A próxima onda no tratamento da obesidade: os novos medicamentos que estão transformando o emagrecimento

 

A revolução causada por medicamentos como o Ozempic não foi um tremor, foi um terremoto que abalou os alicerces do tratamento da obesidade. Originalmente desenvolvidos para o diabetes, esses agonistas incretínicos inauguraram uma nova era, transformando a vida de milhões de pessoas. No entanto, o que pode parecer o auge de uma revolução farmacológica é, na verdade, apenas o começo. Estamos à beira de uma segunda onda de inovação, impulsionada por uma engenharia molecular cada vez mais sofisticada, que promete entregar resultados ainda mais impressionantes.

Este artigo explora a vanguarda da farmacologia antiobesidade, mergulhando nas moléculas que estão atualmente em fases avançadas de estudo. Desde a conveniência de pílulas diárias até a potência de agonistas hormonais triplos, analisaremos as novas frentes que estão redesenhando o futuro do tratamento metabólico.

A fronteira oral: A conveniência encontra a potência

Um dos maiores desafios no tratamento de condições crônicas é a adesão do paciente. A necessidade de injeções semanais, embora eficaz, pode ser uma barreira para muitos. Por isso, o desenvolvimento de medicamentos orais potentes representa um avanço estratégico monumental, com o potencial de ampliar drasticamente o acesso e a continuidade do tratamento. A ciência está respondendo a esse chamado com novas e promissoras opções.

Orfoglipron: Um novo agonista de GLP-1 porém via oral

Surge no horizonte o Orfoglipron, um novo agonista do receptor GLP-1 de administração exclusivamente oral. Estudos recentes demonstraram uma redução de peso corporal diretamente associada à dose administrada (com variações de 12, 24, 36 e 45 mg), indicando uma eficácia robusta. Crucialmente, observou-se que os efeitos colaterais foram muito semelhantes aos das versões injetáveis já conhecidas, posicionando o Orfoglipron como uma alternativa viável e eficaz para pacientes que preferem a via oral.

A Evolução da Semaglutida: Doses orais maiores

A já conhecida semaglutida oral também está evoluindo. Uma nova apresentação com uma dose mais alta, de 25 mg, foi avaliada no estudo Oasis 4, um ensaio clínico de Fase 3B com publicação prevista para 2025 no New England Journal of Medicine. Os resultados foram claros: esta dose mais elevada demonstrou uma redução de peso corporal "muito interessante" e "significativa", sinalizando que em breve teremos uma opção oral ainda mais potente deste medicamento no arsenal terapêutico.

Enquanto a via oral avança a passos largos, a inovação nos injetáveis não ficou para trás, atingindo novos patamares de eficácia através de moléculas fundamentalmente mais complexas.

Injetáveis de última geração: Amplificando o efeito

A evolução dos medicamentos injetáveis vai muito além do simples aumento de dosagem. Os cientistas estão agora criando moléculas inteiramente novas, projetadas para atuar em múltiplos alvos hormonais simultaneamente, amplificando os resultados de maneiras antes inimagináveis.

Semaglutida 7.2 mg: Potência Ampliada

A próxima etapa na evolução da semaglutida injetável é a dose de 7.2 mg. Estudos comparativos mostram que a mudança no peso corporal com esta nova dosagem é "muito significativa" quando comparada à dose máxima atual de 2.4 mg. A boa notícia é que esse ganho de eficácia não veio acompanhado de um aumento nos efeitos adversos, que se mantiveram em um perfil semelhante ao da dose inferior.

Retatrutida: A Chegada do Agonista Triplo

A Retatrutida representa um marco na farmacologia metabólica. Trata-se de um agonista triplo, uma molécula única que ativa simultaneamente três receptores hormonais distintos: GLP-1, GIP e Glucagon. Essa abordagem de "nova geração" se mostrou superior aos medicamentos de ação mono e dual. Os dados são impressionantes, demonstrando uma perda de 7,2% a 14% do peso corporal, superando os agonistas duplos (como a tirzepatida), que alcançam perdas de 6% a 11%. A Retatrutida demonstrou não apenas eficácia e segurança, mas uma capacidade de redução de peso que redefine o padrão de tratamento.

Essa estratégia de mirar em múltiplos alvos abre caminho para outras combinações sinérgicas, explorando novos caminhos hormonais para combater a obesidade.

Novas sinergias: Combinando GLP-1 com outros hormônios

A ciência está explorando sinergias que vão além da bem-sucedida combinação GLP-1/GIP. A nova fronteira envolve a combinação do GLP-1 com outros hormônios cruciais no controle do metabolismo e da saciedade para criar efeitos complementares e potencializados. As pesquisas atuais se concentram em três filosofias distintas:

  • GLP-1 + GIP: O modelo estabelecido que otimiza o controle glicêmico e a redução do apetite.
  • GLP-1 + Glucagon: Uma nova abordagem que adiciona um "motor metabólico" à fórmula, visando aumentar o gasto energético.
  • GLP-1 + Amilina: Uma estratégia diferente que se concentra em amplificar ao máximo os sinais de saciedade do cérebro.

Survodutida e Mazdutida: O poder do glucagon

A Survodutida e a Mazdutida são dois novos medicamentos que se enquadram na categoria de agonistas duplos de GLP-1 e Glucagon. A grande vantagem dessa combinação é a adição de um novo mecanismo de ação. Enquanto o GLP-1 atua primariamente na redução do apetite, a ativação do receptor de Glucagon aumenta o gasto energético, a oxidação de gorduras e a lipólise. Em outras palavras, esses medicamentos não apenas reduzem a ingestão de calorias, mas também ajudam o corpo a queimar mais energia.

CagriSema: A saciedade da amilina

O CagriSema é uma terapia que associa a Cagrilintida (um análogo da Amilina) com a Semaglutida. A Amilina é um hormônio sacietógeno secretado pelas células beta do pâncreas, cuja principal função é induzir a sensação de saciedade. Ao combinar a potência do GLP-1 com o forte efeito da amilina, o CagriSema demonstrou ser altamente eficaz na redução do peso corporal.

Amycretina: O híbrido oral e injetável

A Amycretina é uma molécula inovadora que funciona como um agonista duplo, ativando os receptores de Amilina e GLP-1 em uma única estrutura — uma combinação única que mira tanto a via da saciedade quanto a das incretinas. Sua característica mais notável é a disponibilidade em duas vias de administração: oral e subcutânea. Um estudo recente publicado na The Lancet mostrou que a via oral promoveu uma impressionante redução de peso de 13% em comparação com apenas 1,2% no grupo placebo, enquanto a via subcutânea apresentou resultados ainda mais expressivos.

A "mágica" que permite a criação dessas moléculas complexas e duradouras reside em uma área de ponta da ciência: a engenharia molecular.

O segredo da engenharia molecular: Como a ciência transforma minutos em semanas

A eficácia desses novos medicamentos não se deve apenas aos alvos que eles atingem, mas também a uma engenhosa inovação que estende sua presença e ação no corpo humano. Em seu estado natural, um hormônio como o GLP-1 tem uma vida útil extremamente curta, sendo degradado em apenas 2 a 3 minutos. A ciência superou essa barreira com técnicas de DNA recombinante.

O segredo foi adicionar uma cadeia de ácido graxo (por exemplo, uma com 18 átomos de carbono) à molécula do hormônio. Essa modificação protege o hormônio da degradação, gerando um salto quântico na sua durabilidade. O progresso foi exponencial:

  • Hormônio Natural: Ação de 2 a 3 minutos.
  • Primeira Geração (ex: Liraglutida): Ação estendida para 13 horas.
  • Nova Geração (ex: Semaglutida): Ação estendida para 160 a 165 horas.

Essa transformação é o que permite que um medicamento que, de outra forma, exigiria infusão contínua possa ser administrado em uma conveniente aplicação semanal, mantendo um efeito estável e duradouro.

Conclusão: Redesenhando o futuro do metabolismo

A próxima geração de tratamentos para a obesidade está se delineando com clareza, marcada por três tendências principais: a ascensão de opções orais cada vez mais potentes, o poder avassalador dos medicamentos multi-agonistas que atuam em diversas frentes metabólicas, e a sofisticação da engenharia molecular que torna tudo isso possível.

A essência desta nova era foi capturada com precisão por um dos pesquisadores na vanguarda do campo: "Com esses novos agentes farmacológicos, não estamos apenas tratando a obesidade; estamos redesenhando o destino metabólico dos pacientes através da engenharia molecular."

Esta revolução está apenas começando. Os benefícios dessas moléculas inovadoras provavelmente se estenderão muito além da perda de peso, com potencial para impactar o tratamento de outras doenças crônico-degenerativas e até mesmo neurodegenerativas. O futuro da medicina metabólica está sendo escrito agora, e ele promete ser mais eficaz e transformador do que nunca.



Autor: Dr. Frederico Lobo - Médico Nutrólogo - CRM-GO 13192 - RQE 11915 - Gostou do texto e quer conhecer mais sobre minha pratica clínica, clique aqui. 

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