Semaglutida melhora acne, hidradenite supurativa e oleosidade da pele?




Você já percebeu como problemas metabólicos e doenças de pele frequentemente caminham juntos? Acne persistente, hidradenite supurativa e oleosidade excessiva muitas vezes aparecem em pessoas com obesidade, resistência à insulina ou diabetes. Um estudo recente publicado na revista Cureus investigou justamente essa conexão, analisando o impacto da semaglutida, um agonista do GLP-1 amplamente utilizado no tratamento da obesidade e do diabetes — sobre a saúde da pele. 

A pergunta central foi simples, mas poderosa: ao melhorar o metabolismo, seria possível também reduzir inflamação cutânea e produção de sebo? Os resultados trouxeram dados interessantes e promissores.

A pesquisa acompanhou 110 adultos entre 18 e 65 anos que iniciaram tratamento com semaglutida e apresentavam acne, hidradenite ou aumento da atividade sebácea. O acompanhamento durou 24 meses, com avaliações no início e após 3, 6, 12, 18 e 24 meses 

Além das avaliações dermatológicas, foram monitorados indicadores metabólicos como índice de massa corporal (IMC), glicemia, hemoglobina glicada (HbA1c) e níveis de insulina. Esse acompanhamento prolongado fortalece a análise, pois permite observar mudanças sustentadas ao longo do tempo, e não apenas efeitos passageiros.

A acne foi avaliada por meio da escala IGA (Investigator’s Global Assessment), que classifica a gravidade com base no número e tipo de lesões inflamatórias e não inflamatórias. Já a hidradenite supurativa foi mensurada pelo sistema IHS4, que considera nódulos, abscessos e túneis inflamatórios, permitindo um acompanhamento objetivo da atividade da doença. 

A oleosidade da pele foi quantificada por sebumetria, método que mede a produção de sebo em microgramas por centímetro quadrado. Ou seja, não se tratou apenas de impressão clínica, mas de dados mensuráveis e padronizados.

Ao longo dos dois anos, a gravidade média da acne caiu de 1,92 para 1,21, mostrando uma melhora progressiva. 

A hidradenite também apresentou redução significativa, com a pontuação média diminuindo de 11,34 para 7,45 no mesmo período. Esses números indicam uma queda consistente na atividade inflamatória. Não foi uma mudança abrupta, mas uma evolução gradual, sugerindo que a modulação metabólica pode exercer influência contínua sobre a inflamação cutânea.

A produção de sebo também apresentou redução importante, passando de 186,45 para 138,56 µg/cm². Como o excesso de oleosidade é um dos pilares da fisiopatologia da acne, essa diminuição ajuda a explicar parte da melhora observada. Menos sebo significa menor obstrução dos poros e, consequentemente, menor ambiente propício à proliferação bacteriana e inflamação.

Um dos achados mais relevantes foi a correlação entre melhora metabólica e melhora dermatológica. Reduções no IMC, HbA1c, glicemia e insulina estiveram associadas à diminuição da acne, da hidradenite e da atividade sebácea. Mesmo após ajustes estatísticos para idade, sexo e outros fatores, essa associação permaneceu significativa. Isso reforça a ideia de que o controle metabólico não beneficia apenas órgãos internos, mas também influencia diretamente a pele.

Em relação à segurança, os efeitos adversos foram leves e compatíveis com o perfil conhecido da semaglutida. Náusea foi o sintoma mais frequente, seguida por diarreia e vômito. Não houve registro de eventos dermatológicos graves no grupo analisado. A adesão ao tratamento foi considerada alta ao longo do estudo, embora tenha havido pequena redução com o passar do tempo.

É importante destacar que o estudo teve desenho observacional e não contou com grupo controle. Isso significa que não podemos afirmar com absoluta certeza que a melhora foi exclusivamente causada pelo medicamento. Ainda assim, os dados prospectivos e a duração prolongada conferem peso relevante às conclusões. Ensaios clínicos randomizados futuros poderão esclarecer definitivamente essa relação.

Do ponto de vista biológico, faz sentido que os agonistas do GLP-1 influenciem a pele. Esses medicamentos reduzem inflamação sistêmica, melhoram a sensibilidade à insulina e modulam vias metabólicas associadas à lipogênese. Como a acne e a hidradenite são doenças fortemente influenciadas por fatores hormonais, metabólicos e inflamatórios, a melhora global do organismo pode refletir diretamente na saúde cutânea 

Na prática, os achados sugerem que pacientes com obesidade ou diabetes que também sofrem com acne ou hidradenite podem experimentar benefícios dermatológicos adicionais durante o tratamento com semaglutida. Isso não significa que o medicamento substitua terapias dermatológicas tradicionais, mas abre uma nova perspectiva terapêutica integrada. A pele, afinal, não está isolada do restante do corpo.

Em conclusão, o estudo indica que a semaglutida esteve associada a melhora progressiva da acne, redução da atividade da hidradenite e diminuição da oleosidade da pele ao longo de 24 meses. Esses resultados reforçam a conexão entre metabolismo e inflamação cutânea e apontam para um possível papel complementar dos agonistas do GLP-1 na dermatologia. Embora mais pesquisas sejam necessárias, a mensagem é clara: cuidar do metabolismo pode ser também uma forma de cuidar da pele.

Artigo original: JABIN, Azra et al. The Impact of Glucagon-Like Peptide-1 (GLP-1) Agonists on Acne, Hidradenitis, and Sebaceous Activity. Cureus, v. 18, n. 1, e101212, 2026. DOI: 10.7759/cureus.101212.

Autor: Dr. Frederico Lobo - Médico Nutrólogo - CRM-GO 13192 - RQE 11915 - Gostou do texto e quer conhecer mais sobre minha pratica clínica, clique aqui. 

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