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quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Semaglutida 2,4mg - 9 fatos que você precisa saber sobre o mais novo fármaco antiobesidade do mercado

No dia 02/01/2023 a ANVISA liberou a venda de uma "nova" droga para obesidade. Ela se chama Semaglutida. Faz parte da classe dos análogos de GLP-1, classe desenvolvida para tratar diabetes mas que em doses maiores promove perda de peso. 

Recebemos inúmeras mensagens então resolvemos preparar esse texto que explica 9 fatos essenciais sobre "a nova" droga.

1 - Mecanismo de ação

Mas afinal, o que é a Semaglutida? O que ela faz? Por que é tão cara? Realmente emagrece? Essas são algumas das perguntas que me fizeram. Então, vamos por partes. Antes de explicar o que é a droga e o seu mecanismo de ação, precisamos saber sobre o GLP-1. 

Em nosso corpo, temos um órgão chamado pâncreas (que fica próximo ao Duodeno ( a primeira porção do intestino delgado). 

O pâncreas é uma glândula mista, ou seja, tem uma função secretora endócrina (produz hormônios) e uma função exócrina (digestão de gordura). Sua porção endócrina é formada por um conjunto de células, denominadas ilhotas de Langerhans. 

Essas ilhotas tem 2 tipos de células, as células betas, responsáveis pela produção de insulina e outra  células alfas, produtoras de glucagon, ambos são lançados no sangue. E é importante saber que esses dois hormônios possuem efeitos antagônicos, ou seja, atividade fisiológica inversa.

A insulina tem sua atuação favorecendo a entrada das glicose nas células. Com isso, nosso corpo não fica em hiperglicemia (muita glicose no sangue), pois, a insulina favorece a entrada de glicose nas células do fígado, músculos esqueléticos e tecido adiposo. 

Já o glucagon, tem atividade estimulante oposta, faz aumentar o concentração de glicose na corrente sanguínea a partir da quebra do glicogênio (substância de reserva energética) e com isso evita que tenhamos hipoglicemia (pouca glicose no sangue)

No nosso intestino, temos células chamadas de células L (localizadas em sua maioria no íleo e no cólon), que são células epiteliais com função enteroendócrina, ou seja, que produzem substâncias (petídeos) que tem ação parecida com o Glucagon produzido pelo pâncreas. São os peptídeos semelhantes ao glucagon, (GLP)s.

A secreção de GLP-1  por células enteroendócrinas do íleo depende da presença de nutrientes no intestino delgado. Os secretagogos (agentes  que causam ou estimulam alguma secreção) desse hormônio incluem nutrientes como carboidratos, proteínas e lipídeos. 

Porém, nosso corpo destrói rapidamente o GLP-1 logo que ele é liberado pelas células L. Uma vez na circulação, o GLP-1 possui uma meia vida de menos que 2 minutos, devido à rápida degradação pela enzima dipeptidil peptidase 4 (DPP-IV). Com isso o GLP-1 não consegue fazer todos os efeitos benéficos que ele tem. 

Então, por anos, a indústria farmacêutica buscou a elaboração de duas estratégias terapêuticas: a criação de análogos (substância que imitam) de GLP-1 que sejam resistentes à enzima (DPP-IV) e sintetização de peptídeos inibidores da enzima, que elevam o nível de GLP-1 endógeno intacto. Estas abordagens potencializam as vantagens terapêuticas do uso de GLP-1 no controle do diabetes e mantêm o risco de hipoglicemia baixo, já que a ação da GLP-1 é glicose-dependente. Ou seja, se a glicose está equilibrada, a droga não estimulará mais tanta insulina e nem reduzirá tanto a liberação de glucagon. 

Mas afinal, o que o GLP-1 faz?

Ele é um potente hormônio anti-hiperglicêmico (reduz a glicose no sangue, evitando a hiperglicemia), induzindo estimulação dependente de glicose da secreção de insulina, enquanto suprimindo a secreção de glucagon. Tal ação dependente de glicose é particularmente atraente por que, quando os níveis de glicose plasmática estão na faixa normal de jejum, o GLP-1 não estimula mais a insulina, não levando à hipoglicemia. 

Os principais mecanismos de ação do GLP-1 são:
  1. Melhora a produção de insulina pelas células β do pâncreas
  2. Diminui a liberação de glucagon pelo pâncreas, por ação nas células α
  3. Inibição da secreção gástrica (que favorece a digestão)
  4. Diminuição da motilidade do trato gastrintestinal (em especial o retardo do esvaziamento gástrico), o que retarda a absorção de carboidratos e contribui para um efeito de saciação.
Para o GLP-1 agir, ele precisa se ligar ao seu receptor, podendo este ser encontrado nas
células α e β das ilhotas pancreáticas, no sistema nervoso central (em especial no hipotálamo), no pulmão, no coração, nos rins, estômago e no intestino. 

No cérebro existe uma região chamada Hipotálamo e nele há uma região chamada tuberal. Dentro dessa região há 2 núcleos importantes: Núcleo da Fome e o Núcleo da Saciedade. Ambos possuem receptores para o GLP-1. Ou seja, o GLP-1 estimula o núcleo da saciedade e inibe o núcleo da fome. Ou seja, inibe o apetite e estimula a saciedade. O que é potencializado pela ação do GLP1 na redução do esvaziamento do estômago. Resultado: come-se menos. 

Então, pesquisadores desenvolveram os análogos de GLP-1:  liraglutida, a albiglutida, a dulaglutida, a semaglutida, exenatida e a lixisenatida

A semaglutida é um análogo do GLP-1 94% igual ao GLP-1 humano, ou seja, se liga bem (seletivamente) ao receptor de GLP1. Nos casos do paciente fazer hipoglicemia, ela diminui a liberação de insulina e não inviabiliza a liberação do glucagon. Ou seja, é uma droga segura, não favorecendo hipoglicemia. 

A droga foi originalmente desenvolvida para tratar o diabetes tipo 2, porém, viram que os pacientes apresentavam perda de peso por inibição da fome e por maior saciedade, sendo dose dependente. Ou seja, quanto maior a dose, maior o efeito na perda de peso.

2 - Apresentação

A droga tem apresentação injetável, de uso semanal (é importante frisar isso, pois, há profissionais que por conta própria prescrevem uso diário e o próprio laboratório contraindica essa prática) e a apresentação oral (comprimido). 

A de uso injetável é aplicada na região subcutânea, com auxílio de uma agulha de 4 ou 6mm. Já a de uso oral, é utilizada diariamente. 

Como a dose deve ser escalonada, há apresentação com 0,25mg e 1mg. Agora teremos a apresentação de 2,4mg.

A droga não é uma nova droga para obesidade. Desde 2018 a Semaglutida é comercializada para tratamento do Diabetes Mellitus tipo 2. Mas muitos já prescreviam para perda de peso. Ou seja, ela não tinha recomendação em bula para o tratamento da obesidade. Dia 02/01/2023 a ANVISA oficialmente reconheceu que a droga, na dose de 2,4mg de uso semanal, pode ser utilizada para tratar obesidade. 

3 - Estudos mostrando a eficácia

Em 2021, foram divulgados os ensaios clínicos Semaglutide Treatment Effect in People with obesity (STEP). E os resultados foram recebidos com entusiasmo pela comunidade médica. Na Tabela abaixo é possível ver o resumo dos resultados.




Os estudos foram divulgados em três dos principais periódicos médicos da atualidade. The New England Journal of Medicine, The Lancet e Nature Medicine.

O STEP 1 foi um randomized clinical trial (RCT) duplo-cego envolveu 16 países. Detalhes sobre os participantes do estudo:
  • Pacientes adultos não portadores de diabetes mellitus (ou seja, apesar da droga ter sido desenvolvida para pacientes com diabetes mellitus tipo 2, no STEP 1 os pacientes não eram diabéticos, apenas com IMC ≥27 kg/m2). É importante salientar isso, pois muitos dos críticos da droga, sequer leram os estudos e afirma que é uma droga para tratar apenas diabetes. 
  • Pacientes com IMC ≥30 kg/m2 ou ≥27 kg/m2
  • Pelo menos uma comorbidade associada. Hipertensão, dislipidemia, apneia obstrutiva do sono ou doença cardiovascular
  • Registo de falha de uma ou mais tentativas de perda ponderal com dieta
Foram excluídos pacientes com:
  1. Diabetes mellitus
  2. Hemoglobina glicada ≥6,5%
  3. Antecedente de pancreatite
  4. Tratamento cirúrgico de obesidade prévio
  5. Uso de medicações para perda de peso nos últimos 90 dias 
Desenho do estudo: os pacientes foram randomizados na proporção 2:1. Para um tratamento de 68 semanas com uma injeção subcutânea semanal de 2,4mg de semaglutida ou placebo. Associado a intervenções no estilo de vida (dieta e atividade física). 

O tratamento com semaglutida foi iniciado em uma dose semanal de 0,25mg por quatro semanas. Aumentada mensalmente até atingir a dose de 2,4mg na semana 16.

As mudanças de estilo de vida incluíram uma redução de 500kcal em relação à ingestão diária habitual. E pelo menos 150 minutos de atividade física semanal.

Os pacientes também receberam aconselhamento individual mensal. Para ajudar na adesão às intervenções e receber orientações a registrar os hábitos diários. O seguimento dos pacientes foi mantido até sete semanas após o final do tratamento.

Resultados do estudo: Os desfechos primários foram o percentual de mudança do peso corporal. E a ocorrência de redução de, pelo menos, 5% do peso. O que é considerada clinicamente relevante, de acordo com a literatura.

Os secundários mostram uma redução de mínima de 10% ou 15% do peso. E mudanças na circunferência abdominal e na pressão arterial. Escore da capacidade funcional. 

Com relação à segurança, foram avaliados o número de eventos adversos durante o período do tratamento. E a ocorrência de eventos adversos graves entre o início do estudo e a semana 75.

Os eventos cardiovasculares, pancreatites e óbitos foram revisados por um comitê externo.

Os resultados mostraram:
  1. Redução de 14,9% do peso corporal no grupo que usou a semaglutida. Comparado a -2,4% com o placebo. Diferença gritante. Lembre-se: o grupo placebo também fez dieta e atividade física, ou seja, as intervenções para mudança de estilo de vida aconteceu em ambos os grupos. 
  2. Diferença de -12,4% entre os grupos
  3. Maior redução da circunferência abdominal (–13,54 cm vs. –4.13 cm com placebo; diferença de –9,42 cm).
  4. IMC: –5,54 vs. –0,92 com placebo; diferença de –4,61.
  5. Os pacientes tratados com semaglutida tiveram uma melhora dos escores de capacidade funcional
  6. Os efeitos da droga sobre a perda ponderal são decorrentes da diminuição do apetite e, consequentemente, menor ingestão calórica.
Uma perda ponderal de 15% tem uma grande importância clínica. Uma perda moderada, de 5 a 10% do peso, já está associada a uma melhora de alguns fatores:
  • Níveis glicêmicos,
  • Fatores de risco cardiovascular (pressão arterial, lipidemia),
  • Bem-estar referido pelos pacientes e dos seus aspectos funcionais. 
  • Perdas maiores que 10% levam a uma melhora continuada destes parâmetros. Além de melhorar sintomas de apneia obstrutiva do sono e escores de esteatohepatite não-alcoólica.
Para a remissão de diabetes e redução dos eventos cardiovasculares, é necessária uma perda ponderal maior ou igual a 15%.

Os críticos (e ignorantes de plantão) falam que consegue-se perder peso somente com atividade física e dieta. Estão errados? Não. Mas, vale salientar que o estudo mais intensivo feito até hoje, foi o DIRECT (2018). Nele os participantes fizeram dieta, atividade física e mudanças comportamentais. Perderam em média 9% do peso em 12 meses. Porém, em 24 meses, devido o reganho de peso, esse efeito já caiu para 5%. Teve quem perdeu mais? Sim. Teve quem perdeu menos de 9% ? Também teve. 

Nos últimos dias cansei de ver nutricionistas e profissionais da educação física criticando a droga. Invalidando o processo de quem utiliza a droga. Briga por mercado? Medo de perder o paciente pra droga? Ignorância? Desconhecimento do mecanismo de ação da droga? Ausência de mínimas noções sobre a fisiopatologia da obesidade? Ou apenas, má fé? Um misto de tudo e nós médicos que tratamentos de pacientes portadores de obesidade entendemos. Os resultados são realmente muito bons e vários pacientes tem benefício com a utilização. Isso é inegável e por isso o medo de alguns. 

Um ponto a ser analisado nos estudos: "A semaglutida foi prescrita junto com dieta, atividade física, portanto só funcionou porque houve mudança no estilo de vida". Será? Será que se não tivessem feito exercício e dieta não adiantaria de nada?

Como disse o nutricionista Igor Eckert em um post: 

"Mudança no estilo de vida faz parte do cuidado usual e precisa ser prescrito para ambos os grupos. Não orientar essa mudança seria uma intervenção anti-ética e o estudo perderia validade externa, afinal na vida real se orienta a mudança de estilo de vida. E esse é o ponto chave para entender o efeito da semaglutida". 

Como a dieta e atividade física foi prescrita para os 2 grupos, a diferença na perda de peso entre os 2 grupos foi atribuida à semaglutida.
  • Grupo Semaglutida perdeu 14,9%. 
  • Grupo placebo (atividade física e dieta) perdeu 2,4%.
A única diferença entre os 2 grupos foi o uso da Semaglutida. Logo, -12,4% de perda  foi causada pelo uso da droga. Ou seja, a princípio, esse é o efeito da droga, independentemente da mudança de estilo de vida. É a perda de peso que a semaglutida causa comparado a quem já faz dieta e exercício fisico. Mas será que o efeito da Semglutida não pode ter sido potencializado pela recomendação de mudanças de estilo de vida? Talvez. E se isso for real, o efeito isolado da droga na realidade seria inferior a -12,4%. 

Assumindo então que existe essa interação, o resultado visto seria um efeito sinérgico entre as 2 intervenções. Nesse caso, daria para dizer que parte do benefício depende da mudança de estilo de vida? Não dá para saber. A boa notícia é que a gente não precisa desse dado. Não mudaria a conduta. Por que? Porque a mudança de estilo de vida é padrão e precisa ser prescrita, sempre."

Vale ressaltar que o grupo placebo também apresentou resultados interessantes.

O que reforça a importância e o impacto das mudanças de estilo de vida. 31% dos pacientes perderam 5% do peso, 12% perderam pelo menos 10% e 5% perderam pelo menos 15%. O que corrobora com o que vemos na prática. Por um tempo, vários pacientes conseguem perder peso em um primeiro momento, porém, essa perda vai se diluindo com o passar dos anos. 

4 - Efeito se utilizada de forma isolada (sem dieta e atividade física)

Como relatado acima, pode ser que a droga por si só gere a perda de peso. Mas é anti-ético um médico não prescrever a mudança de estilo de vida. Geralmente, quando o paciente pára de utilizar a droga, ocorre reganho parcial do peso. É o que chamam de efeito rebote. Quer dizer que a droga induz isso? Não. A droga ela tem a sua eficácia e quando está sendo utilizada ela alcança o que "promete". 

Sendo assim, esse "rebote" é minimizado quando se combina o uso da droga com dieta, atividade física e mudanças permanentes no estilo de vida. Por isso é importante o acompanhamento contínuo. Uma vez portador de sobrepeso/obesidade, o indivíduo terá que se policiar por toda a vida. E isso é algo que todo paciente deve receber de recomendação, desde a primeira consulta. Jamais criar falsas esperanças com relação ao tratamento. 

5 - Efeitos colaterais e adversos

Os principais eventos adversos associados ao tratamento foram a ocorrência de náuseas, vômitos e diarreia. Esses efeitos já conhecidos dos análogos de GLP-'. Por isso, a recomendação de escalonar a dose. 

Em acréscimo, houve uma maior ocorrência de colelitíase no grupo semaglutida (2,6% vs. 1,2% no grupo placebo). Mas uma investigação dos efeitos adversos gastrointestinais. O que pode ter levado a um maior diagnóstico dessa condição em relação ao grupo placebo. 

Os efeitos mais preocupantes são a rara ocorrência de pancreatite e a contraindicação. No segundo caso, ocorre em pacientes com história pessoal ou familiar de neoplasia endócrina múltipla ou carcinoma medular da tireoide. 

A semaglutida já é amplamente utilizada para tratamento de diabetes. Ela faz parte de uma classe de medicamentos com um perfil de segurança conhecido. O que traz uma tranquilidade ao uso desta medicação para o tratamento da obesidade. 

O que tem-se visto na prática é que alguns pacientes após meses de uso podem apresentar Supercrescimento bacteriano do intestino delgado, talvez pela estase gástrica e intestinal. 



6 - Custo

Infelizmente ainda é uma droga cara, mas acreditamos que com o passar dos anos o valor reduzirá. A semaglutida de 1mg gira em torno de R$930. O valor da de 2,4mg ainda não sabemos.

7 - Pacientes não respondedores

Existem pacientes que não vão responder bem ao tratamento, não porque a medicação seja ruim, mas apenas por uma característica de alguns pacientes em não ter o efeito esperado com o uso daquela determinada droga ou efeitos colaterais mais expressivos que o normal (o que dificulta a adesão ao tratamento), assim como ocorre em diversas outras medicações. Uma área da medicina que tenta explicar essa diferença de efeitos é a Farmacogenômica. Além disso, não é incomum alguns pacientes responderem bem ao uso diário da Liraglutida e não responderem à Semaglutida semanal.

8 - Associação com outros fármacos antiobesidade

Por se tratar de um análgo de GLP-1, a Semaglutida 2,4mg não deve ser utilizada junto de outras drogas da mesma classe, como Liraglutida, Dulaglutidam, Exenatida e a própria Semaglutida 1mg. Devido a diferença de mecanismo de ação, a Semaglutida 2.4mg pode ser associada à outros fármacos antiobesidade em terapia combinada quando necessário e sempre prescrito por um médico especialista na área. 

Pacientes diabéticos usando medicações para controle da glicemia da classe dos inibidores de dipeptidil peptidase 4 (gliptinas) também não devem usar a medicação devido interação entre as duas classes e risco de reações adversas.

Alguns pacientes redução dos efeitos da Semaglutida e para isso podemos utilizar uma associação com outras medicações antiobesidade, O médico especialista na área saberá orientar bem o paciente sobre quais podem ser combinadas com a Semaglutida. 

9 - Automedicação

Infelizmente a automedicação é muito comum no Brasil e com medicações voltadas para o tratamento da obesidade não é diferente, principalmente se a medicação puder ser adquirida sem receita ou por “outros meios”. 

Toda medicação por mais segura que seja apresenta riscos mesmo quando bem indicada, o grande problema é que esses riscos aumentam muito quando o uso da droga é feito de forma errada e por pacientes que nem deveriam estar usando a medicação. Além de colocar em risco a própria saúde, quem usa a droga sem precisar e por conta própria também prejudica outros pacientes por aumentar a demanda nas farmácias gerando a falta da medicação para quem realmente precisa do tratamento. 

A obesidade é uma doença crônica, redicivante, com forte componente genético e ambiental, ou seja, bastante complexa. Nós médicos estudamos por muitos anos para entender qual o melhor tratamento e como faze-lo com segurança, procure sempre seu médico e de preferencia um especialista na área antes de iniciar um tratamento, tire suas dúvidas e faça da maneira correta.

Bibliografia: 

Wilding et al. Once-Weekly Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity. N Engl J Med, 2021. Disponível em: www.nejm.org/doi/10.1056/NEJMoa2032183.

Ingelfinger JR e Rosen CJ. STEP 1 for Effective Weight Control — Another First Step?. N Engl J Med, 2021. Disponível em: www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMe2101705

Adler AI. The STEP 1 trial for weight loss: a step change in treating obesity? Nat Med, 2021. Disponível em: www.nature.com/articles/s41591-021-01319-4

Ryan DH. Semaglutide for obesity: four STEPs forward, but more to come. Lancet Diabetes Endocrinol, 2021. Disponível em: www.thelancet.com/journals/landia/article/PIIS2213-8587(21)00081-4/fulltext

Autores:

Dr. Frederico Lobo - Médico Nutrólogo - CRM-GO 13.192 - RQE 11.915
Dr. Limiro Silveira - Médico Nutrólogo - CRM-DF  28172  - RQE 19162
Dra. Edite Melo Magalhães - Médica especialista em Clínica médica - CRM-PE 23994 - RQE 9351 
Dr. Leandro Houat - Médico especialista em Medicina de família e comunidade - CRM-SC 27920 - RQE 20548 


sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

[Conteúdo exclusivo para médicos] Análogos de GLP-1 e o risco de câncer de tireóide

OBJETIVO

Determinar se o uso de agonistas do receptor (RA) do peptídeo 1 semelhante ao glucagon (GLP-1) está associado ao aumento do risco de câncer de tireoide.

PROJETO E MÉTODOS DE PESQUISA

Uma análise de caso-controle aninhada foi realizada com o uso do banco de dados do sistema nacional de seguro de saúde francês (SNDS).  

Indivíduos com diabetes tipo 2 tratados com medicamentos antidiabéticos de segunda linha entre 2006 e 2018 foram incluídos na coorte.

Todos os cânceres de tireoide foram identificados por meio de diagnósticos de alta hospitalar e procedimentos médicos entre 2014 e 2018. 

A exposição ao GLP-1 RA foi medida nos 6 anos anteriores a um período de atraso de 6 meses e considerada como uso atual e duração cumulativa de uso com base em  dose diária definida (≤1, 1 a 3, >3 anos).

Os indivíduos do caso foram pareados com até 20 indivíduos de controle em idade, sexo e duração do diabetes com o procedimento de amostragem de conjunto de risco.  

O risco de câncer de tireoide relacionado ao uso de GLP-1 RA foi estimado com uma regressão logística condicional com ajuste para bócio, hipotireoidismo, hipertireoidismo, outras drogas antidiabéticas e índice de privação social.

RESULTADOS

Um total de 2.562 indivíduos com câncer de tireoide foram incluídos no estudo e pareados com 45.184 indivíduos de controle.

O uso de GLP-1 RA por 1 a 3 anos foi associado ao aumento do risco de todos os cânceres de tireoide (taxa de risco ajustada [HR] 1,58, IC 95% 1,27–1,95) e câncer medular de tireoide (HR ajustado 1,78, IC 95% 1,04–3.05).

CONCLUSÕES

No presente estudo, encontramos aumento do risco de todos os cânceres de tireoide e câncer medular de tireoide com o uso de GLP-1 RA, em particular após 1-3 anos de tratamento.

DESTAQUES DO ARTIGO

• Estudos pré-clínicos sugerem que os agonistas do receptor GLP-1 têm efeitos específicos na glândula tireoide, potencialmente envolvendo o desenvolvimento de câncer de tireoide. Estudos sobre este assunto produziram resultados conflitantes, possivelmente devido à falta de poder estatístico.

• Os resultados deste estudo nacional de base populacional sugerem que o uso de agonistas do receptor GLP-1 está associado ao aumento do risco de câncer de tireoide

• O risco aumentado foi maior no caso de 1-3 anos de uso de agonista do receptor GLP-1.

• Os médicos devem estar cientes desse risco potencial ao iniciar um agonista do receptor de GLP-1 e monitorar cuidadosamente os pacientes expostos

INTRODUÇÃO

Os agonistas do receptor (RA) do peptídeo 1 semelhante ao glucagon (GLP-1), como exenatida, liraglutida, dulaglutida e semaglutida, são drogas de segunda linha ou de linha superior comumente usadas no tratamento do diabetes tipo 2.

Eles induzem a ativação direta do receptor GLP-1, que estimula a secreção pancreática de insulina de forma dependente de glicose, enquanto também inibe a secreção de glucagon.

Estudos pré-clínicos sugerem que o GLP-1 RA tem efeitos específicos na glândula tireoide, envolvendo potencialmente o desenvolvimento de câncer de tireoide, particularmente de câncer medular de tireoide (carcinoma de células C).  

De fato, os receptores de GLP-1 são expressos em tecidos da tireoide, e estudos de carcinogenicidade em ratos e camundongos demonstraram um risco aumentado de carcinoma medular dependente da dose e do tempo com GLP-1 RA.

Com base nesses achados, a Food and Drug Administration dos EUA (mas não a Agência Europeia de Medicamentos) contra-indica o uso de liraglutida, dulaglutida, exenatida de liberação prolongada e semaglutida em pacientes com história pessoal ou familiar de câncer medular de tireoide e múltiplas doenças endócrinas.  neoplasia tipo 2. 

Ainda assim, a relevância da carcinogenicidade animal para humanos não foi claramente determinada para AR GLP-1.

Um aumento no número de cânceres de tireoide foi relatado no ensaio clínico Liraglutide Effect and Action in Diabetes: Evaluation of Cardiovascular Outcome Results (LEADER) avaliando liraglutida versus placebo, mas o risco não atingiu significância estatística (hazard ratio [HR] 1,66, IC 95% 0,40–6,95), bem como em uma meta-análise de 12 outros ensaios clínicos com liraglutida (odds ratio [OR] 1,54, IC 95% 0,40–6,02).

No entanto, esses estudos não foram desenhados para avaliar o risco de câncer de tireoide, e suspeita-se de falta de poder estatístico.

Em 2012 e 2018, dois estudos observacionais não mostraram aumento do risco de câncer de tireoide com exenatida.

No entanto, no mais recente, com o uso de dois bancos de dados administrativos dos EUA, os pesquisadores encontraram uma tendência não significativa de aumento do risco de câncer de tireoide com exenatida (OR 1,46, IC 95% 0,98-2,19).

Consequentemente, há atualmente incerteza sobre o risco potencial de câncer de tireoide associado à AR por GLP-1.

Assim, o objetivo do presente estudo foi avaliar o risco de câncer de tireoide associado ao uso de GLP-1 RA em um cenário nacional do mundo real.

CONCLUSÕES

Neste estudo nacional de base populacional, o uso de GLP-1 RA foi associado a maior risco de câncer de tireoide.

Nossos resultados sugerem que o risco de câncer de tireoide deve ser considerado com AR GLP-1, particularmente em pacientes tratados por 1-3 anos.

A análise complementar de farmacovigilância com o uso do banco de dados mundial de reações adversas a medicamentos forneceu resultados consistentes.

Até onde sabemos, este é o primeiro estudo com investigação do risco de câncer de tireoide com os principais AR GLP-1 em um grande banco de dados administrativo.

Nossos achados não são consistentes com os relatados nos ensaios clínicos randomizados, que não mostraram um aumento no risco de câncer de tireoide com os diferentes AR GLP-1 individualmente ou em uma meta-análise.

No entanto, esses resultados foram baseados em dados de pacientes hiperselecionados de ensaios clínicos com protocolos abrangentes longe de dados da vida real e em muito poucos casos observados de câncer de tireoide (<10).

Em dois outros estudos observacionais, os investigadores não encontraram nenhum risco de câncer de tireoide com exenatida.

No entanto, esses estudos incluíram o uso de bancos de dados comerciais, induzindo um risco de seleção de pacientes e, com muito menos casos expostos do que em nosso estudo, provavelmente não tinham poder estatístico (<100 casos identificados de câncer de tireoide expostos ou não ao GLP1 RA em cada estudo).

Finalmente, os resultados de nossas análises globais complementares de farmacovigilância foram consistentes com os de um estudo de farmacovigilância nos EUA, onde a exenatida foi comparada com outros medicamentos antidiabéticos e foi encontrado um excesso de relatos de câncer de tireoide.

Vários estudos em animais demonstraram que a exposição à exenatida, liraglutida e dulaglutida estava associada ao câncer medular da tireoide em roedores de ambos os sexos.

Acreditava-se que o papel do GLP-1 RA no aumento da liberação de calcitonina e na expressão do gene da calcitonina resultando em hiperplasia de células C era específico para roedores.

Nossas descobertas claramente levantam preocupações sobre a relevância desse risco para os seres humanos.

Encontramos risco aumentado de câncer de tireoide para todos os AR GLP-1 estudados para > 1 ano de uso, exceto para dulaglutida por 1-3 anos de uso, mas a análise foi baseada em apenas 13 casos expostos (provavelmente devido à comercialização posterior),  sugerindo falta de poder estatístico neste grupo.

Embora a expressão do receptor GLP-1 em humanos seja menor do que em roedores, os receptores GLP-1 estão presentes no tecido tireoidiano humano ou células C neoplásicas da tireoide, sugerindo um papel direto da ativação do receptor GLP-1 na  ocorrência de câncer de tireoide em pessoas com diabetes tipo 2.

Em nosso estudo, o uso de inibidores de DPP-4 também foi associado a maior risco de câncer de tireoide, mas com estimativas de risco mais baixas.

Esses resultados podem estar relacionados à hipótese de que a inibição de DPP-4 resulta em aumento dos níveis endógenos de GLP-1, mas proporciona menor ativação do receptor de GLP-1 do que o uso de AR direto resistente a DPP-4.

HRs mais altas foram encontradas para o período de 1-3 anos de uso de GLP-1 RA (especialmente para pacientes do sexo masculino).  

Embora o potencial efeito carcinogênico do GLP-1 RA na tireoide não seja bem compreendido, este achado sugere que cânceres de tireoide induzidos podem se desenvolver após um período relativamente curto de exposição ao GLP-1 RA ou que o GLP-1 RA pode promover lesões pré-cancerosas da tireoide.

A presença de bócio, hipotireoidismo e hipertireoidismo foi maior nos casos do que nos controles; portanto, ajustamos essas variáveis ​​em nossas análises.  

É improvável que outras características levemente desequilibradas, como hipertensão ou tratamento com anti-inflamatórios não esteroides, possam ter confundido a associação.

Importante, não encontramos evidências de um potencial viés de detecção no estudo aqui apresentado.

Se existisse, o risco de tireoidectomia negativa (ou tireoidectomia sem diagnóstico de câncer de tireoide associado) teria sido aumentado com o uso de GLP-1 RA, o que não foi o caso.

Isso permite considerar que o risco aumentado de câncer que relatamos em nossa análise de caso-controle não deve estar relacionado ao achado incidental de câncer em pacientes que teriam maior probabilidade de receber tireoidectomia exploratória.

Além disso, o viés de triagem é esperado especificamente para condições assintomáticas, o que raramente é o caso de cânceres de tireoide, especialmente os medulares.

Semelhante ao viés de detecção, pode ocorrer um viés de notificação na análise do banco de dados de farmacovigilância, que resulta da notificação preferencial de casos de medicamentos para os quais um risco ou risco potencial já foi comunicado.

Como nenhum aviso sobre um potencial sinal associando GLP-1 RA com câncer de tireoide foi emitido no momento em que o período que consideramos para a análise terminou, não há razão para acreditar que tal viés teria afetado 
os resultados da análise complementar de farmacovigilância que realizamos.

Este estudo tem vários pontos fortes, incluindo o uso de um banco de dados de saúde nacional do mundo real, permitindo a representatividade da prática clínica atual (todos os pacientes franceses elegíveis expostos a medicamentos antidiabetes de segunda linha foram considerados) e a exaustividade dos dados  em termos de exposição (todas as dispensações são capturadas no banco de dados), diagnósticos de internação e procedimentos clínico-cirúrgicos.  

Além disso, a combinação de casos e controles e o ajuste de nossos modelos permitiram considerar importantes fatores de confusão potenciais, como idade, sexo, duração do diabetes, índice de privação social, bócio, hipotireoidismo, hipertireoidismo e exposição a outros medicamentos antidiabéticos.

Os pacientes incluídos tinham pelo menos 8 anos de histórico no banco de dados antes da data do índice, permitindo otimizar a avaliação da duração do diabetes.

Por fim, os resultados permaneceram consistentes nas análises estratificada e de sensibilidade.

No entanto, este estudo tem algumas limitações.

Primeiro, a definição de eventos e condições com uso de diagnósticos e procedimentos codificados em bancos de dados de hospitalização não pode excluir erros de classificação de desfecho e potenciais fatores de confusão.  

Além disso, não havia código específico disponível para câncer medular de tireoide.

Assim, para este desfecho, usamos uma definição que combina o diagnóstico de câncer de tireoide com vários testes de calcitonina, teste de CEA ou um tratamento específico (vandetanibe) para melhorar a validade da identificação do caso.

Em segundo lugar, as informações sobre os diagnósticos de internação não distinguem eventos recorrentes com internações sucessivas de várias internações relacionadas a um único evento incidente.

No entanto, a exclusão de pacientes com câncer nos 8 anos anteriores à entrada na coorte provavelmente evitou a classificação errônea dos eventos incidentes.

Terceiro, a exposição a medicamentos avaliada por meio de bancos de dados de assistência à saúde está sujeita a erros de classificação, uma vez que não se pode determinar se um medicamento dispensado é realmente administrado ao paciente.  

No entanto, várias prescrições sucessivas provavelmente estão associadas ao uso real de drogas.  

Os estudos farmacoepidemiológicos de risco de câncer são frequentemente sujeitos a viés protopático.

Em nosso estudo, adicionar um tempo de defasagem e analisar suas mudanças nas análises de sensibilidade reduziu o impacto desse potencial viés.

Por fim, potenciais confundidores como histórico familiar de câncer de tireoide e exposição à radiação ambiental estavam faltando no banco de dados, levando à possibilidade de confusão residual, inerente aos estudos observacionais.

• Conclusão

Em resumo, os resultados deste estudo nacional de base populacional sugerem que o uso de GLP-1 RA está associado ao aumento do risco de câncer de tireoide e câncer medular de tireoide em particular.

O risco aumentado foi maior para 1-3 anos de uso de GLP-1 RA e permaneceu elevado por > 3 anos de uso.

Os médicos devem estar cientes desse risco potencial ao iniciar uma AR GLP-1 e monitorar cuidadosamente os pacientes expostos, especialmente na presença de outros fatores de risco para câncer de tireoide.

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By Alberto Dias Filho - Digital Opinion Leader
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sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Uma nova era ": Como a semaglutida pode mudar o cenário do tratamento da obesidade

A prevalência de sobrepeso e obesidade continua a aumentar nos Estados Unidos e em todo o mundo a uma taxa alarmante.  Em 2025, os dados do NCD Risk Factor Collaboration sugerem que 18% dos homens e 21% das mulheres em todo o mundo terão obesidade.

Os tratamentos aprovados para a obesidade - particularmente a farmacoterapia - continuam subutilizados, de acordo com especialistas. As razões subjacentes à baixa aceitação de terapia médica para obesidade são complexas, variando de questões práticas de cobertura de seguro e custo a preocupações sobre segurança e eficácia, bem como estigma relacionado à doença continuado, mesmo entre os provedores.

Muitos de meus colegas não apreciam a regulação neuroendócrina em torno do peso ”, disse ao Endocrine Today Domenica M. Rubino, MD, diretor do Washington Center for Weight Management and Research em Arlington, Virginia.  “A obesidade, ainda, tem muito estigma. Aceitamos tratamento crônico para diabetes ou hipertensão. Com a obesidade, ninguém quer aceitar a medicação como um tratamento crônico. As pessoas querem acreditar que você prescreve um medicamento, a obesidade está "curada" e então você desiste do medicamento. Tratar a obesidade não é como tratar uma infecção ”.

Um novo agente está mudando essa conversa. Em junho, o FDA aprovou semaglutida 2,4 mg injetável uma vez por semana (Wegovy, Novo Nordisk) para controle crônico de peso em adultos com obesidade ou com sobrepeso e pelo menos uma condição relacionada ao peso.

O medicamento, uma versão em dose mais alta de semaglutida 1 mg injetável (Ozempic) para adultos com diabetes tipo 2, é o primeiro agente aprovado para controle crônico de peso em adultos com obesidade geral ou sobrepeso desde 2014.

Os dados do programa de ensaio clínico Semaglutide Treatment Effect in People with Obesity (STEP), publicado no final de 2020 e início de 2021, foram saudados como uma mudança no jogo para o controle da obesidade. Aproximadamente 33% dos participantes que receberam 2,4 mg de semaglutida nos estudos perderam mais de 20% do peso corporal ao longo de 68 semanas - perda de peso que rivaliza com o que é tipicamente visto na cirurgia bariátrica.

“O que é mais empolgante sobre os dados da semaglutida é que este é o início de uma era potencialmente nova em como pensamos sobre o que a farmacoterapia pode fazer - e pode fazer com segurança - com a obtenção de uma perda de peso de maior volume”, Jamy D. Ard, MD  , professor de epidemiologia e prevenção e co-diretor do Centro de Controle de Peso da Wake Forest School of Medicine, disse ao Endocrine Today. “Sabemos que existem outros medicamentos em desenvolvimento com mecanismos de ação ou alvos moleculares semelhantes. Quando começarmos a falar sobre as opções para onde o tratamento pode evoluir, elas serão significativamente diferentes.

Isso abrirá possibilidades de que mais pessoas possam ter uma resposta ao tratamento bem-sucedida. ”

Os dados também mostram que os médicos têm uma nova oportunidade de controlar a obesidade e suas complicações médicas, incluindo diabetes tipo 2, de acordo com Ken Fujioka, MD, ex-diretor do Centro de Controle de Peso e diretor do Centro de Pesquisa Nutrição e Metabólica da Scripps Clinic San  Diego.

Com este medicamento, você tem o potencial não apenas de impedir que alguém desenvolva diabetes tipo 2, mas também de reduzir o risco de pré-diabetes ”, disse Fujioka ao Endocrine Today.  Quando alguém tem pré-diabetes, é aí que começam os problemas cardiovasculares. Você corre um risco maior de derrames e ataques cardíacos. Com este medicamento, você está levando alguns pacientes pré-diabéticos à normoglicemia. Você tira esse risco CV. Esse é um grande passo em frente na área de saúde”.

• Um 'impacto sofisticado'

 A semaglutida, um mimético da incretina que imita as funções dos hormônios incretínicos naturais no corpo, atua de quatro maneiras diferentes, de acordo com Fatima Cody Stanford, MD, MPH, MPA, MBA, FAAP, FACP, FAHA, FAMWA, FTOS, um médica para obesidade e cientista do Massachusetts General Hospital e da Harvard Medical School.

A droga retarda o esvaziamento gástrico, melhorando a saciedade, de modo que a pessoa se sente saciada por mais tempo.

Também funciona como neurotransmissor, inibindo a via do neuropeptídeo Y, um dos peptídeos orexigênicos mais potentes encontrados no cérebro, enquanto estimula a via anorexigênica pró-opiomelanocortina (POMC).

Ao mesmo tempo, a semaglutida aumenta a secreção de insulina e diminui a secreção de glucagon, melhorando a resposta à glicose.

A semaglutida tem uma estrutura diferente de outro agonista do receptor de GLP-1, liraglutida 3 mg (Saxenda, Novo Nordisk), uma injeção uma vez ao dia aprovada pela FDA para controle de peso em 2014. 

Como agente semanal, a semaglutida prolonga a meia-vida em comparação com um  droga diária.

Todos os agonistas do receptor de GLP-1 funcionam de forma semelhante, embora novas evidências apontem para agonistas do receptor de GLP-1 visando diferentes áreas do cérebro, o que pode afetar a eficácia dos agentes individuais, bem como a sensibilidade de uma pessoa a um determinado agonista, disse Rubino.

“Estamos aprendendo que existem GLP-1s endógenos que são produzidos no cérebro se comunicando, neurônio a neurônio, em regiões que não apenas governam a fome, mas também as vias hedônicas e de recompensa”, disse Rubino. “Além disso, podem afetar o funcionamento executivo. Você está vendo um impacto sofisticado em várias vias. É por isso que há desenvolvimento de vários medicamentos que afetam essas vias;  portanto, os agonistas duplos e tri-agonistas que agora estão em desenvolvimento.”

• Avaliando os STEPs

Para os quatro estudos STEP de fase 3, os pesquisadores avaliaram semaglutida 2,4 mg em mais de 4.300 adultos com obesidade ou com sobrepeso com uma condição de comorbidade relacionada ao peso.  

Cada estudo teve os mesmos desfechos coprimários de alteração percentual no peso corporal e redução de peso de pelo menos 5% desde o início até 68 semanas em comparação com o placebo.

Os pesquisadores usaram a estimativa primária para avaliar os efeitos independentemente da descontinuação do tratamento ou das intervenções de resgate.

O programa de desenvolvimento clínico é um dos maiores programas de ensaio para o controle da obesidade.

“Tendo trabalhado nesse negócio por alguns anos, estou impressionado que eles pudessem montar tantos estudos diferentes, em todo o mundo, terminando em um cronograma apertado”, Steven B. Heymsfield, MD, FTOS, professor do departamento de  metabolismo e composição corporal no Pennington Biomedical Research Center, Louisiana State University, que anteriormente trabalhou no desenvolvimento de medicamentos na Merck, disse ao Endocrine Today.  

“Isso é não é trivial. Todos nós nessa indústria estamos impressionados com a forma como eles conseguiram isso. ”

O principal estudo STEP 1, publicado no The New England Journal of Medicine em fevereiro, incluiu 1.961 adultos sem diabetes que tinham obesidade ou excesso de peso com uma condição comórbida relacionada ao peso. Os pesquisadores designaram aleatoriamente os participantes semaglutida 2,4 mg ou placebo; ambos os grupos receberam intervenção no estilo de vida.

Os pesquisadores descobriram que a mudança média no peso corporal desde o início até a semana 68 foi de –14,9% para o grupo de semaglutida e –2,4% para o grupo de placebo, para uma diferença de tratamento estimada de –12,4 pontos percentuais (IC de 95%, –13,4 a –11,5)

Os participantes que receberam semaglutida perderam uma média de –15,3 kg vs. –2,6 kg no grupo de placebo, para uma diferença de tratamento estimada de –12,7 kg (IC de 95%, –13,7 a –11,7).

O STEP 2, publicado em março no The Lancet, incluiu 1.210 adultos com diagnóstico de diabetes tipo 2 com sobrepeso ou obesidade.

Às 68 semanas, a alteração estimada no peso corporal médio desde a linha de base foi de 9,6% com 2,4 mg de semaglutida vs. 3,4% com placebo, para uma diferença de tratamento estimada de 6,2 pontos percentuais (IC de 95%, 7,3 a 5,2).

Na semana 68, mais pacientes em semaglutida 2,4 mg alcançaram reduções de peso de pelo menos 5% vs. placebo (68,8% vs. 28,5%), para um OR de 4,88 (IC 95%, 3,58-6,64).

“Com esses hormônios gastrointestinais e seu impacto neuroendócrino quando direcionamos essas vias, podemos obter uma perda de peso significativa para a maioria das pessoas, melhorar suas comorbidades e ajudar as pessoas a começar a fazer melhorias em suas vidas”, disse Rubino. “Estamos iniciando um caminho que agora tem um futuro de terapias médicas cada vez melhores, para que possamos oferecer tratamentos de obesidade a mais pessoas. Não estamos substituindo a cirurgia bariátrica, mas muito mais pessoas podem ser tratadas. A semaglutida é outra ferramenta, e precisamos de muitas ferramentas, porque o cérebro de cada pessoa é um pouco diferente.”

O STEP 3, publicado no JAMA em fevereiro, avaliou o efeito da semaglutida 2,4 mg no peso corporal em 611 adultos com obesidade, mas sem diabetes, quando adicionado à terapia comportamental intensiva que consistia em 30 consultas de aconselhamento com uma dieta inicial de baixa caloria por 8 semanas.

Às 68 semanas, a semaglutida associada à terapia comportamental intensiva e uma dieta de baixa caloria resultou em reduções no peso corporal de 16% vs. 5,7% para o placebo (P <0,001).

 “Isso mostra que isso [intervenção] pode ser feito na atenção primária, porque a terapia comportamental intensiva não foi fundamental para alcançar a perda de peso”, disse Rubino. “Qualquer profissional de saúde que prescreve pode prescrever o medicamento e ajudar as pessoas.  Você não precisa ir a um centro especializado. Esses centros podem cuidar das pessoas mais complexas. ”

O STEP 4, publicado no JAMA em março, avaliou a perda ou manutenção de peso contínua entre 535 adultos com obesidade que continuaram a terapia com semaglutida além de 20 semanas vs. 268 participantes que foram trocados para o placebo em 20 semanas.

Após a randomização, a mudança de peso média estimada da semana 20 à semana 68 foi de –7,9% com semaglutida continuada vs. um aumento médio de 6,9% entre os participantes que mudaram para o placebo, para uma diferença de –14,8 pontos percentuais (IC de 95%, –16  a –13,5).

“Algumas coisas são importantes a serem observadas nesses estudos - uma é que a grande maioria das pessoas está experimentando o que chamamos de resposta ao tratamento clinicamente significativa, ou perda de peso de pelo menos 5%”, disse Ard.  

“Sabemos que isso leva a melhorias nos fatores de risco para complicações da obesidade e na qualidade de vida. Mas o mais empolgante com relação a essa droga é que a magnitude da resposta é maior. Isso significa que pode-se começar a descartar a noção de que é necessária uma intervenção intensa, suporte e experiência para obter essa resposta ao tratamento. Talvez não precisemos de todas essas coisas para que as pessoas tenham sucesso.  A farmacoterapia muda a biologia e quando você faz isso, as pessoas podem mudar para um estilo de vida que seja sustentável e pareça fácil de fazer.”

Posso pegar para meus pacientes?

Em um estudo publicado na Obesity em fevereiro de 2020, os pesquisadores usaram a Health Economics Medical Innovation Simulation, um modelo de simulação bem estabelecido, para quantificar o valor social de medicamentos anti-obesidade para adultos americanos em 2019. 

Quatro cenários com absorção diferencial entre os elegíveis  população (15% e 30%) foram modelados, com eficácia dos medicamentos atuais e de próxima geração. O valor social foi medido como qualidade de vida monetizada, ganhos de produtividade e economia em gastos médicos, subtraindo os custos dos medicamentos.

Para os 217 milhões de residentes dos Estados Unidos com pelo menos 25 anos, os medicamentos anti-obesidade geraram US $ 1,2 trilhão em valor social ao longo da vida em um cenário conservador de ingestão anual de 15% usando os tratamentos disponíveis atualmente. A introdução de tratamentos de próxima geração aumentou o valor social de US $ 1,9 trilhão para US $ 2,5 trilhões, dependendo da aceitação. O valor social foi maior para indivíduos mais jovens e para adultos negros e hispânicos em comparação com adultos brancos.

As políticas que promovem o acesso clínico mais amplo e o uso de medicamentos anti-obesidade devem ser levados em consideração para atingir as metas nacionais de redução da obesidade ”, escreveram os pesquisadores.

No entanto, a aprovação da semaglutida 2,4 mg apresenta dois obstáculos possíveis para atingir os adultos elegíveis, de acordo com especialistas - acesso e acessibilidade.

“Pessoas com obesidade podem colher muitos benefícios de um agente como a semaglutida”, disse Stanford ao Endocrine Today.  “Minha única preocupação é: posso conseguir para meus pacientes?  Às vezes, um novo medicamento é como um enfeite brilhante em uma prateleira, e isso pode ser ainda mais frustrante. Espero que as seguradoras tomem uma atitude ”.

 “O grande elefante na sala é o custo”, disse Fujioka. “Se a semaglutida não for coberta pelo seguro, não vejo pacientes usando isso. Você precisa de companhias de seguros para comprar e pagar por isso.  Infelizmente, [cobertura] varia de estado para estado e de empregador para empregador. ”

É provável que muitos pacientes também já tenham recebido a prescrição de vários agentes para outras doenças, disse Rubino, aumentando a carga da polifarmácia.

“É importante lembrar que a maioria das pessoas com obesidade geralmente tem de duas a três comorbidades, se não mais”, disse Rubino. “Muitas dessas comorbidades também requerem medicamentos. O objetivo do tratamento da obesidade é melhorar essas condições, mas enquanto você está no processo, eles estão gastando dinheiro em outros medicamentos. Existem barreiras econômicas, práticas e logísticas que precisam ser superadas. ”

Aprendendo com os que não responderam

A perda de peso alcançada com qualquer intervenção de controle de peso pode variar amplamente entre os indivíduos, disse Fujioka. No programa STEP geral, quase 10% dos participantes sem diabetes e mais de 30% dos participantes com diabetes tipo 2 experimentaram menos de 5% de perda de peso, apesar do uso de um potente agonista do receptor de GLP-1 mais intervenção no estilo de vida.

“A fisiopatologia da obesidade para todos é praticamente a mesma, mas as razões pelas quais alguém vai ganhar peso estão por toda parte”, disse Fujioka. “Alguém pode ter problemas para comer à noite ou ter problemas para dormir. Outro pode ter transtorno da compulsão alimentar periódica. Cerca de dois terços experimentam o aumento clássico da fome e não se sentem saciados ao comer. Esses pacientes se sairão muito bem com esta droga. Com a semaglutida, entre 75% e 85% respondem. Haverá de 15% a 20% de pessoas que simplesmente não respondem, porque estão ganhando peso por outros motivos. ”

Para essas pessoas, as intervenções individualizadas juntamente com a farmacoterapia certa são fundamentais, embora muitas vezes envolvam tentativa e erro, disse Stanford.

“Digo aos pacientes que, ao contrário das terapias contra o câncer, em que um médico dá uma meta, não temos esse nível de precisão”, disse Stanford. “Assim como o diabetes ou a hipertensão, há suposições envolvidas. Haverá respondentes acima da média e haverá não respondentes. Trata-se de encontrar a droga certa para você, e temos que descobrir o que é essa droga. ”

Stanford disse que provavelmente existem diferentes fenótipos e genótipos de obesidade sobre os quais os pesquisadores estão apenas começando a aprender mais, o que um dia poderá ajudar a determinar a resposta a uma terapia.

 “Para aqueles que não responderam ou tiveram uma resposta abaixo da média, o que sabemos sobre eles?”  Ard disse. “Temos que continuar a olhar para isso em populações de pacientes mais desafiadoras, como aqueles com problemas de saúde mental, que não foram incluídos nesses estudos, bem como diferenças raciais e étnicas na resposta ao tratamento. Há mais coisas que precisamos aprender. Dito isso, este é o início de uma nova era no que esperaremos como parte de nosso arsenal de tratamento da obesidade. ”


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