Um estudo grande apresentado no Congresso de 2025 da Academia Europeia de Dermatologia e Venereologia (EADV) mostrou que quem usa medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1 (usados para diabetes etratamento da obesidade) tem mais chance de apresentar queda de cabelo, especialmente dois tipos: eflúvio telógeno (queda difusa e temporária) e alopecia androgenética (padrão masculino/feminino), a associação com alopecia areata (autoimune, em “moedas”) não foi observada, isso não significa que o remédio “destrói” o cabelo, e sim que pode revelar um problema que a pessoa já tinha tendência, principalmente quando há perda de peso rápida, o que é um gatilho clássico para queda de fios.
Mas por que isso virou assunto somente agora?
Essa classe de medicamento está sendo usada por muito mais pessoas, afinal há sólidas evidências sobre os seus benefícios metabólicos e cardiovasculares, quanto mais pessoas usam, mais efeitos inesperados aparecem nos relatos médicos. Dentre eles a queda de cabelo.
Mas como a maioria dos relatos eram pequenos, ainda havia dúvida sobre o tamanho do risco real, por isso esse estudo auxiliar na compreensão do quadro com mais clareza, trazendo números de uma base de dados ampla, e reforçando que o fenômeno é relevante na prática. Reforçando o que Nutrólogos, Dermatologistas e Endocrinologistas já falam há quase 1 década.
Como o estudo foi feito
Pesquisadores analisaram prontuários de adultos nos EUA que pegaram pelo menos duas receitas de um GLP-1 e tiveram pelo menos duas consultas entre 2014 e 2024, foram incluídos usuários de liraglutida, semaglutida, dulaglutida, exenatida, lixisenatida e tirzepatida, pessoas com outras causas nítidas de queda (como quimioterapia, doenças da tireoide, menopausa, desnutrição, cirurgias bariátricas, alopecias cicatriciais e tricotilomania) foram excluídas, depois igualaram grupos por idade, sexo, etnia, IMC e diabetes tipo 2, garantindo comparação justa entre usuários e não usuários.
O tamanho da amostra (o n do estudo)
No total, mais de 590 mil pessoas usaram GLP-1 e mais de 4,5 milhões não usaram, após o pareamento estatístico ficaram dois grupos idênticos em tamanho: 547.993 usuários e 547.993 não usuários, esse desenho reduz o viés e melhora a confiança nos resultados, permitindo comparar a incidência de diferentes tipos de queda de cabelo, tanto em 6 quanto em 12 meses, com medidas que estimam o aumento de chance associado ao uso desses remédios.
O que é “nonscarring hair loss”
O termo “queda não cicatricial” reúne três diagnósticos que não destroem o folículo: eflúvio telógeno (TE), alopecia androgenética (AGA) e alopecia areata (AA), o estudo avaliou esse conjunto como um desfecho composto para captar qualquer queda não cicatricial, além de olhar para cada tipo separadamente, isso ajuda a entender tanto o panorama geral da queda quanto os padrões específicos que importam para orientar o cuidado clínico.
Resultados em 6 meses
Em 6 meses, usuários de GLP-1 tiveram 26% mais chance de algum tipo de queda não cicatricial e 62% mais chance de alopecia androgenética em comparação com não usuários, para eflúvio telógeno houve um sinal de 30% a mais, mas sem confirmação estatística nesse ponto, isso sugere que já no curto prazo pode haver aumento de queixa de fios caindo, especialmente quando existe tendência ao padrão androgenético, que pode “aparecer” após uma fase de queda difusa.
Resultados em 12 meses
Em 12 meses, o eflúvio telógeno ficou significativamente mais provável nos usuários (76% a mais), e a chance de AGA e de queda não cicatricial como um todo também permaneceu maior (64% e 40% a mais, respectivamente), já a alopecia areata não mostrou aumento, reforçando que o mecanismo principal não parece ser autoimune, mas sim algo ligado ao estresse metabólico do emagrecimento rápido e à predisposição genética para o afinamento progressivo dos fios.
Relevância na prática clínica
Para médicos e pacientes, a mensagem é: queda de cabelo pode acontecer durante o tratamento com GLP-1, especialmente se o peso cair muito rápido, isso afeta autoestima e adesão ao tratamento, por isso merece ser conversado antes de iniciar a medicação, o objetivo não é abandonar uma terapia eficaz, mas planejar o processo para reduzir riscos, com acompanhamento nutricional e monitoramento de sinais de queda, ajustando o ritmo de perda de peso quando necessário.
Muitos casos parecem seguir este roteiro: a pessoa emagrece rápido, entra em eflúvio telógeno, os fios afinam temporariamente e caem mais, ao mesmo tempo a alopecia androgenética latente fica mais evidente, não por toxicidade direta do remédio, mas porque o corpo passou por um estresse calórico e nutricional, quando o peso estabiliza e a ingestão proteica e de micronutrientes está adequada, o eflúvio tende a melhorar em meses, mas a AGA pode precisar de tratamento específico.
Cronograma típico da queda
A queda reativa costuma começar 6 a 12 semanas após o “gatilho” (no caso, a perda de peso acelerada), e tende a melhorar entre 3 e 6 meses depois que o peso estabiliza, é útil alinhar expectativas: algum aumento de fios no ralo e na escova pode acontecer e não significa dano permanente, entender o timing ajuda a reduzir ansiedade, orientar exames simples quando a queda persiste e decidir se vale introduzir terapias para AGA ao mesmo tempo.
O que checar na prática clínica
Se a queda estiver prolongada ou intensa, vale investigar fatores que pioram o quadro: panorama do ferro, vitamina B12, zinco e vitamina D, além de TSH para avaliar a tireoide, corrigir deficiência de proteína na dieta também é fundamental, esses pontos não substituem o tratamento, mas tratá-los melhora o ambiente para o cabelo se recuperar, potencializando a melhora espontânea do eflúvio e a resposta a tratamentos da AGA quando indicados.
Estratégias para prevenir e mitigar
Evitar perda de peso muito rápida, garantir dieta equilibrada com proteínas suficientes, manter ingestão de micronutrientes, dividir metas semanais realistas, e acompanhar com profissional de saúde são atitudes que reduzem o risco, se a queda não melhora, discutir minoxidil tópico ou oral pode ser uma opção, especialmente quando há padrão de rarefação típico de AGA, tudo deve ser individualizado, considerando histórico, comorbidades e objetivos terapêuticos.
Não é motivo para pânico
Queda de cabelo ligada ao emagrecimento costuma ser reversível, o mais importante é não interromper sozinho um tratamento que está controlando diabetes ou trazendo benefícios metabólicos, converse com seu médico para ajustar o plano, muitas vezes apenas reduzir a velocidade da perda de peso e reforçar nutrição já muda o curso, e, quando existe AGA, iniciar terapias específicas melhora densidade e aparência enquanto o organismo se reequilibra.
O papel da equipe de saúde
Profissionais devem avisar sobre a possibilidade de queda antes de prescrever, orientar que o pico ocorre semanas após o gatilho, acompanhar sinais clínicos, solicitar exames simples quando indicado e propor medidas de suporte, isso aumenta a adesão, diminui sustos e evita abandono desnecessário do GLP-1, uma conversa franca, metas realistas e um plano nutricional robusto geralmente bastam para atravessar essa fase com menos impacto emocional.
Conclusão
Medicamentos GLP-1 ajudam muito em diabetes e emagrecimento, mas podem aumentar a chance de queda de cabelo, principalmente se você emagrecer rápido, na maioria das vezes é temporário e melhora quando o peso estabiliza e a alimentação está adequada, às vezes “revela” a calvície de padrão familiar, que tem tratamento, o caminho mais seguro é emagrecer com calma, cuidar da nutrição, checar ferro e vitaminas quando preciso e alinhar tudo com seu médico.
Autor: Dr. Frederico Lobo - Médico Nutrólogo - CRM-GO 13192 - RQE 11915 - Gostou do texto e quer conhecer mais sobre minha pratica clínica (presencial/telemedicina), clique aqui.
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