas. E, por isso, acabam sendo fáceis de cultivar. 

Essa adaptação das variedades crioulas pode fazer com que a planta tenha mais facilidade em responder a estímulos e estresses. Com isso, pode produzir mais compostos bioativos e se manter saudável. Estando saudável, pode absorver melhor os nutrientes e minerais que precisa para seu desenvolvimento. E, assim, gerar frutos viáveis para continuar se propagando.  “Outro detalhe importante é a velocidade com que as culturas melhoradas atingem a sua produção. 

Um milho melhorado que leva 120 dias para ser colhido terá menos tempo para sintetizar e acumular nutrientes na matéria seca, quando comparado com o ciclo do milho crioulo, que pode levar até mais de 150 dias”, compara Brasil, da UFPR.  Então, sim, uma planta crioula pode ser mais nutritiva que uma convencional – desde que ela encontre todas as condições favoráveis para se desenvolver. 

No entanto, a diferença para a nutrição humana estará mais ligada à presença de compostos bioativos e à frequência de consumo de alimentos in natura do que o fato de ser crioula ou não a semente que originou aquela folha, fruto ou raiz.  

Genética, escolhas e perdas 

Eu até havia pensado que algumas variedades de plantas comerciais cultivadas de forma convencional seriam mais pobres nutricionalmente que as crioulas. Que, mesmo que fossem cultivadas sem agrotóxicos, elas seriam menos saudáveis. Na apuração, essa suposição caiu por terra. Isso porque… depende. 

Cereais como arroz, milho e trigo, que são a base da alimentação humana, foram domesticados há milhares de anos. Ao comparar as espécies cultivadas hoje, elas têm menos proteína e mais carboidratos do que as selvagens. “Obviamente que o ser humano acabou interferindo nisso, porque se passou a selecionar aquelas que davam mais saciedade, que está ligada diretamente ao teor de carboidrato que tem na planta”, explica Purgatto, da USP.  

Considerando uma alimentação adequada, a falta de proteína em um cereal não será um problema. A perda mais grave é a de diversidade de espécies a partir da Revolução Verde, na década de 1960 – a chamada erosão genética.  É algo que pesquisadores notaram logo na década de 1980. Foi quando os bancos de sementes e mudas passaram a ter mais espécies rústicas, crioulas e silvestres armazenadas – esses “acessos”, como são chamados, estão congelados em nitrogênio líquido ou plantados em campos de pesquisa. Eles são usados por melhoristas genéticos (de institutos de pesquisa ou de indústrias de sementes) para gerar novas variedades de plantas.  

Essa seleção acaba deixando alguma característica vantajosa de fora. “As culturas comerciais passam por um processo de melhoramento em que são submetidas a várias gerações de cruzamentos até se chegar naquilo que o melhorista pretendeu. 

Pode ser, por exemplo, uma planta mais resistente à seca. Mas, para chegar até aí, alguma característica genética pode ser perdida, como a capacidade de alto metabolismo e acúmulo de algum nutriente ou vitamina”, exemplifica Brasil, da UFPR. 

Ter um grande volume de plantas com DNA parecido diminui as possibilidades de recombinação de genes, o que interfere diretamente na resiliência das espécies. Por isso, a indústria de sementes e mudas é tão importante para o agronegócio: a seleção e o cruzamento genético trarão padrão e produtividade para a colheita, mas nem sempre produzirão sementes viáveis para novo plantio.  

A imensa variedade genética que existe em cada espécie fica clara quando olhamos para uma espécie que (ainda) não é comercial, como na experiência de Poliana Spricigo, engenheira agrônoma e professora na Universidade Estadual Paulista (Unesp). Durante seu pós-doutorado na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), ela integrou uma equipe multidisciplinar para pesquisar a composição nutricional pós-colheita de frutos da Mata Atlântica. Uma delas era a uvaia, uma fruta amarela, de gosto azedinho e com uma semente arredondada.  

A uvaia não é considerada uma espécie comercial – ou seja, não há variedades caracterizadas e cadastradas no Registro Nacional de Sementes e Mudas (Renasem). Para plantá-la, é preciso conseguir a semente com algum agricultor ou pegá-la na natureza. Durante a pesquisa de campo, Spricigo encontrou incontáveis variações em cor, textura da polpa, tamanho do caroço e intensidade dos sabores. Apenas na fazenda de um colecionador, no município mineiro de Cabo Verde, ela se deparou com 41 tipos de uvaia. “Tem árvores mais eretas, outras mais arbustivas. 

Tem folha pequena e grande, verde clara ou escura, com fruto do tamanho da minha mão, outra que é um pinguinho de tão pequenininha. Tem umas com muita semente, outras com uma só. Tem uvaia amarela, alaranjada, amarelo fraco, com pele aveludada, com veio”, enumera. A partir daí, a equipe selecionou dez variedades para caracterizar e descrever sua composição nutricional. 

Foi o primeiro trabalho acadêmico a detalhar nutrientes e compostos bioativos da espécie.  Assim como a aparência da árvore e dos frutos é distinta, o “sistema imunológico” da planta também é. Spricigo e seus colegas encontraram variedades que sofriam mais com o ataque de ferrugem, enquanto outras, plantadas na proximidade, não sucumbiam ao fungo. 

As folhas de algumas queimaram com a geada, enquanto outras resistiram.  Na padronização para produção comercial, a resistência a pragas e a produtividade são desejadas em detrimento de outras características. No caso da uvaia, os pesquisadores observaram uma variedade que melhor se adequaria. Ela não tinha o perfil de sabor mais ácido, nem os teores mais altos de carotenoide, composto bioativo que dá as cores amarela e alaranjada. Mas produzia bem em campo e mantinha um teor relevante de todos os nutrientes e antioxidantes observados nas demais uvaias.  

A produção em grande escala necessita de previsibilidade e padrão, o que explica a opção por pouca variabilidade genética. “Para um cultivo comercial, a gente geralmente pega uma planta que é muito boa e faz clones dessa planta para ter frutos do mesmo tamanho, produção na mesma época, qualidade interna do fruto muito parecida”, comenta Spricigo, da Unesp. 

Há outras vantagens 

O rendimento em relação à densidade nutricional também é um critério importante para a alimentação humana: é preferível frutos maiores aos menores, mesmo que apresentem menos vitaminas e minerais por grama. Essa opção por cultivar espécies que têm mais polpa é anterior à ideia de agricultura comercial. 

Foi o que fez a humanidade chegar às versões atuais de frutas, como banana e abacate, milhares de anos antes de os melhoristas genéticos existirem. É isto que os guardiões de sementes crioulas continuam fazendo ao selecionar as plantas com as características desejadas. 

Os critérios são tão vastos quanto a subjetividade humana: pode ser a polpa, a resistência a pragas, a cor, o perfil de sabor, a adaptação à intempéries.  Sementes crioulas são importantes para a manutenção do patrimônio genético e dos conhecimentos tradicionais, como o trabalho humano que as multiplica safra após safra.

Ainda que alguma variedade crioula possa ser menos nutritiva que uma convencional, a balança pesa para o seu lado por outros fatores. A agroecologia é um prisma onde se encontram inúmeras práticas. O manejo do solo para enriquecimento a partir de matéria orgânica e não fertilizantes químicos. 

O controle de pragas não é feito com agrotóxicos. Mesclam-se cultivos em um mesmo campo, dão descanso à terra ao intercalar as áreas de lavoura, deixam parte do que plantam para os animais também comerem. Na filosofia da agroecologia, reconhece-se a necessidade de tratar das desigualdades de gênero, etnias e raça a partir da justa remuneração e acesso à terra, conhecimento e tecnologias.  

A importância das sementes crioulas não é apenas a nutrição que ela proporciona aos seres humanos. Elas são importantes para a manutenção do patrimônio genético e dos conhecimentos tradicionais, como o trabalho humano que as multiplica safra após safra.  

O mesmo raciocínio vale para as espécies silvestres, não domesticadas pelo humano: a importância delas não está no fato de ela ser útil para o ser humano ou não. Elas integram os ecossistemas e sustentam parte da vida na Terra, principalmente as não humanas.


Referência: SCHIOCHET, Flávia. Será que plantas crioulas têm mais nutrientes que as convencionais? , O Joio e O Trigo, São Paulo, 21 jul. 2025. Disponível em: https://ojoioeotrigo.com.br/2025/07/sera-que-plantas-crioulas-tem-mais-nutrientes-que-as-convencionais/. Acesso em: 21 jul. 2025.



segunda-feira, 14 de julho de 2025

Microplástico na saúde: como lidar com a contaminação humana em meio à poluição desenfreada

Os microplásticos — definidos como partículas com menos de 5 milímetros — já foram encontrados em alguns dos locais mais remotos da Terra: na neve próxima ao pico do Everest e em amostras de água do local mais profundo do oceano, a Fossa das Marianas. No corpo humano, é encontrado onde quer que seja procurado: na placenta, na corrente sanguínea, no leite materno e nos pulmões. Um estudo publicado no periódico JAMA Network Open mostrou que as micropartículas podem ser encontradas também no cérebro.

Pesquisadores brasileiros utilizaram Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS) para analisar o cérebro de 15 indivíduos com idades que variaram de 33 a 100 anos e o microplástico foi encontrado no bulbo olfatório de oito deles. Ao todo, foram 16 tipos de polímeros sintéticos encontrados, sendo o polipropileno, tipo de plástico usado em embalagens, móveis, baldes e, para-choques de automóveis, o mais comum. Foi o primeiro registro de plástico encontrado no cérebro humano.

Engenheiro ambiental e primeiro autor do estudo, o Dr. Luis Fernando Amato-Lourenço, Ph.D., vinculado à Freie Universität Berlin, na Alemanha, e à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), alerta sobre efeitos tóxicos em longo prazo, como inflamação e respostas imunológicas adversas. "Microplásticos podem servir como vetores de contaminantes químicos, como metais pesados e compostos orgânicos, que podem causar danos adicionais aos tecidos neurais."

Segundo o pesquisador, os potenciais riscos para a saúde são danos neurológicos decorrentes de processos inflamatórios e estresse oxidativo, que podem estar associados à exposição prolongada a microplásticos e seus contaminantes. Ainda, o pesquisador afirmou que estudos em animais já indicam que essas partículas podem causar inflamação no cérebro.

Tratado global

Ao mesmo tempo que o cenário é preocupante para a saúde humana e para o planeta, as medidas de prevenção que podem ser tomadas individualmente não são suficientes para evitar por completo a contaminação. Enfrentar a poluição plástica demanda a adoção de medidas em escala global.

"Estamos em uma sociedade viciada em plásticos. As pessoas tomam água em garrafas descartáveis, usam copos e talheres descartáveis. Há um uso inconsequente do material. Uma parte significativa da sociedade não se importa, mas é sabido que estamos caminhando em direção ao colapso", disse a Dra. Thais Mauad, médica patologista afiliada à FMUSP e coordenadora do estudo.

Microplástico na saúde: como lidar com a contaminação humana em meio à poluição desenfreada - Medscape - 30 de outubro de 2024.

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Déficit de magnésio


O magnésio é um mineral essencial envolvido em mais de 300 reações enzimáticas no organismo, sendo crucial para funções neuromusculares, saúde cardiovascular, regulação glicêmica e síntese de proteínas e DNA. Apesar de sua importância, a deficiência de magnésio é frequentemente subdiagnosticada, mesmo sendo relativamente comum, especialmente em populações vulneráveis.

Funções do Magnésio no Organismo
  • Participa da contração e relaxamento muscular.
  • Atua na transmissão nervosa e estabilidade elétrica das células.
  • Regula os níveis de cálcio, potássio e sódio.
  • É necessário para a produção de energia (ATP).
  • Modula o sistema imune e a resposta inflamatória.
  • Contribui para a saúde óssea e prevenção da osteoporose.
Sintomatologia da Deficiência de Magnésio

Os sintomas da hipomagnesemia podem variar de inespecíficos a graves, dependendo da intensidade da deficiência:
  • Fadiga 
  • Fraqueza muscular
  • Irritabilidade
  • Cefaleia
  • Perda de apetite
  • Náuseas e vômitos
  • Câimbras e espasmos musculares
  • Tremores
  • Dormência e formigamento
  • Convulsões
  • Arritmias cardíacas (prolongamento do intervalo QT, fibrilação atrial)
  • Hipertensão
  • Ansiedade
  • Depressão
  • Insônia
  • Confusão mental
A deficiência crônica pode estar relacionada a quadros de síndrome metabólica, resistência insulínica e agravamento de doenças autoimunes e neurodegenerativas.

Diagnóstico da Deficiência de Magnésio

Desafios no Diagnóstico: O conteúdo de magnésio corporal total é de aproximadamente 25 g, sendo que 60% a 65% estão presentes nos ossos, que, assim como o músculo, constituem uma reserva desse mineral nas formas de fosfato e carbonato. O restante se localiza nos tecidos moles (27% no tecido muscular) e no interior das células, caracterizando o magnésio como o segundo cátion mais abundante no meio intracelular. Em menor proporção (1%), encontra-se no plasma, sendo que o magnésio no fluido extracelular encontra-se 70% a 80% na forma livre ionizada (Mg2+), 20% a 30% ligado a proteínas e 1% a 2% complexado a outros ânions. O músculo contém maior teor de magnésio em relação ao cálcio, contrariamente ao que ocorre no sangue. Isso torna os exames séricos pouco sensíveis para detectar a deficiência tecidual.

Exames Laboratoriais Disponíveis:

Magnésio sérico total: valor de referência entre 1,7 e 2,2 mg/dL. Contudo, pode estar normal mesmo na deficiência.
Magnésio ionizado (livre): mais preciso, mas pouco disponível.
Magnésio eritrocitário: pouco disponível
Excreção urinária de magnésio (em urina de 24h):útil em casos suspeitos de perda renal.
Relação magnésio/cálcio ou magnésio/potássio: pode auxiliar na análise clínica.
OBS: dosagem de magnésio no cabelo ou unha não tem correlação com déficit.

Diagnóstico Clínico

Diante da baixa sensibilidade dos exames laboratoriais, o diagnóstico é frequentemente clínico, baseado na presença de sintomas compatíveis, história alimentar pobre em magnésio e presença de fatores de risco.

Grupos de risco
  • Idosos: já que possuem uma ingestão reduzida, má absorção e uso frequente de medicamentos (diuréticos, IBPs).
  • Pacientes com doenças gastrointestinais: como doença celíaca, Crohn, diarreia crônica e síndromes disabsortivas.
  • Pcientes submetidos a ressecções no trato digestivo: ex. cirurgia bariátrica
  • Diabéticos tipo 2: perdas urinárias aumentadas, a hiperglicemia crônica aumenta a diurese (produção de urina), levando à excreção excessiva de magnésio pela urina. Além disso, a insulina auxilia na reabsorção renal de magnésio. Quando há resistência à insulina (comum no diabetes tipo 2), os rins eliminam mais magnésio pela urina. Além disso o uso de hipoglicemiantes também favorece uma redução dos níveis plasmaticos de magnésio, já que ele, assim como o fósforo, potássio e B1 entram para dentro da célula quando a glicose liga ao receptor de insulina.  
  • Além disso, o magnésio melhora a sensibilidade à Insulina, através de 3 mecanismos: a ativação de enzimas: sendo um co-fator de enzimas envolvidas no metabolismo da glicose, como as tiroquinases dos receptores de insulina e as proteínas quinases, que facilitam a sinalização da insulina nas células. Interferindo na Fosforilação da glicose: Auxiliando no transporte de glicose para dentro das células, reduzindo a resistência à insulina. Redução da inflamação: O magnésio tem efeito anti-inflamatório, diminuindo citocinas que prejudicam a ação da insulina (como TNF-Alfa). Resultado: Baixos níveis de magnésio estão associados a maior resistência à insulina, um fator chave no diabetes tipo 2.
  • Etilistas crônicos: baixa ingestão, má absorção e maior excreção urinária.
  • Usuários de certos medicamentos:
  • Diuréticos de alça (furosemida), Inibidores da bomba de prótons (omeprazol, lansoprazol, esomeprazol)
  • Aminoglicosídeos, Quimioterápicos
  • Gestantes: devido a maior demanda metabólica.
  • Atletas: maior demanda
  • Pessoas com sudorese excessiva: perda pela transpiração
  • Síndrome de Ehlers Danlos
  • Pessoas com dietas restritivas: anorexia, bulimia
  • Dieta ocidental, rica em carboidratos refinados ou alimentação rica em ultraprocessados
Fatores que favorecem redução de teor de magnésio nos alimentos

  • Solos Pobres em Magnésio: e aqui encontra-se o solo do cerrado. 
Esgotamento do solo: Agricultura intensiva sem reposição adequada de nutrientes diminui o teor de magnésio no solo.  
Uso excessivo de fertilizantes químicos: Alguns fertilizantes (como os ricos em potássio ou nitrogênio) podem interferir na absorção de magnésio pelas plantas.  

  • Processamento Industrial de Alimentos  
Refinamento de grãos: O magnésio está presente no farelo e no gérmen, que são removidos no processamento de farinhas brancas e arroz polido.  
Cozimento em excesso: A água de cozimento pode levar embora parte do magnésio, principalmente em legumes e verduras.  
Industrialização de alimentos: Alimentos ultraprocessados geralmente perdem magnésio durante as etapas de fabricação.  

  • Métodos de Cultivo 
Uso de pesticidas e herbicidas: Alguns químicos podem reduzir a absorção de magnésio pelas plantas.  
Cultivo hidropônico sem suplementação adequada: Se a solução nutritiva não tiver magnésio suficiente, os vegetais terão menos desse mineral.  

  • Armazenamento e Preparo Caseiro  
Cozinhar em muita água: O magnésio é solúvel em água, então fervura prolongada pode reduzir seu teor.  
Descascar frutas e legumes: Muitos nutrientes, incluindo magnésio, estão concentrados na casca.  

  • Fatores Ambientais
Acidificação do solo: Solos muito ácidos (pH baixo) podem reduzir a disponibilidade de magnésio para as plantas.  
Estresse hídrico: Secas ou irrigação inadequada afetam a absorção de nutrientes pelas raízes.  

Como preservar o magnésio nos alimentos?

Prefira alimentos integrais** (arroz integral, farinha de trigo integral).  
Cozinhe no vapor em vez de cozinhar na água.  
Coma vegetais crus ou levemente cozidos.  
Opte por alimentos orgânicos ou cultivados em solos ricos em nutrientes.  

Se a dieta for pobre em magnésio, pode ser necessário suplementar, mas o ideal é ajustar a alimentação para obter esse mineral naturalmente.

Fontes alimentares de Magnésio

A recomendação diária de ingestão de magnésio para adultos varia entre 310 a 420 mg/dia, dependendo do sexo e da idade.

Fonte: VANNUCHI, Hélio, MONTEIRO, Thais Helena. ILSI Brasil - international life sciences Institute do Brasil. Série: Funções plenamente reconhecidas de nutrientes

Devemos dar preferência para alimentos minimamente processados, integrais e de origem vegetal. A biodisponibilidade do magnésio é reduzida em alimentos com alto teor de fitatos (como leguminosas mal preparadas), por isso, o remolho e cocção adequados melhoram a absorção.

Considerações Finais

A deficiência de magnésio é uma condição subestimada, mas com impacto clínico significativo. Diante da dificuldade laboratorial em detectar a hipomagnesemia, é fundamental que o profissional de saúde esteja atento aos sinais e sintomas, fatores de risco e hábitos alimentares do paciente. A correção da deficiência pode ser feita com mudanças dietéticas e, quando necessário, com suplementação oral de magnésio (como citrato ou cloreto, que apresentam boa absorção).

Referências Bibliográfica

1 - VANNUCHI, Hélio, MONTEIRO, Thais Helena. ILSI Brasil - international life sciences Institute do Brasil. Série: Funções plenamente reconhecidas de nutrientes, V. 16. Magnésio. 2010
2 - Gröber U, Schmidt J, Kisters K. Magnesium in Prevention and Therapy. *Nutrients*. 2015;7(9):8199-8226.

Autores:
Dr. Frederico Lobo - Médico Nutrólogo - CRM-GO 13192 - RQE 11915
Rodrigo Lamonier - Nutricionista
Dra. Natalia Jatene - Médica Endocrinologista