Nas consultas em consultório particular e também no ambulatório de Nutrologia no SUS, é extremamente comum receber pacientes que relatam aumento significativo de gases, distensão abdominal, estufamento e desconforto após o consumo de alimentos feitos com farinha de trigo, como pães, bolos, massas, biscoitos e pizzas. Essa semana, um seguidora do meu canal do whatsapp me mandou uma mensagem pedindo para eu falar sobre pão, gases e glúten.
Inclusive, se você não segue o meu canal no whatsApp recomendo fortemente que sigo. Modéstia parte o meu conteúdo é interessante. Basta clicar no link a seguir e me acompanhar. Diariamente posto textos, vídeos, podcasts e infográficos lá. https://whatsapp.com/channel/0029Vb6U4AqKgsNzkBhubA40
A associação é quase automática: o paciente passa a acreditar que o problema está diretamente relacionado ao glúten, seja por “sensibilidade”, “intolerância” ou até mesmo por suspeita de doença celíaca. Muitos afirmam com convicção: “acho que tenho doença celíaca”, mesmo sem nunca terem realizado exames adequados e aí quando peço o anticorpo vem negativo.
Esse raciocínio se popularizou no começo dos anos 2010 por conta da grande exposição do tema nas redes sociais, documentários, livros como Barriga de trigo e conteúdos de internet. Blogueiras, influencers e nutricionistas/nutrólogos inconsequentes recomendando a retirada de glúten para todos. No entanto, do ponto de vista fisiológico e clínico, essa conclusão costuma ser precipitada na maioria dos casos.
E se eu te dissesse que, em grande parte dos pacientes, essa piora dos gases e do desconforto abdominal não está relacionada ao glúten, mas sim a um outro componente do trigo, muito menos conhecido: os carboidratos fermentáveis?
O trigo contém quantidades relevantes de um grupo específico de carboidratos chamados frutanos (ou fructanos). Eles fazem parte da família dos FODMAPs (Fermentable Oligosaccharides, Disaccharides, Monosaccharides And Polyols), ou seja, carboidratos fermentáveis de difícil digestão.
Diferentemente do glúten, que consiste em uma proteína, os frutanos são fibras fermentáveis que não são completamente digeridas ou absorvidas no intestino delgado. Ao chegarem ao intestino grosso, tornam-se substrato para as bactérias da microbiota intestinal.
Esse processo de fermentação bacteriana gera dois fenômenos principais:
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Produção de gases (hidrogênio, metano e dióxido de carbono).
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Aumento da osmolaridade intestinal, que puxa água para dentro da luz do intestino e pode cursar com diarréia, aumento da percepção do peristaltismo (borborigmos)
O resultado clínico é o chamado meteorismo, um conjunto de sintomas que pode incluir:
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Distensão abdominal visível e progressiva ao longo do dia. As pacientes brincam que "acordo com a barriga retinha e final do dia parece que estou grávida".
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Sensação intensa de empachamento
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Dor abdominal em cólica
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Flatulência excessiva
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Diarreia, constipação ou alternância entre ambas
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Sensação de borborigmos (barulhos intestinais audíveis)
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Fezes com odor mais forte e fétido
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Sensação de digestão lenta ou “parada”
Em pacientes mais sensíveis, esses sintomas surgem poucas horas após a ingestão e podem persistir por todo o dia.
Outros tipos de intolerãncias
O grande problema é que o glúten acabou se tornando o “vilão universal” quando o assunto é desconforto intestinal. Poucas pessoas sabem que a maioria dos quadros de gases relacionados ao trigo não tem origem imunológica, como ocorre na doença celíaca, mas sim metabólica e fermentativa.
Além disso, quando se fala em intolerância alimentar, o público em geral lembra apenas de dois exemplos: lactose e frutose. Tenho um texto gigantesco sobre esse tema. Sugiro que voc~e leia e tire as suas próprias conclusões sobre a complexidade do tema: https://www.ecologiamedica.net/2024/04/doutor-tudo-que-como-passo-mal.html
No entanto, existe uma variedade muito maior de carboidratos potencialmente mal absorvidos, como:
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Frutanos (trigo, cebola, alho)
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Galactanos (rafinose e estaquiose que estão presentes em leguminosas)
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Polióis (sorbitol, manitol, xilitol, eritritol)
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Excesso de frutose natural ou a artificial adicionada a vários produtos
Todas essas intolerâncias podem coexistir, variar de intensidade entre indivíduos e mudar ao longo da vida.
Outro ponto fundamental é que muitos desses pacientes apresentam, simultaneamente, SIBO (supercrescimento bacteriano no intestino delgado) , IMO (crescimento metanogênico), ISO (crescimento de bactérias produtoras de sulfeto) ou SIFO (crescimento fúngico).
Nesse cenário, bactérias passam a fermentar esses carboidratos precocemente, ainda no intestino delgado, intensificando a produção de gases, distensão, dor e alterações do hábito intestinal.
O SIBO cria um verdadeiro “círculo vicioso”: mais fermentação, levará a mais inflamação funcional, com isso há pior absorção, gerando mais sintomas e com isso maior sensibilidade alimentar.
E o pão de fermentação natural, é melhor?
Em parte, sim.
Durante a fermentação natural — especialmente quando é longa (12 a 24 horas ou mais) — parte dos frutanos é consumida pelas leveduras e bactérias do processo fermentativo. Isso reduz a carga total de FODMAPs do produto final, tornando-o potencialmente mais bem tolerado por alguns pacientes.
Por isso, muitas pessoas relatam que toleram melhor:
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Pães artesanais de fermentação longa
Pães de fermentação natural (sourdough)
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Produtos com menor tempo de prateleira
Entretanto, isso não é uma regra universal.
Pacientes com alta sensibilidade visceral, síndrome do intestino irritável moderada a grave ou SIBO ativo podem continuar apresentando sintomas mesmo com esses produtos, incluindo:
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Estufamento
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Queimação retroesternal (pirose)
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Flatulência intensa
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Diarreia
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Dor abdominal
Ou seja, trocar o pão industrializado por fermentação natural pode ajudar, mas não resolve o problema de todos.
Por isso, retirar o glúten por conta própria, sem diagnóstico adequado, além de desnecessário na maioria dos casos, pode atrasar a identificação do verdadeiro problema: intolerâncias específicas, disbiose intestinal, SIBO, alterações de motilidade ou síndrome do intestino irritável.
A abordagem correta envolve:
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Anamnese alimentar detalhada com nutrólogo, afinal quem dá diagnóstico é médico e não nutricionista
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Avaliação dos sintomas e sua relação temporal com os alimentos: trabalho que chamo de duplo detetive. Criei um método baseado no material desenvolvido pela Universidade de Monash, no qual ao longo de 6 meses conseguimos detectar várias intolerâncias.
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Investigação de doença celíaca quando indicada
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Avaliação de intolerâncias alimentares, com solicitação do testes com evidências científicas. Importante salientar que testes para intolerãncia são padronizados, não existindo evidência para os testes baseados em Imunoglobulina G ou IgG4.
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Pesquisa de SIBO quando há forte suspeita clínica
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Estratégias nutricionais individualizadas (como dieta low FODMAP temporária por 6 semanas, com posterior reintrodução programada)
Se você apresenta gases frequentes, distensão abdominal persistente, dor ou alterações intestinais após consumir alimentos com trigo ou outros carboidratos, o mais prudente é procurar avaliação médica especializada.
Um nutrólogo pode identificar com precisão a causa dos seus sintomas, evitar restrições alimentares desnecessárias e conduzir o tratamento de forma racional, segura e baseada em evidências.
Seu intestino não precisa sofrer, e o glúten, muitas vezes, é apenas o suspeito errado no lugar errado. Inclusive, alimentos com glúten são uma das fontes de fibras, então há trabalhos científicos mostrando que a retirada desnecessária pode levar:
1) Alterações na microbiota intestinal, reduzindo a variabilidade
2) Deficiências nutricionais, principalmente de vitaminas do complexo B
3) Isolamento social
4) Transtornos alimentares como ortorexia e anorexia, em indivíduos geneticamente predispostos.
Autor: Dr. Frederico Lobo - Médico Nutrólogo - CRM-GO 13192 - RQE 11915 - Gostou do texto e quer conhecer mais sobre minha pratica clínica, clique aqui.



Tenho gases e queimação com pão integral normal. Mas com o de fermentação natural não tenho. Como se explica?
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