Micro-ondas destrói os nutrientes? O que a ciência nos diz

 



Logo no início da consulta, essa pergunta aparece com frequência: “Doutor, micro-ondas destrói os nutrientes?” Se essa dúvida também já passou pela sua cabeça, você não está sozinho. Muitos pacientes que atendo em Goiânia chegam preocupados com o impacto do micro-ondas na saúde. 

Como médico nutrólogo minha abordagem é sempre baseada em evidências, sem modismos e sem alarmismo. E a resposta pode surpreender você. Caso queira conhecer mais sobre a minha prática clínica, clique aqui.

O micro-ondas realmente faz mal aos alimentos?


A ideia de que o micro-ondas “estraga” a comida é um dos mitos nutricionais mais persistentes e isso tem persistido por décadas. Lembro que na minha infância (nasci em 1983) na década de 90 quando compramos nosso primeiro micro-ondas esse era um medo da minha mãe. Meu pai, como reumatologista e um homem da ciência preferiu acreditar na ciência. 




E hoje quando analisamos a ciência, percebemos que o aquecimento por micro-ondas é apenas uma forma diferente de gerar calor. Ele utiliza radiação não ionizante, que aquece as moléculas de água do alimento, sem alterar o DNA da comida ou criar toxinas misteriosas. O que acontece com os nutrientes é basicamente o mesmo que ocorreria no fogão ou no forno: efeito do calor, não da radiação em si.

Dúvida número 1: O micro-ondas destrói vitaminas?


Sim, o calor pode reduzir algumas vitaminas, especialmente a vitamina C e parte do complexo B. No entanto, isso ocorre em qualquer método de cocção. Estudos sugerem que o micro-ondas, por ser mais rápido e utilizar menos água, pode preservar melhor certas vitaminas hidrossolúveis quando comparado à fervura prolongada. Ou seja, o problema não é o micro-ondas, mas o excesso de tempo e água no preparo dos alimentos. E há estudos mostrando que no micro-ondas se perde até menos vitamina C. Supresos?






Dúvida número 2: Fervura ou micro-ondas: qual perde mais nutrientes?


Quando fervemos vegetais em muita água, parte das vitaminas e minerais pode se dissolver e ser descartada junto com o líquido, processo conhecido como lixiviação. No micro-ondas, como normalmente usamos pouca água e menos tempo de exposição ao calor, essa perda tende a ser menor. Portanto, para preservar nutrientes, métodos mais rápidos e com menor volume de água costumam ser estratégias mais interessantes.











Dúvida número 3: E os minerais, eles são destruídos? E os antioxidantes?


Minerais como ferro, magnésio e cálcio não são destruídos pelo calor. O que pode acontecer é a migração desses minerais para a água do cozimento. Se essa água é descartada, parte deles vai embora junto. No micro-ondas, essa perda costuma ser menor justamente pela ausência de grande volume de líquido. Esse detalhe simples pode impactar a qualidade nutricional final da refeição.

No que tange aos antioxidantes, há estudos mostrand perda de polifenóis em até 70% pela fervura e aumento de quase 60% dos polifenóis na abóbora quando colocava no micro-ondas. Mostrando uma manutenção da capacidade antioxidante no micro-ondas e vapor, o que corrobora com as evidências científicas.





Dúvida número 4: Micro-ondas altera proteínas ou carboidratos?


Outro mito comum é que o micro-ondas muda as proteínas de forma prejudicial. Na prática, toda forma de cozimento desnatura proteínas, e isso é esperado e até desejável, pois facilita a digestão. Estudos sugerem que não há diferença relevante no valor proteico entre forno, fogão ou micro-ondas. O mesmo vale para os carboidratos: não há prejuízo nutricional exclusivo desse método de aquecimento.

Dúvida número 5: Micro-ondas causa câncer?


Essa é uma dúvida recorrente nos consultórios. O micro-ondas doméstico não emite radiação ionizante, como raios X. Ele funciona em uma faixa segura de energia que apenas aquece moléculas de água. Quando utilizado corretamente e seguindo as recomendações do fabricante, não há evidência de risco carcinogênico associado ao preparo dos alimentos. O foco deve estar na qualidade do que se come, não no medo do aparelho.




Alimentos congelados são menos nutritivos?


Se a gente fala de micro-ondas, logo nos vem à mente comida congelada? E será que ela faz mal? Será que é menos nutritiva? Nem sempre. 

Tive que preparar um guia de congelamento para colocar no Portal do paciente  Então postei aqui no blog 2 textos sobre o tema: 

Muitos vegetais congelados são processados logo após a colheita, o que ajuda a preservar boa parte dos nutrientes. O que define a qualidade não é o fato de ser congelado, mas a composição do produto. Uma refeição congelada equilibrada pode ser melhor do que um ultraprocessado consumido por falta de tempo. Então trago para vocês as regras gerais para congelar alimentos: 
  1. Lave e seque bem os alimentos antes de congelar.
  2. Corte em pedaços (se necessário) para facilitar o uso posterior.
  3. Use embalagens herméticas (sacos de freezerpotes vedados) para evitar queimaduras pelo frio.
  4. Anote a data no pacote para controle.
Verduras e legumes (crus): Muitos vegetais precisam de branqueamento (mergulhar em água fervente por 1-3 min, depois resfriar em água gelada) antes de congelar para preservar cor, textura e nutrientes.


Frutas: Podem ser congeladas cruas, mas algumas perdem textura ao descongelar (melhor para smoothies, sucos ou receitas).
Ervas-frescas: Para evitar oxidação, congele em azeite, água ou forminhas de gelo.

As principais técnicas para congelado de ervas são:
  • Congelar inteiras: Modo de fazer: Lave, seque bem e guarde em sacos herméticos (retire o ar). Esse método é ideal para as ervas resistentes como alecrimtomilhosálvia.
  • Picadas em azeite: Modo de fazer: Pique as ervas, coloque em forminhas de gelo e cubra com azeite. Congele. Ideal para: Manjericãooréganosalsinha (para cozinhar).
  • Cubos de água: Modo de fazer: Bata as ervas com água, despeje em forminhas de gelo e congele. Ideal para Salsinha, coentrocebolinha (para sopas).
  • Pasta de alho/ervas: Modo de fazer: Misture ervas picadas com alho e azeite, congele em porções. Ideal para temperos prontos para refogar.
Principais ervas que podem ser congeladas: 
  • Manjericão: Congelar as folhas em azeite (cubos) ou purê. Durará por até 4–6 meses. Desvantagem: Escurece facilmente; adicione limão.
  • Salsinha: Congelar picada em água ou azeite. Durará por até 6–8 meses. Dica: Congele em porções pequenas.
  • Coentro: Congelar picado em cubos de água. Durará por até 6 meses. Dica: Evite congelar talos grossos.
  • Cebolinha: Congelar cortada em rodelas. Durará por até 8–10 meses. 
  • Hortelã: Congelar as folhas inteiras ou picadas. Durará por até 6 meses. Ótima para chás e drinks.
  • Alecrim: Congelar os falhos inteiros. Durará por até 12 meses. 
  • Tomilho: Congelar os galhos inteiros ou folhas soltas. Durará por até 12 meses: Dica, ainda congelado com o galho, esfregue para liberar as folhinhas. 
  • Sálvia: Congelar as folhas inteiras (secas). Durará por até 12 meses. Dica: pode ser congelada sem azeite.
  • Orégano: Congelar as folhas em azeite ou secas. Durará por até 6–8 meses. Dica: a versão em azeite é ideal para pizzas.
Algumas especiarias também podem ser congeladas para preservar o aroma:
  • Gengibre: Ralado ou em pedaços (sem casca). Durará por até 6 meses. Descongele apenas a parte necessária.
  • Alho: Dentes inteiros ou picado em azeite. Durará por até 6 meses. Cuidado por que pode ficar com textura mole.
  • Pimentas frescas: Inteiras ou cortadas (sem sementes). Durará por até 8 meses
O que não congela bem: Pepino, alface, rabanete (ficam moles e aquosos). Tomate inteiro (pode ser congelado como polpa para molhos) e Batata crua (escurece; prefira congelar cozida ou em purê).

Cozinhar sempre piora os alimentos?


Não necessariamente. Alguns nutrientes, como certos carotenoides presentes na cenoura e no tomate, podem se tornar mais biodisponíveis após leve aquecimento. O calor pode facilitar a absorção desses compostos pelo organismo. Isso mostra que a nutrição não é preto no branco e que tudo depende do alimento, do método utilizado e do contexto alimentar global.

Então qual é o melhor método de preparo?


Depende do objetivo. Para preservar vitamina C, métodos rápidos costumam ser mais interessantes. Para reduzir possíveis contaminantes em alguns vegetais, a fervura pode ajudar, embora com perdas vitamínicas. Para o dia a dia, micro-ondas e vapor são opções práticas e eficientes. O mais importante é compreender que não existe método perfeito, e sim estratégias adequadas para cada situação.





Qual é o erro mais comum na cozinha?


O maior erro não é usar micro-ondas, mas cozinhar demais, utilizar água em excesso e descartar tudo. Outro erro frequente é aquecer por tempo desnecessário. Quanto maior o tempo sob calor, maior a chance de perdas nutricionais. Pequenos ajustes na rotina culinária já podem melhorar significativamente a qualidade nutricional das refeições.

E a segurança alimentar?


Independentemente do método, o alimento deve atingir temperatura adequada para evitar risco microbiológico. A recomendação geral é que esteja bem aquecido por completo. No micro-ondas, mexer o alimento durante o processo ajuda a distribuir melhor o calor, evitando partes frias e melhorando a segurança alimentar.

O que realmente importa na sua saúde?


Mais importante do que o método de aquecimento é o padrão alimentar como um todo. Quantidade de vegetais, qualidade das proteínas, equilíbrio de carboidratos e gorduras são fatores determinantes. O micro-ondas não transforma uma dieta ruim em boa, nem o contrário. Ele é apenas uma ferramenta dentro do contexto alimentar.

O medo do micro-ondas é baseado em ciência ou em internet?


Grande parte das preocupações vem de informações antigas ou mal interpretadas. A ciência evoluiu, e hoje sabemos que o impacto nutricional do micro-ondas é comparável e, em alguns casos, até favorável em relação a métodos tradicionais. Como nutrólogo e acadêmico de nutrição em Goiânia, sempre reforço que decisões sobre saúde devem ser baseadas em evidências e não em correntes de internet.

Vale a pena abandonar o micro-ondas?


Para a maioria das pessoas, não há motivo. Se ele facilita o consumo de vegetais, proteínas e refeições caseiras, pode ser um aliado importante. Praticidade aumenta adesão a hábitos saudáveis, e adesão consistente costuma ser mais relevante do que buscar perfeição teórica.

Conclusão: micro-ondas é vilão ou aliado?


O micro-ondas não é inimigo da sua saúde. Quando usado corretamente, pode preservar nutrientes, manter minerais e facilitar uma rotina alimentar equilibrada. Como nutrólogo, minha proposta é sempre individualizar, entender sua rotina, suas necessidades e construir estratégias viáveis e sustentáveis. Caso queira conhecer mais sobre a minha prática clínica, clique aqui.

Referências bibliográficas


BROWN, Eric F. et al. Comparing nutritional levels in a commercially-available single-serve meal using microwave versus conventional oven heating. Journal of Microwave Power and Electromagnetic Energy, [S.l.], 2020. DOI: https://doi.org/10.1080/08327823.2020.1755483

RAZZAK, Abdur et al. Effect of cooking methods on the nutritional quality of selected vegetables at Sylhet City. Heliyon, v. 9, 2023, e21709. DOI: https://doi.org/10.1016/j.heliyon.2023.e21709. 







Autor: Dr. Frederico Lobo - Médico Nutrólogo - CRM-GO 13192 - RQE 11915 - Gostou do texto e quer conhecer mais sobre minha pratica clínica, clique aqui. 

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Sou o Dr. Frederico Lobo, médico nutrólogo titulado pela ABRAN, e desde 2010 produzo conteúdo sobre nutrologia, alimentação, metabolismo, prevenção de doenças e medicina do estilo de vida. Acompanhe meus materiais nas outras plataformas:

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