A obesidade infantil e adolescente: um problema silencioso que cresce a cada ano
Recentemente, no dia das crianças, escrevi um texto sobre a deterioração silenciosa da saúde infantil: pela primeira vez na história, crianças e adolescentes podem viver menos do que seus pais. Para acessar: https://www.ecologiamedica.net/2025/10/saude-infantil-em-risco.html
Como vários amigos pediatras compartilharam o texto, muita gente mandou mensagem no instagram e no whatsapp da clínica, perguntando se eu atendia crianças e adolescentes com obesidade em Goiânia. E daí, percebe-se que a literatura está correta, a obesidade na infância e na adolescência tornou-se um dos maiores desafios de saúde pública do século XXI. Meu ambulatório de Nutrologia no SUS que o diga.
Nas últimas décadas, o número de crianças com excesso de peso cresceu de forma tão acelerada que muitos especialistas já descrevem a situação como uma epidemia global. Dados recentes indicam que cerca de 1 em cada 10 crianças e adolescentes no mundo vive com obesidade, e o número total já ultrapassa 188 milhões de jovens, segundo relatórios internacionais recentes. Esse foi uma das razões que me motivou a escrever o texto no dia das crianças. É uma situação preocupante, um problema de saúde pública, na minha opinião, ainda não tratado com seriedade pelos nosso governantes, pais, familiares, professores. Ou seja, talvez a sociedade ainda não percebeu o cenário futuro.
Mas por que tanta negligência com nossos pequenos? Entre pais e responsáveis, muitas vezes ainda existe a ideia de que “a criança vai esticar e emagrecer com o crescimento”. No entanto, a ciência mostra exatamente o contrário: a obesidade na infância tende a persistir na vida adulta e está associada a diversas doenças crônicas precoces. Estudos de coorte e revisões sistemáticas publicados na última década demonstram que o excesso de peso em idades precoces aumenta significativamente o risco de diabetes tipo 2, hipertensão, dislipidemia e doença cardiovascular ainda na juventude. É isso que tenho visto desde 2015 quando assumi o ambulatório.
O crescimento do problema também é visível nos dados populacionais globais. A prevalência de obesidade entre crianças e adolescentes foi estimada em aproximadamente 8,5% em uma análise que reuniu mais de 44 milhões de indivíduos em 152 países, evidenciando a magnitude do problema em escala mundial.
Além disso, o sobrepeso, estágio anterior à obesidade está crescendo ainda mais rápido. Dados do UNICEF mostram que o número de crianças e adolescentes com sobrepeso no mundo passou de 194 milhões em 2000 para cerca de 391 milhões em 2022, praticamente dobrando em pouco mais de duas décadas.
No Brasil, o cenário também é preocupante. Diversas revisões sistemáticas indicam que aproximadamente 12% das crianças brasileiras já apresentam obesidade, com números ainda maiores quando se inclui o sobrepeso.
Quando analisamos dados mais recentes de vigilância nutricional, a situação se torna ainda mais clara: mais de 30% das crianças e adolescentes brasileiros apresentam excesso de peso, o que significa que quase um em cada três jovens já vive com um problema metabólico importante.
Diante desses números, surge uma pergunta inevitável: por que tantas crianças/adolescentes estão ganhando peso?
A resposta envolve múltiplos fatores. Mudanças no ambiente alimentar, maior disponibilidade de alimentos ultraprocessados, marketing direcionado às crianças, aumento do tempo de tela e redução da atividade física formam um conjunto de condições que favorecem o ganho de peso desde cedo.
Relatórios internacionais também apontam que a presença de alimentos ultraprocessados no cotidiano das crianças tem papel central nessa epidemia. Produtos ricos em açúcar, gorduras e aditivos industriais tornaram-se cada vez mais baratos e disponíveis, enquanto alimentos frescos muitas vezes são menos acessíveis.
Outro fator importante é o estilo de vida moderno. Nas últimas décadas, o tempo dedicado a atividades físicas espontâneas, brincar ao ar livre, caminhar ou praticar esportes,diminuiu significativamente, enquanto o tempo em frente a telas aumentou de forma expressiva. Essa combinação cria um ambiente que favorece o balanço energético positivo e o acúmulo de gordura corporal.
A obesidade infantil, no entanto, não é apenas um problema estético ou de peso corporal. Trata-se de uma condição metabólica complexa, que pode desencadear diversas alterações fisiológicas precoces. Crianças com obesidade têm maior risco de desenvolver resistência à insulina, inflamação crônica de baixo grau e alterações hormonais que dificultam ainda mais o controle do peso.
Diversos estudos também demonstram que o impacto da obesidade não é apenas físico. Crianças e adolescentes com excesso de peso frequentemente enfrentam estigmatização social, bullying e dificuldades emocionais, o que pode contribuir para ansiedade, baixa autoestima e isolamento social.
Outro aspecto preocupante é que a obesidade infantil pode antecipar doenças que antes eram consideradas exclusivas da vida adulta. Atualmente já se observa, em adolescentes, aumento de casos de diabetes tipo 2, hipertensão arterial e esteatose hepática associada ao excesso de peso.
O impacto a longo prazo também é significativo. Pesquisas mostram que crianças com obesidade têm grande probabilidade de se tornarem adultos com obesidade, perpetuando o risco de doenças cardiovasculares, câncer e outras condições crônicas ao longo da vida.
Para os pais, muitas vezes o desafio é identificar o problema precocemente. Diferentemente do adulto, a avaliação nutricional da criança precisa considerar curvas de crescimento, idade e estágio de desenvolvimento, o que torna essencial o acompanhamento por profissionais de saúde capacitados.
Ao longo da minha trajetória profissional, tenho acompanhado de perto essa realidade. Desde 2015 atendo crianças e adolescentes com obesidade no ambulatório de Nutrologia do SUS e no consultório particular, o que me proporcionou vasta experiência no manejo clínico desse público e na orientação de famílias que enfrentam essa condição. E a cada ano fico mais preocupado. É uma geração que começa a apresentar doenças de pessoas mais velhas precocemente. Durante a faculdade o meu TCC foi sobre Diabetes e pré-diabetes em crianças e adolescentes. Na época (2006) havia pouca literatura, hoje ja é vasta. Casos de crianças com glicemia acima de 100mg/dL tornou-se rotina, diariamente tanto no SUS quanto no meu consultório.
Esse contato direto com pacientes e familiares permite perceber que a obesidade infantil raramente é resultado de um único fator. Na maioria das vezes, ela surge da interação entre alimentação inadequada, sedentarismo, ambiente familiar, fatores emocionais e predisposição genética. Sempre friso que os pais tem parcela de "culpa" nesse processo e possuem grande importância no tratamento, afinal: quem compra os alimentos? A criança trabalha? Não. Quem dá o exemplo? Quem monitora os hábitos de vida das crianças e adolescentes? Ou seja, muitas pais ficam chateados, por eu chamá-los para a realidade. O paciente precisa de auxílio.
A boa notícia é que a obesidade infantil pode ser tratada e, principalmente, prevenida. Intervenções precoces envolvendo educação alimentar, reorganização da rotina familiar, estímulo à atividade física e acompanhamento médico podem promover mudanças importantes no crescimento e na saúde metabólica da criança.
Para os pais, o primeiro passo é compreender que o tratamento não deve focar apenas no peso, mas sim na construção de hábitos saudáveis sustentáveis. Pequenas mudanças na rotina alimentar e no estilo de vida podem produzir impactos significativos ao longo do desenvolvimento da criança.
Também é fundamental evitar abordagens punitivas ou estigmatizantes. A criança precisa se sentir acolhida e apoiada no processo de mudança, e não culpada pelo peso corporal. O envolvimento da família é um dos fatores mais importantes para o sucesso do tratamento. Por isso sempre peço, que possível, os pais ou responsáveis estejam sempre participativos durante a consulta, sejam colaborativos, parem de recriminar a criança e entendam que estamos diante de uma patologia
Diante do crescimento global da obesidade infantil, especialistas defendem que a abordagem precisa envolver não apenas famílias e profissionais de saúde, mas também políticas públicas, escolas e sociedade. A promoção de ambientes alimentares mais saudáveis e o estímulo à atividade física são estratégias fundamentais para reverter essa tendência.
Quando pais buscam orientação precoce e adequada, é possível modificar trajetórias de saúde e evitar que a obesidade acompanhe a criança por toda a vida. O cuidado nutricional na infância não é apenas uma intervenção médica é um investimento no futuro da saúde física, metabólica e emocional da próxima geração.


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