O que são varizes?
Clinicamente, isso pode repecutir como dor, sensação de peso nas pernas, inchaço (edema) e alterações estéticas, como os chamados “vasinhos” ou até veias mais calibrosas e tortuosas, ou até mesmo úlceras venosas. Trata-se de uma condição comum e multifatorial.
Profissões que exigem longos períodos em pé ou sentado também contribuem para o problema. Embora muitas vezes seja vista apenas como questão estética, as varizes podem gerar desconforto significativo. Em casos avançados, podem evoluir para complicações como dermatite ocre e úlceras venosas.
Diante desse cenário, surge uma pergunta comum: a Nutrologia/Nutrição podem ajudar na prevenção ou no alívio dos sintomas das varizes? A resposta é sim, dentro de uma abordagem complementar e baseada em evidências.
Estudos observacionais sugerem que determinados padrões alimentares estão associados a menor risco de desenvolvimento de doença venosa crônica. Compostos bioativos presentes em alimentos naturais podem exercer ação venotônica e vasoprotetora.
Entre esses compostos destacam-se flavonoides como diosmina, hesperidina e rutosídeos. Extratos vegetais como castanha-da-índia, semente de uva e folha de videira vermelha também são citados nas diretrizes da cirurgia vascular. Esses compostos demonstram potencial para melhorar o tônus venoso e reduzir a permeabilidade capilar.
Os chamados agentes venoativos atuam por diferentes mecanismos fisiológicos. Podendo ajudar a diminuir mediadores inflamatórios (diminuem a inflamação), modular a adesão leucocitária e melhorar a função do endotélio vascular (parede dos vasos). Alguns também influenciam a drenagem linfática, contribuindo para a redução do edema.
Evidências de qualidade moderada indicam que esses
compostos podem diminuir a circunferência do tornozelo e a sensação de peso nas
pernas. É importante reforçar que os resultados variam conforme dose,
formulação e perfil do paciente.
As diretrizes conjuntas da Society for Vascular Surgery, American Venous Forum e American Vein and Lymphatic Society, publicadas em 2023, sugerem o uso de alguns agentes venoativos em pacientes sintomáticos:
- Hidroxietilrutosídeos,
- Dobesilato de cálcio,
- Extrato de castanha-da-índia,
- Extrato de folha de videira vermelha.
Essas substâncias podem auxiliar no controle de dor, sensação de peso, câimbras noturnas e edema. O nível de evidência é considerado moderado para redução do inchaço. Ainda assim, o uso deve ser individualizado e orientado pelo médico.
Além de extratos padronizados, a alimentação cotidiana pode fornecer compostos com propriedades semelhantes. E aqui entra o papel do nutrólogo e do nutricionista.
Os flavonoides são substâncias naturais encontradas em frutas, vegetais e flores. Eles desempenham papel relevante na saúde do sistema circulatório e na proteção contra estresse oxidativo. Dietas ricas em alimentos vegetais coloridos tendem a oferecer maior variedade desses compostos. A diversidade alimentar é um ponto-chave na estratégia nutricional preventiva
Alguns estudos associaram o consumo regular de
produtos de soja à redução do risco de doença venosa crônica. Ingestão diária
ou de quatro a seis vezes por semana foi relacionada a menor prevalência da
condição em análises observacionais. O consumo moderado de ovos, de uma a três
vezes por semana, também demonstrou associação protetora em determinados
contextos. Esses dados não estabelecem causalidade, mas sugerem possíveis
efeitos benéficos. O padrão alimentar global continua sendo mais relevante do
que um alimento isolado.
Por outro lado, o consumo frequente de alimentos fritos, especialmente quatro a seis dias por semana, foi associado a maior risco de doença venosa crônica. Frituras costumam ser ricas em gorduras oxidáveis e compostos pró-inflamatórios. O excesso desses alimentos pode impactar negativamente a função endotelial. Portanto, a moderação no consumo de ultraprocessados é recomendada. Estratégias alimentares equilibradas são mais eficazes do que intervenções pontuais.
Quais são os alimentos com possível ação venotônica?
Não existem alimentos venotônicos propriamente
dito. O que existe são alimentos ricos em compostos bioativos capazes de
fortalecer as paredes das veias e melhorar o tônus venoso. Eles auxiliam na
redução da fragilidade capilar e na modulação inflamatória. Também podem
contribuir para melhor circulação sanguínea e redução de inchaço. Seu efeito
ocorre principalmente por meio da proteção vascular. A manutenção da
elasticidade dos vasos é um dos principais objetivos.
Esses alimentos não substituem medicamentos ou
procedimentos quando indicados. No entanto, podem integrar uma abordagem
preventiva ou complementar. A atuação ocorre sobretudo na microcirculação e na
função endotelial. Compostos antioxidantes presentes nesses alimentos ajudam a
neutralizar radicais livres. O equilíbrio oxidativo é essencial para a saúde
vascular de longo prazo.
Entre os compostos venotônicos mais estudados estão hesperidina e diosmina. Ambos pertencem à classe dos flavonoides e são encontrados principalmente em frutas cítricas. Essas substâncias também são utilizadas em formulações farmacológicas padronizadas. Seu interesse científico decorre de efeitos anti-inflamatórios, antioxidantes e vasoprotetores. A literatura médica descreve múltiplos mecanismos de ação.
Hesperidina: mecanismo e evidências
A hesperidina é um flavonoide glicosídeo presente principalmente nas cascas e na parte branca interna das frutas cítricas. Após metabolização, forma hesperetina, sua aglicona ativa. Estudos demonstram que pode estimular a produção de óxido nítrico nas células endoteliais. O aumento do óxido nítrico está relacionado à melhora da função vascular. Esse mecanismo contribui para melhor regulação do tônus venoso.
Além disso, a hesperidina reduz a expressão de moléculas de adesão vascular e a adesão de monócitos ao endotélio. Esses efeitos indicam ação anti-inflamatória direta. Suas propriedades antioxidantes protegem as células contra danos oxidativos. O estresse oxidativo é considerado fator relevante na progressão da doença venosa crônica. Assim, a modulação desses processos pode ter impacto clínico.
Em ensaio clínico randomizado com pacientes portadores de síndrome metabólica, a suplementação de hesperidina por três semanas melhorou significativamente a dilatação mediada por fluxo. Também houve redução de marcadores inflamatórios circulantes. Embora o estudo não tenha sido específico para varizes, os achados reforçam o potencial vascular do composto. Ensaios maiores ainda são necessários para conclusões definitivas.
Na prática clínica, a hesperidina é frequentemente combinada com diosmina na chamada fração flavonoide purificada micronizada (MPFF). Essa formulação contém diosmina e hesperidina. Estudos indicam melhora de sintomas como dor, sensação de peso e edema. Observou-se redução da circunferência de tornozelo e panturrilha em pacientes com insuficiência venosa crônica. A resposta pode variar entre indivíduos.
Diosmina: mecanismos e aplicação clínica
A diosmina é outro flavonoide amplamente estudado na doença venosa crônica. Pode ser isolada de fontes vegetais ou obtida a partir da conversão da hesperidina. Atua melhorando o tônus venoso, reduzindo a permeabilidade capilar e favorecendo a drenagem linfática. Esses efeitos contribuem para a redução do edema. Sua ação envolve modulação inflamatória e melhora da microcirculação.
No nível molecular, a diosmina reduz citocinas pró-inflamatórias como TNF-α, IL-6 e IL-1β. Também pode aumentar níveis plasmáticos de angiostatina, modulando processos angiogênicos. Estudos sugerem influência positiva na oxigenação tecidual. A inibição de enzimas como elastase e colagenase pode proteger a matriz extracelular vascular. Esses mecanismos sustentam sua utilização clínica.
Ensaios clínicos duplo-cegos demonstram que o uso diário da diosmina ajuda na melhora de sintomas. Após oito semanas, observou-se redução significativa do edema e melhora da dor. Meta-análises indicam redução consistente do volume da perna e melhora da qualidade de vida. Em pacientes com úlceras venosas, a associação com terapia compressiva aumentou a taxa de cicatrização. A orientação médica é essencial para indicação adequada.
Fontes alimentares naturais de flavonoides
As frutas cítricas são as principais fontes alimentares de hesperidina e diosmina. Laranjas, limões, tangerinas, toranjas e limas concentram maiores quantidades na casca e no albedo. O consumo da fruta in natura contribui para ingestão de flavonoides e fibras. A acerola, embora não rica em diosmina, fornece alta quantidade de vitamina C. A vitamina C é essencial para a síntese de colágeno e integridade vascular.
Frutas vermelhas e roxas, como mirtilo, amora, framboesa e uva roxa, são ricas em antocianinas. Esses flavonoides possuem potente ação antioxidante. Contribuem para redução da fragilidade capilar e melhora da resistência vascular. A uva roxa também contém resveratrol, associado à modulação endotelial. O consumo regular dessas frutas pode ser uma estratégia para prevenção. Então deve ser estimulada por nutrólogos, nutricionistas e vasculares.
Vegetais verde-escuros, como espinafre e couve, fornecem nitratos naturais. No organismo, esses nitratos podem ser convertidos em óxido nítrico. O óxido nítrico favorece vasodilatação e melhora do fluxo sanguíneo. A beterraba é outra fonte relevante de nitratos dietéticos. Esses alimentos também fornecem magnésio, mineral importante para a saúde vascular.
O trigo sarraceno destaca-se como uma das melhores fontes naturais de rutina. A rutina é flavonoide associado à redução da permeabilidade capilar. Pode auxiliar na prevenção de edemas e na proteção dos vasos sanguíneos. Seu consumo pode ocorrer por meio de farinhas e grãos integrais.
A diversidade alimentar amplia o espectro de compostos bioativos ingeridos. Castanhas e nozes fornecem ácidos graxos insaturados e vitamina E. Esses nutrientes contribuem para manutenção da elasticidade vascular. Também apresentam propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. O consumo deve ser moderado devido ao valor calórico. Ainda assim, podem integrar padrão alimentar cardiometabólico saudável.
O chocolate amargo com alto teor de cacau contém flavonoides com ação antioxidante. Estudos sugerem melhora da função endotelial com consumo moderado. A escolha deve priorizar versões com 70% ou mais de cacau. O consumo excessivo não é recomendado devido ao teor calórico. Moderação continua sendo princípio fundamental.
Fibras e saúde venosa
Dietas ricas em fibras ajudam na prevenção da constipação intestinal. O esforço evacuatório excessivo pode aumentar a pressão abdominal. Esse aumento pressórico contribui para hipertensão venosa nos membros inferiores. Portanto, ingestão adequada de fibras pode ter impacto indireto na prevenção de varizes. Frutas, legumes, verduras e grãos integrais são boas fontes.
A hidratação adequada também é essencial para o funcionamento intestinal. A combinação de fibras e líquidos favorece trânsito intestinal regular. A saúde digestiva influencia diversos sistemas do organismo. Embora a relação não seja exclusiva, hábitos intestinais adequados reduzem fatores agravantes. Estratégias simples podem trazer benefícios cumulativos.
Outras medidas preventivas importantes
O controle do peso corporal é fundamental na prevenção e manejo das varizes. A obesidade aumenta a pressão sobre as veias dos membros inferiores. A redução do peso pode ajudar a melhorar a circulação e diminuir sintomas.
A prática regular de atividade física favorece o retorno venoso. Exercícios como caminhada são particularmente recomendados. Exercícios para fortalecimento da panturrilha também.
Evitar o tabagismo é outra medida relevante. O cigarro compromete a saúde cardiovascular e prejudica a função endotelial. A interrupção do tabagismo reduz risco de múltiplas doenças crônicas. A saúde vascular é diretamente impactada por esse hábito. Estratégias de cessação devem ser incentivadas.
O monitoramento de níveis de ferro pode ser indicado em situações específicas. Alguns estudos sugerem associação entre excesso de ferro circulante e alterações vasculares. O equilíbrio nutricional deve ser orientado por exames laboratoriais. A suplementação sem indicação médica não é recomendada.
Reduzir o consumo de ultraprocessados também faz parte da estratégia preventiva. Esses alimentos costumam conter excesso de sódio e gorduras de baixa qualidade. O consumo frequente pode prejudicar a saúde cardiovascular. Priorizar alimentos naturais e minimamente processados é recomendação amplamente respaldada. A qualidade global da dieta é determinante.
Considerações finais
A alimentação exerce papel relevante na saúde vascular e pode atuar como ferramenta complementar na prevenção e no alívio dos sintomas das varizes. Compostos como diosmina, hesperidina, rutina e antocianinas apresentam mecanismos biologicamente plausíveis e respaldo científico moderado. No entanto, não substituem avaliação médica individualizada. O tratamento deve ser personalizado conforme estágio da doença.
Mulheres apresentam maior predisposição às varizes, mas homens também devem adotar medidas preventivas. A combinação de alimentação equilibrada, atividade física e acompanhamento profissional é a abordagem mais segura. Estratégias isoladas tendem a ter efeito limitado. A integração entre Nutrição e Medicina Vascular pode trazer benefícios adicionais.
Uma dieta rica em frutas, vegetais, grãos integrais, oleaginosas e alimentos minimamente processados contribui para a saúde circulatória. A moderação no consumo de frituras e ultraprocessados é igualmente importante. Pequenas mudanças sustentáveis ao longo do tempo produzem maior impacto. A educação nutricional baseada em evidências deve nortear as escolhas.
O acompanhamento periódico com médico é essencial para diagnóstico e definição de condutas adequadas. A automedicação não é recomendada. Cada paciente possui características clínicas próprias que precisam ser consideradas. A abordagem ética e individualizada é sempre a mais indicada.
Em síntese, fontes alimentares de compostos
venotônicos representam estratégia complementar promissora. Quando inseridas em
contexto de estilo de vida saudável, podem contribuir para melhor qualidade de
vida. A prevenção continua sendo a melhor ferramenta terapêutica. Informação de
qualidade é o primeiro passo para escolhas conscientes.
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