Carne vermelha reduz a testosterona e proteína de origem vegetal aumenta?

 


Resumo: "Um estudo finlandês publicado em 2026 identificou diferenças nas concentrações de testosterona entre homens com maior consumo de proteínas animais e vegetais. Entretanto, os resultados não demonstram que a carne vermelha reduza a testosterona nem que proteínas vegetais aumentem sua produção. Entenda o papel da SHBG, da obesidade e da saúde metabólica nessa relação."

A alimentação pode influenciar os níveis de testosterona?

A testosterona é um hormônio fundamental para a saúde masculina, participando da manutenção da massa muscular, da densidade óssea (osso), da libido, da produção de espermatozoides (fertilidade) e de diferentes processos metabólicos. 

Sua concentração no organismo sofre influência da idade, da composição corporal, do sono, de doenças crônicas e de diversos hábitos de vida. Entre esses fatores, a alimentação tem despertado crescente interesse científico. 

E um estudo recem publicado agora em Outubro de 2026 trouxe resultados curiosos ao identificar que homens com maior consumo de proteínas animais apresentavam concentrações menores de testosterona total, enquanto aqueles que consumiam mais proteínas vegetais apresentavam níveis mais elevados. 

Obviamwnte que os achados ganharam grande repercussão principalmente nos portais de grandes veículos, mas exige uma interpretação cuidadosa: será que comer carne realmente reduz a testosterona ou existem outros mecanismos envolvidos?

O que revelou o estudo finlandês publicado em 2026

Pesquisadores da Universidade da Finlândia Oriental analisaram informações de 2.546 homens com idades entre 42 e 60 anos, participantes de um estudo epidemiológico sobre fatores de risco cardiovascular. 

A alimentação foi avaliada por registros alimentares de quatro dias, coletados entre 1984 e 1989, enquanto exames sanguíneos permitiram analisar a testosterona total e a SHBG, proteína responsável pelo transporte de hormônios sexuais. 

Os participantes foram divididos em grupos conforme a quantidade e a origem das proteínas consumidas. Os resultados indicaram que indivíduos com maior ingestão de proteínas animais apresentavam, em média, testosterona total 1,2 nmol/L menor do que aqueles com menor consumo.

Em contrapartida, os homens com maior ingestão de proteínas vegetais apresentavam concentrações aproximadamente 1,1 nmol/L superiores. Os resultados foram publicados no International Journal of Food Sciences and Nutrition.

Então será que comer carne vermelha realmente diminui a testosterona?

Embora algumas manchetes sugiram que a carne vermelha seja responsável pela redução da testosterona, essa conclusão não corresponde exatamente aos resultados da pesquisa. Quando os pesquisadores analisaram separadamente as diferentes fontes de proteínas animais, observaram que o consumo de proteínas provenientes da carne não apresentava associação estatisticamente significativa com a testosterona total. 

A associação negativa foi mais evidente para as proteínas provenientes dos laticínios, que também estavam relacionadas a menores concentrações de SHBG. Isso não significa que leite e derivados necessariamente reduzam a produção hormonal, mas evidencia que diferentes alimentos podem apresentar associações distintas. Portanto, afirmar que a carne vermelha reduz a testosterona seria uma interpretação precipitada. A pesquisa não demonstrou que retirar carne da alimentação provoque aumento desse hormônio.

E a ciência também tem demonstrado ao longo das décadas, que maior consumo de carne vermelha ou proteína de origem animal, não leva a aumento dos níveis de testosterona, como propagam os falaciosos seguidores da dieta carnívora. 

Sempre devemos lembrar que quando se fala em estudos devemos:

1) Analisar o tipo de estudo: foi epidemiológico? Foi ensaio clínico? Qual a metodologia utilizada?

2) Quais os vieses envolvidos?

Por que as proteínas vegetais apareceram associadas a níveis maiores de testosterona?

O estudo identificou uma associação positiva entre a ingestão de proteínas vegetais e as concentrações de testosterona total, especialmente quando essas proteínas eram provenientes de fontes vegetais diferentes dos cereais. 

Mas ainda não sabemos se esse resultado decorre diretamente das proteínas ou de outras características da alimentação. O grande viés é que os pacientes que consomem mais leguminosas, verduras, sementes e oleaginosas podem apresentar maior ingestão de fibras, gorduras insaturadas e compostos bioativos.

Esses componentes fazem parte de padrões alimentares frequentemente associados a melhores indicadores metabólicos. Também é possível que existam diferenças nos hábitos de vida e nas condições de saúde desses indivíduos. Assim, a associação observada não significa que feijão, lentilha ou soja funcionem como estimulantes naturais da produção de testosterona. A hipótese é interessante, mas ainda precisa ser confirmada por estudos de intervenção.

Lembro que quando eu era vegetariano durante a faculdade e após formar, existia um mito de que soja levada a redução dos níveis de testosterona. O que a cência após 20 anos nunca confirmou. Vegetarianos/vegaos/adventistas do sétimo dia/hinduístas não possuem menores níveis de testosterona que a população onívora. Infelizmente esse tipo de falácia ainda é propagada e muitas vezes perco tempo da consulta desmistificando esse tipo de crença.

O papel da SHBG: por que a testosterona total pode enganar?

Um dos aspectos mais importantes para compreender esses resultados é a SHBG, sigla para sex hormone-binding globulin, ou globulina ligadora de hormônios sexuais. Produzida principalmente pelo fígado, ela é uma proteína que transporta testosterona e outros hormônios pelo sangue.

Quando a concentração de SHBG aumenta, a testosterona total também pode aumentar, mesmo sem alteração significativa na produção hormonal pelos testículos. O contrário também acontece: uma redução da SHBG pode diminuir a testosterona total sem provocar redução proporcional da testosterona livre. 

No estudo finlandês, o maior consumo de proteínas vegetais esteve associado a concentrações mais elevadas de SHBG, enquanto as proteínas animais apresentaram associação inversa. Isso sugere que parte das diferenças hormonais pode estar relacionada ao transporte da testosterona, e não necessariamente à sua produção.

Obesidade, resistência à insulina e saúde metabólica também influenciam a testosterona e a SHBG

A relação entre alimentação e testosterona não pode ser compreendida sem considerar o estado metabólico. Homens com obesidade, especialmente aqueles com maior quantidade de gordura visceral, frequentemente apresentam concentrações reduzidas de testosterona total. Maior risco de hipertensão arterial, de pré-diabetes e diabetes mellitus tipo 2 (o que por si só pode favorecer queda da testosterona), apnéia do sono, alterações do sono. 

A resistência à insulina e alterações metabólicas associadas também podem influenciar a produção hepática de SHBG. Em situações mais avançadas, a obesidade pode comprometer o funcionamento do eixo hipotálamo-hipófise-testicular, contribuindo para o desenvolvimento de hipogonadismo funcional. 

Dessa forma, um indivíduo com excesso de gordura corporal pode apresentar alterações hormonais independentemente de consumir predominantemente proteínas animais ou vegetais. Por outro lado, a redução do excesso de adiposidade frequentemente está associada à melhora das concentrações de testosterona. Isso reforça a importância de avaliar o contexto metabólico antes de atribuir alterações hormonais a um alimento específico.

A soja e seus fitoestrógenos podem reduzir a testosterona masculina?

Como já relatei acima, durante três décadas, a soja foi injustamente associada à redução da masculinidade e à diminuição da testosterona por conter isoflavonas, substâncias vegetais classificadas como fitoestrógenos. Entretanto, fitoestrógenos não possuem necessariamente os mesmos efeitos biológicos do estradiol produzido pelo organismo humano. 

Uma metanálise publicada em 2021 reuniu 41 estudos clínicos que avaliaram o consumo de soja, proteínas de soja ou isoflavonas e seus possíveis efeitos sobre os hormônios masculinos. Os pesquisadores não identificaram alterações significativas nas concentrações de testosterona total, testosterona livre, estradiol ou outros hormônios analisados.

Esses resultados contrariam a ideia de que o consumo habitual de soja provoque feminilização ou deficiência de testosterona nos homens. Ao mesmo tempo, não demonstram que consumir soja seja uma estratégia eficaz para elevar esse hormônio.

Dietas hiperproteicas podem prejudicar a produção de testosterona?

Outra questão importante envolve a quantidade total de proteínas consumidas, independentemente de sua origem. Algumas pesquisas identificaram reduções de testosterona em homens submetidos a dietas extremamente ricas em proteínas e com restrição importante de carboidratos. 

Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2022 observou redução da testosterona em determinados protocolos nos quais as proteínas representavam pelo menos 35% da ingestão energética (calorias). Entretanto, esses resultados não podem ser generalizados para todas as dietas hiperproteicas, pois os estudos apresentavam diferenças importantes de duração, composição alimentar e características dos participantes. 

Além disso, a redução hormonal foi particularmente discutida em contextos de ingestão proteica muito elevada, acima de aproximadamente 3,4 g/kg/dia. Não existem evidências consistentes de que ingestões proteicas habituais, utilizadas na prática clínica e esportiva, necessariamente provoquem deficiência de testosterona.

Mas o déficit energético pode cursar com menores niveis de testosterona ou pelo menos reduzir a libido. É isso que percebo na minha prática clínica. 

Devemos substituir proteínas animais por vegetais para aumentar a testosterona?

Com as evidências disponíveis, não seria correto recomendar a exclusão da carne vermelha, dos ovos ou dos laticínios com o objetivo específico de aumentar a testosterona. Também não seria adequado afirmar que uma dieta vegetariana, por si só, melhora a função hormonal masculina. 

O mais importante é compreender que alimentos não atuam isoladamente e que o metabolismo hormonal depende de múltiplos fatores. Uma alimentação equilibrada pode combinar proteínas animais e vegetais, respeitando preferências individuais, necessidades nutricionais e condições clínicas. 

Aumentar o consumo de feijões, lentilhas, grão-de-bico, ervilhas e outras fontes vegetais pode trazer benefícios nutricionais importantes, independentemente de seus possíveis efeitos hormonais. A recomendação deve considerar também a ingestão energética, a qualidade das gorduras, as fibras e a adequação de micronutrientes essenciais à saúde.

O que realmente importa para manter níveis saudáveis de testosterona?

A principal mensagem das pesquisas recentes é que a saúde hormonal masculina depende de muito mais do que a escolha entre carne e proteínas vegetais. A recomendação à luz das evidencias atuais são:

  1. Manter uma composição corporal adequada, 
  2. Praticar exercícios físicos regularmente, 
  3. Dormir bem entre 7 a 8h de sono, 
  4. Evitar consumo excessivo de álcool,
  5. Bons níveis de vitamina D
  6. Controle do estresse
  7. Tratar doenças metabólicas são medidas relevantes para a saúde geral e para o funcionamento hormonal. 
Homens com sintomas sugestivos de deficiência de testosterona devem procurar avaliação médica, pois o diagnóstico exige correlação entre manifestações clínicas e exames laboratoriais realizados em condições apropriadas. Todo déficit de testosterona precisa ser investigado. Estou cansado de ver no consultório pacientes sendo tratados exclusivamente por conta de uma única dosagem de testosterona, sem investigação da causa do déficit. Quem melhor faz isso é o endocrinologista. Nutrólogo sabe? Pode ser que saiba, mas na minha opinião não somos os profissionais mais habilitados para isso.

 O estudo finlandês amplia nosso conhecimento sobre possíveis relações entre alimentação e hormônios, mas não estabelece que proteínas animais sejam prejudiciais ou que proteínas vegetais sejam capazes de elevar diretamente a testosterona. Na medicina a melhor decisão continua sendo aquela baseada no conjunto das evidências científicas, e não em conclusões isoladas ou manchetes sensacionalistas.


Perguntas frequentes sobre carne, proteínas vegetais e testosterona

1. Comer carne vermelha diminui a testosterona?

Não existem evidências científicas suficientes para afirmar isso. O estudo finlandês de 2026 encontrou associação entre maior consumo de proteínas animais e menor testosterona total, mas não identificou associação significativa para a proteína da carne analisada separadamente.

2. Consumir proteína vegetal aumenta a testosterona?

Alguns estudos observacionais identificaram essa associação, mas ainda não foi demonstrado que aumentar a ingestão de proteínas vegetais provoque elevação da testosterona.

3. A carne bovina pode fazer parte de uma alimentação saudável?

Sim. A carne bovina pode fornecer proteínas de alto valor biológico, ferro, zinco e vitamina B12. Seu consumo deve ser avaliado considerando quantidade, frequência, cortes utilizados e padrão alimentar global.

4. Homens vegetarianos possuem mais testosterona?

Não necessariamente. As pesquisas disponíveis não permitem afirmar que homens vegetarianos apresentem concentrações consistentemente superiores de testosterona em comparação com homens onívoros.

5. A soja reduz a testosterona masculina?

Não. Metanálises de estudos clínicos não encontraram efeitos significativos do consumo habitual de soja ou isoflavonas sobre as concentrações de testosterona masculina.

6. Comer feijão todos os dias pode aumentar a testosterona?

O feijão contribui para uma alimentação nutricionalmente equilibrada, fornecendo proteínas vegetais, fibras e minerais. Entretanto, não existem evidências de que seu consumo isolado aumente diretamente a testosterona.

7. O excesso de proteínas pode prejudicar os hormônios?

Dietas extremamente ricas em proteínas, especialmente quando combinadas com restrição acentuada de carboidratos, apresentaram alterações hormonais em alguns estudos. Isso não significa que uma alimentação com quantidade adequada de proteínas provoque o mesmo efeito.

8. Qual é a diferença entre testosterona total e testosterona livre?

A testosterona total inclui as frações ligadas às proteínas transportadoras e a fração livre. A testosterona livre representa a pequena parcela que circula sem ligação às proteínas. A interpretação clínica depende do contexto e, em alguns casos, da concentração de SHBG.

9. A obesidade pode diminuir a testosterona?

Sim. A obesidade, especialmente quando acompanhada de resistência à insulina e excesso de gordura visceral, está associada a menores concentrações de testosterona e pode contribuir para o hipogonadismo funcional masculino.

10. Qual é a melhor alimentação para manter a testosterona saudável?

Não existe uma dieta específica comprovadamente capaz de elevar a testosterona em todos os homens. Recomenda-se uma alimentação equilibrada, com proteínas adequadas, vegetais, frutas, leguminosas, gorduras de boa qualidade e ingestão energética compatível com as necessidades individuais.


Referências bibliográficas 

WYNNE-ELLIS, Miika M. et al. Associations of dietary proteins with serum total testosterone and sex hormone-binding globulin concentrations in middle-aged men. International Journal of Food Sciences and Nutrition, v. 77, n. 6, p. 576-588, 2026. DOI: 10.1080/09637486.2026.2731397. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42714417/. 

REED, Katharine E. et al. Neither soy nor isoflavone intake affects male reproductive hormones: an expanded and updated meta-analysis of clinical studies. Reproductive Toxicology, v. 100, p. 60-67, 2021. DOI: 10.1016/j.reprotox.2020.12.019. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33383165/.





Autor: Dr. Frederico Lobo - Médico Nutrólogo - CRM-GO 13192 - RQE 11915 - Gostou do texto e quer conhecer mais sobre minha pratica clínica, clique aqui. 

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