Principais pontos
* Especialistas afirmam que o termo síndrome dos ovários policísticos (SOP) não reflete adequadamente a condição e, há muito tempo, gera confusão entre as pacientes.
* Um processo de consenso global envolvendo pacientes e clínicos chegou ao que consideram um termo mais preciso: síndrome ovariana metabólica poliendócrina (PMOS).
* A mudança do nome será implementada gradualmente ao longo dos próximos 3 anos.
A síndrome dos ovários policísticos (SOP) agora tem um novo nome que, segundo especialistas, reflete com mais precisão a condição: síndrome ovariana metabólica poliendócrina (PMOS).
A mudança ocorre após um extenso processo global de consenso envolvendo pacientes com a condição e profissionais de saúde de diferentes especialidades ao redor do mundo, relatado por Helena Teede, MD, PhD, do Centro de Pesquisa e Implementação em Saúde da Monash University, em Melbourne, Austrália, e colaboradores.
Ao evitar referências potencialmente equivocadas aos “cistos ovarianos” e refletir com mais precisão as características diversas e multissistêmicas da condição, o objetivo é que o novo nome aumente a conscientização, favoreça o diagnóstico e melhore a qualidade do cuidado e a satisfação das pacientes, afirmaram os autores em uma iniciativa de política em saúde publicada na The Lancet.
“Essa mudança foi conduzida com e para as pessoas afetadas pela condição, e temos orgulho de ter chegado a um novo nome que finalmente reflete com precisão a complexidade da doença”, afirmou Helena Teede em um comunicado à imprensa.
O que historicamente era conhecido como síndrome dos ovários policísticos (SOP) afeta uma em cada oito mulheres — cerca de 170 milhões de mulheres em todo o mundo. Apesar de sua alta prevalência, o próprio nome SOP há muito tempo é reconhecido como impreciso e tem gerado confusão entre as pacientes por décadas. Tentativas anteriores de mudar a nomenclatura haviam fracassado.
“As amplas características clínicas da condição não são contempladas em seu nome atual, pois, embora a interrupção do desenvolvimento folicular seja comum, não há aumento de cistos ovarianos patológicos”, escreveram Teede e sua equipe, observando que o nome potencialmente enganoso pode contribuir para atraso no diagnóstico, com até 70% dos casos permanecendo sem diagnóstico.
Embora seja tradicionalmente considerada uma condição ginecológica ou ovariana, a doença é mais complexa, envolvendo fatores endócrinos, metabólicos, reprodutivos, psicológicos e dermatológicos.
De acordo com diretrizes internacionais, adultos com 20 anos ou mais recebem o diagnóstico de SOP quando apresentam dois dos seguintes critérios, após exclusão de outras doenças:
* oligoanovulação;
* hiperandrogenismo clínico ou bioquímico;
* ovários policísticos ao ultrassom ou elevação do hormônio anti-Mülleriano (AMH).
Já os adolescentes devem preencher os dois primeiros critérios para o diagnóstico.
Rachel Weinerman, endocrinologista reprodutiva da Case Western Reserve University e da University Hospitals, em Cleveland, afirmou ao MedPage Today que a mudança do nome da SOP está atrasada há muito tempo e que o novo termo representa adequadamente que a PMOS é “uma condição metabólica que afeta múltiplos aspectos da saúde da mulher, incluindo sua função reprodutiva.”
Ela destacou que o termo “policístico” gerava confusão desnecessária para pacientes que poderiam interpretar que a presença de um cisto — algo comum na prática ginecológica — significaria automaticamente ter SOP. Embora leve tempo para que pacientes e médicos se adaptem à nova terminologia, Weinerman acredita que a nomenclatura PMOS trará benefícios às pacientes e reduzirá a confusão relacionada a cistos sem relevância para a síndrome.
Anuja Dokras, médica e pesquisadora especializada em saúde da mulher que dirige um centro multidisciplinar para SOP na Filadélfia, afirmou ao MedPage Today que a expectativa é que o termo PMOS aumente a conscientização sobre a condição entre médicos de diferentes especialidades e “permita diagnóstico precoce e um aconselhamento mais abrangente sobre os riscos associados a essa síndrome.”
O processo global de consenso foi liderado pelo Centro de Excelência em Pesquisa em Saúde da Mulher ao Longo da Vida Reprodutiva da Monash University, pela Androgen Excess and PCOS Society e pela Verity, sediada no Reino Unido, envolvendo ao final 56 organizações acadêmicas, clínicas e de pacientes de referência.
A equipe realizou pesquisas globais iterativas com respostas de 10.411 pacientes e 3.949 profissionais de saúde ao redor do mundo, além de workshops para refinamento do nome e análises de comunicação e estratégias de divulgação.
As prioridades para a nova nomenclatura incluíram precisão científica, clareza, redução de estigmas, adequação cultural em diferentes contextos e viabilidade de implementação. O novo nome precisava refletir a fisiopatologia multissistêmica da condição, ser compreensível globalmente e evitar siglas já amplamente utilizadas para outras doenças.
O nome preliminar mais bem classificado foi “síndrome ovulatória metabólica poliendócrina” (polyendocrine metabolic ovulatory syndrome), posteriormente revisado para o termo finalmente selecionado: “síndrome ovariana metabólica poliendócrina” (polyendocrine metabolic ovarian syndrome – PMOS).
Agora, está em andamento uma estratégia de implementação em oito etapas, desenvolvida de forma colaborativa, para introdução do novo nome. O plano inclui publicação e disseminação acadêmica, integração aos sistemas de saúde ao longo de um período de transição de 3 anos e posterior incorporação às diretrizes internacionais — atualmente utilizadas por 195 países — na próxima atualização prevista para 2028.
Teede e colaboradores também destacaram algumas limitações, incluindo a representação desproporcional de regiões de maior renda e a possibilidade de viés de seleção.

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