Muito antes de existir consulta médica, suplementação ou orientação alimentar, já existia alguém ensinando silenciosamente como nos relacionamos com a comida. Na maioria das vezes, essa pessoa foi a mãe, as vezes os "pães = pais solos". Via de regra é ela quem organiza refeições, cria rotinas, transmite hábitos, escolhe alimentos e, sem perceber, ajuda a moldar a relação emocional que os filhos terão com o comer ao longo da vida.
Grande parte das nossas memórias afetivas também nascem na cozinha, com o cheiro do café cedo, o almoço de domingo, a sopa nos dias frios, bolos em datas especiais. A alimentação nunca foi ou é apenas combustível biológico, comida também é memória, acolhimento, afeto, vínculo, pertencimento, cultura.
A ciência moderna confirma algo que muitas famílias sempre souberam intuitivamente: a saúde nutricional da sociedade começa dentro de casa. E muitas vezes essa casa é o útero. Leiam depois sobre os Primeiros 1000 dias. https://www.ecologiamedica.net/2017/04/os-primeiros-1000-dias-de-vida-por-dr.html
Do ponto de vista médico, a mãe frequentemente exerce o papel da primeira educadora alimentar da vida. É por meio dela que muitas crianças aprendem horários de refeição, preferências alimentares, percepção de fome e saciedade e até comportamentos emocionais relacionados à comida. Crianças observam muito mais do que escutam. Elas repetem padrões. Por isso, a maneira como uma família se alimenta costuma refletir diretamente o ambiente alimentar construído dentro de casa. E isso pode reverberar por toda a vida.
Mas a influência materna começa ainda antes do nascimento. Hoje, a Nutrologia trabalha com um conceito extremamente importante chamado programação metabólica fetal e os primeiros 1000 dias. O estado nutricional da mãe durante a pré-concepção, gestação e a amamentação pode influenciar o risco futuro de obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, alterações metabólicas e até a composição da microbiota intestinal da criança.Em outras palavras: parte da saúde metabólica do adulto começa ainda na primeira casinham, o útero materno.
A alimentação materna participa da construção biológica do futuro dos filhos. Isso transforma o cuidado com a saúde da mulher em algo muito maior do que uma questão individual. Trata-se também de cuidado geracional.
Esse impacto continua durante a amamentação. O leite materno é considerado padrão-ouro nutricional porque sua composição se adapta às necessidades do bebê, além de oferecer fatores imunológicos importantes e contribuir para o desenvolvimento intestinal, metabólico e neurológico da criança. Nesse período, o acompanhamento nutricional adequado da mãe também se torna fundamental para prevenir carências nutricionais e preservar sua própria saúde física e emocional, criando vínculos, moldando as emoções.
Ao mesmo tempo, existe outro aspecto importante que muitas vezes passa despercebido: a relação emocional com a comida também é aprendida dentro de casa. Muitos padrões alimentares disfuncionais surgem ainda na infância, seja pela carência de alimentos, pelo uso da comida como recompensa, pelas restrições exageradas voluntárias ou pela associação entre alimentação e ansiedade.
Isso não significa culpabilizar mães e sim o reconhecimento do quanto o ambiente alimentar familiar influencia comportamentos que podem acompanhar uma pessoa por toda a vida. E curiosamente, existe um paradoxo muito comum que percebo na prática clínica, enquanto cuidam da alimentação e da saúde de todos ao redor, muitas mães negligenciam a própria saúde.
É frequente encontrar aqui no consultório, mulheres com privação de sono, exaustão mental, alimentação irregular, sedentarismo, deficiência de ferro, vitamina D e vitamina B12, além de dificuldades relacionadas ao peso, compulsão alimentar e inflamação crônica associada ao estresse. Muitas passam anos colocando filhos, trabalho e família em primeiro lugar, enquanto o próprio cuidado fica sempre para depois.
Talvez por isso o Dia das Mães também precise carregar uma mensagem importante: quem cuida de todos também precisa ser cuidada.
A Nutrologia/Nutrição não falam apenas sobre emagrecimento. Discutimos prevenção de doenças, envelhecimento saudável, preservação de massa muscular, saúde intestinal, longevidade e qualidade de vida. Já a endocrinologia e ginecologia analisam principalmente a saúde hormonal.
Infelizmente, muitas mulheres chegam à terceira idade com distúrbios nutricionais e metabólicos, justamente em uma fase marcada por alterações hormonais (menopausa e pós-menopausa), resistência insulínica, perda de massa magra com perda de força (sarcopenia), fadiga, amior risco cardiovascular, aumento inflamatório silencioso.
Sendo assim, cuidar da alimentação e da saúde metabólica feminina não é apenas estética, mas principalmente uma forma de prevenir doenças, aumentar a funcionalidade e a qualidade de vida.
No fim, talvez exista uma verdade simples por trás de tudo isso: o cuidado materno também passa pela alimentação. E quando a saúde da mãe melhora, toda a família tende a melhorar junto.
Por isso, neste Dia das Mães, talvez uma das homenagens mais importantes seja lembrar que a mulher que alimenta, acolhe, organiza e cuida também merece cuidado, atenção e saúde. Porque investir na saúde da mãe é investir na saúde da família inteira.
Autor: Dr. Frederico Lobo - Médico Nutrólogo - CRM-GO 13192 - RQE 11915 - Gostou do texto e quer conhecer mais sobre minha pratica clínica, clique aqui.


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