Nutrição na Esclerose Múltipla: como vitaminas, minerais e polifenóis podem modular a doença
A esclerose múltipla (EM) afeta aproximadamente 2,9 milhões de pessoas no mundo e se caracteriza como uma doença autoimune, inflamatória e neurodegenerativa do sistema nervoso central. Sua fisiopatologia envolve inflamação crônica, desmielinização, gliose e perda neuronal progressiva, podendo levar à incapacidade funcional significativa ao longo do tempo.
Entre os sintomas mais frequentes estão fadiga, déficits cognitivos, alterações visuais e fraqueza muscular, sendo mais prevalente em mulheres entre 20 e 50 anos.
Embora a causa da EM ainda não seja completamente compreendida, há forte evidência da interação entre fatores genéticos e ambientais.
Nesse contexto, a nutrição e a microbiota intestinal emergem como elementos-chave na modulação da resposta imunológica. A alimentação influencia diretamente a composição da microbiota, que por sua vez pode favorecer um perfil pró-inflamatório ou anti-inflamatório, impactando a evolução da doença.
Tipos de esclerose múltipla
A EM apresenta diferentes formas clínicas, com características distintas:
A forma remitente-recorrente (EMRR) representa cerca de 85% dos casos e é marcada por surtos seguidos de períodos de remissão. Já a forma primária progressiva (EMPP) apresenta progressão contínua desde o início, sem fases de melhora. Por fim, a forma secundária progressiva (EMSP) surge geralmente após a EMRR, com piora gradual e menor recuperação entre os surtos.
O papel da nutrição na esclerose múltipla
A nutrição tem se consolidado como uma estratégia complementar relevante no manejo da EM. Nutrientes específicos podem atuar na regulação do sistema imune, na redução do estresse oxidativo e na proteção neuronal, três pilares centrais na fisiopatologia da doença.
Vitaminas e esclerose múltipla
As vitaminas exercem papel fundamental na modulação inflamatória e na neuroproteção.
A vitamina A (retinol) participa da regulação imunológica ao favorecer células T reguladoras e reduzir respostas inflamatórias mediadas por Th17. Estudos associam níveis adequados de retinol à menor atividade da doença e melhora de sintomas como fadiga e depressão.
As vitaminas do complexo B são essenciais para o metabolismo energético e a função neurológica. A tiamina pode reduzir fadiga, a piridoxina está relacionada à gravidade da doença, e a biotina em altas doses tem demonstrado benefícios na progressão da incapacidade. Já folato e vitamina B12 contribuem para melhora da qualidade de vida.
A vitamina C atua como potente antioxidante, ajudando a neutralizar radicais livres e reduzir danos celulares, especialmente em fases mais ativas da doença.
A vitamina D é o micronutriente com maior robustez científica na EM. Sua deficiência está associada ao aumento do risco, pior desempenho cognitivo e maior atividade inflamatória. A suplementação tem demonstrado reduzir a progressão em fases iniciais da doença.
A vitamina E contribui para reduzir a peroxidação lipídica e preservar estruturas celulares, embora não haja evidência clara de prevenção da EM.
A vitamina K, especialmente a K2, apresenta níveis reduzidos em pacientes, sugerindo um possível papel ainda em investigação.
Polifenóis e modulação inflamatória
Os polifenóis são compostos bioativos com forte ação antioxidante e anti-inflamatória.
A curcumina destaca-se por reduzir marcadores inflamatórios como IL-6 e TNF-alfa, além de aumentar células reguladoras do sistema imune.
O resveratrol exerce efeito antioxidante direto, reduzindo estresse oxidativo e inflamação sistêmica.
A epigalocatequina-galato (EGCG), presente no chá verde, demonstra benefícios adicionais como melhora do metabolismo, redução da inflamação e impacto positivo em sintomas como ansiedade e fadiga.
A luteolina também apresenta potencial ao inibir células inflamatórias e reduzir a atividade da doença.
Minerais, sal e impacto na doença
O equilíbrio mineral é essencial na EM.
O consumo excessivo de sódio pode aumentar a atividade inflamatória e a taxa de recaídas.
O zinco apresenta níveis reduzidos em pacientes, mas seu excesso pode ser neurotóxico, exigindo cautela.
O ferro tem comportamento dual: sua deficiência está associada a sintomas depressivos, enquanto seu acúmulo cerebral está ligado à progressão da doença.
O selênio, frequentemente baixo em pacientes, pode melhorar o estresse oxidativo e a função cognitiva quando suplementado adequadamente.
Limitações das evidências científicas
Apesar dos avanços, a ciência ainda apresenta limitações importantes. Há grande heterogeneidade nos estudos, falta de padronização de doses e carência de ensaios clínicos robustos. Além disso, ainda não está completamente estabelecida a relação causal entre dieta, microbiota e desfechos clínicos na EM.
Conclusão
A nutrição desempenha um papel promissor como estratégia complementar no manejo da esclerose múltipla. Vitaminas como A e D, além de compostos bioativos como a curcumina, demonstram efeitos relevantes na modulação imunológica e proteção neuronal.
No entanto, a abordagem mais eficaz parece ser multifatorial, baseada na combinação de nutrientes e não em intervenções isoladas. O futuro aponta para estratégias nutricionais personalizadas, integradas ao tratamento convencional, com foco na melhora da qualidade de vida e no controle da progressão da doença.
Artigo original:
ROSSO, Rachele; VIRGILIO, Eleonora; BRONZINI, Matteo; ROLLA, Simona; MAGLIONE, Alessandro; CLERICO, Marinella. The hidden players in multiple sclerosis nutrition: a narrative review on the influence of vitamins, polyphenols, salt, and essential metals on disease and gut microbiota. Nutrients, Basel, v. 18, n. 1, p. 148, 2026. DOI: https://doi.org/10.3390/nu18010148
Extraído de:
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