Cansado de estar sempre cansada (o)? Entenda quando a fadiga deixa de ser comum e como a Nutrologia pode ajudar
Você já sentiu que, por mais que durma, a sensação de exaustão nunca desaparece completamente? No mundo moderno, o cansaço persistente tornou-se uma queixa quase universal, muitas vezes aceita como uma consequência inevitável de uma rotina agitada, mas que, na minha prática clínica, vejo frequentemente ser tratada de forma equivocada com suplementações aleatórias.
É fundamental questionar quando esse esgotamento deixa de ser uma resposta natural ao esforço e passa a sinalizar algo mais profundo no organismo. A fadiga não é apenas um incômodo passageiro; ela funciona como um alerta biológico complexo que pode mascarar desde deficiências nutricionais silenciosas até quadros clínicos severos que exigem rigorosa investigação.
Compreender a raiz dessa falta de energia é o primeiro passo para resgatar a vitalidade e evitar que um sintoma isolado evolua para um estado de debilidade crônica, protegendo o paciente de diagnósticos simplistas ou promessas sem base científica.
Fadiga ou Síndrome da Fadiga Crônica? Saiba a diferença
No consultório nutrológico, é muito frequente que pacientes cheguem com a autossuspeita de Síndrome da Fadiga Crônica (SFC), também conhecida como Doença de Intolerância ao Esforço Sistêmico (DIES), mas a maioria confunde o sintoma com a síndrome.
A SFC é uma condição complexa que afeta entre 836 mil e 2,5 milhões de americanos, sendo que a vasta maioria permanece sem diagnóstico, gerando um impacto econômico bilionário anualmente devido à perda de produtividade.
Originalmente denominada encefalomielite miálgica, a condição hoje é entendida como um quadro de exaustão extrema que não melhora com o repouso e que surge mais comumente em adultos jovens, por volta dos 33 anos, com predominância no público feminino.
O médico deve atuar como um detetive para diferenciar o cansaço cotidiano, muitas vezes ligado ao estilo de vida, dessa patologia que impõe limitações severas e persistentes à rotina do indivíduo.
"Toda Síndrome da fadiga crônica (DIES) tem fadiga no seu quadro clínico, mas nem todo paciente com fadiga se encaixa na Síndrome da fadiga crônica."
A diferenciação entre esses estados é fundamental porque a SFC é, essencialmente, um diagnóstico de exclusão fundamentado em critérios clínicos rigorosos, já que não existem testes laboratoriais diretos para confirmá-la. Isso significa que o médico nutrólogo deve primeiro descartar todas as outras causas possíveis de cansaço, como anemias, doenças autoimunes, distúrbios renais ou malignidades, antes de fechar o diagnóstico da síndrome.
Essa análise criteriosa evita que o paciente receba rótulos precoces para condições que poderiam ser resolvidas com ajustes metabólicos ou correções nutricionais específicas. É vital compreender que, na SFC, os exames laboratoriais e de imagem costumam apresentar resultados normais, o que não invalida a carga de morbidade do paciente, mas reforça a necessidade de uma investigação ética que não se baseie apenas em papéis, mas na história clínica detalhada.
Os Critérios inegociáveis para o diagnóstico da SFC
Para que um quadro seja classificado como Síndrome da Fadiga Crônica pela Academia Nacional de Medicina, o diagnóstico exige que a fadiga persista por, no mínimo, 6 meses, com intensidade moderada ou grave em pelo menos metade do tempo. Além da duração, é obrigatória a presença simultânea de três sintomas fundamentais que definem a gravidade do quadro clínico apresentado:
- Fadiga incapacitante: Redução profunda na capacidade de realizar atividades antes habituais, de início recente, não relacionada ao esforço e que não apresenta melhora com o repouso.
- Mal-estar pós-esforço (PEM): Piora acentuada de todos os sintomas e da função orgânica após exposição a estressores físicos ou cognitivos que anteriormente eram bem tolerados pelo paciente.
- Sono não reparador: Sensação persistente de exaustão extrema mesmo após períodos prolongados de descanso ou uma noite inteira de sono, deixando o indivíduo sem vigor.
Além desses três pilares, o paciente deve apresentar obrigatoriamente pelo menos um sintoma adicional: Comprometimento cognitivo (problemas com memória de curto prazo ou função executiva) ou Intolerância ortostática (agravamento nítido do mal-estar ao manter a postura ereta, com melhora ao deitar).
A ciência já estabeleceu que a SFC é uma doença biológica comprovada e não um distúrbio psicológico, embora sua patogênese exata ainda seja objeto de estudos intensos na medicina moderna. Foram identificadas anormalidades claras na função das células natural killer (NK) e das células T, além da elevação de citocinas inflamatórias e presença de autoanticorpos como o fator reumatoide e anticorpos antitireoidianos.
Estudos de ressonância magnética funcional sugerem até mesmo um acoplamento neurovascular anormal, o que explica a dificuldade de processamento neural e a fadiga cognitiva relatada. Esses achados reforçam que o cansaço do paciente com SFC possui uma base orgânica real, envolvendo disfunção imune e estresse oxidativo, exigindo do nutrólogo um olhar clínico que vá além do óbvio e respeite a complexidade biológica de cada indivíduo.
O Labirinto das causas: Por que você está fadigado?
A investigação nutrológica frequentemente revela que a fadiga é o resultado de um emaranhado de desequilíbrios metabólicos, infecções prévias ou efeitos colaterais de medicamentos. Para um diagnóstico preciso, é necessário organizar as possíveis causas em diversas categorias:
- Nutricionais: Desidratação (<30ml/kg/dia), desnutrição, dietas restritivas mal orientadas (Low Carb/Cetogênica) e deficiências de Ferro, Zinco, Magnésio e vitaminas (C, D, B12 e Ácido Fólico).
- Estilo de Vida: Sedentarismo, excesso de treinamento (overtraining), privação de sono, estresse crônico, tabagismo e obesidade sarcopênica.
- Endócrinas: Hipotireoidismo, Hipertireoidismo, Diabetes Mellitus, Hipogonadismo e a verdadeira insuficiência adrenal (Doença de Addison).
- Psiquiátricas/Neurológicas: TDAH, Burnout, Depressão, Transtorno Bipolar, Esclerose Múltipla e Doença de Parkinson.
- Infecciosas: Pós-Covid, Dengue, Zika, Chikungunya, HIV, Doença de Lyme, Tuberculose e infecções pelo vírus Epstein-Barr.
- Medicinais: Uso de beta-bloqueadores, estatinas, antidepressivos, antipsicóticos, anti-histamínicos, benzodiazepínicos e quimioterápicos.
Dentre esses fatores, a deficiência de ferro (ferropenia) destaca-se como uma das causas mais comuns, surgindo muitas vezes antes da instalação de uma anemia propriamente dita. Da mesma forma, as vitaminas do complexo B, especialmente B1, B2, B3 e B5, são essenciais para o metabolismo energético no ciclo de Krebs, e sua baixa ingestão compromete diretamente a produção de ATP celular.
A obesidade também desempenha um papel central, pois o tecido adiposo inflamado libera citocinas que geram cansaço sistêmico, além de aumentar o risco de apneia obstrutiva do sono, o que fragmenta o descanso noturno. Entender essa rede de causalidade permite ao médico tratar a origem real do problema, em vez de apenas mascarar o sintoma com estimulantes ou suplementos desnecessários que não corrigem a base fisiopatológica.
A Investigação Nutrológica: Muito além da suplementação
O médico nutrólogo deve atuar como o "porteiro da medicina", realizando uma anamnese minuciosa que busca sinais físicos que muitos profissionais ignoram durante uma consulta superficial. Durante o exame físico, buscamos marcadores como os "crescentes carmesins", que são descolorações roxas nos pilares tonsilares da garganta, ou a presença de linfonodos pequenos, móveis e indolores no pescoço e axilas, sinais frequentes na SFC.
Essa investigação detalhada é a única forma de evitar o "gaslighting médico", protegendo o paciente de ter suas queixas minimizadas como se fossem meramente psicológicas. A conduta ética exige que busquemos primeiro as causas orgânicas e funcionais, evitando atalhos perigosos que podem comprometer a segurança metabólica do paciente a longo prazo.
"Infelizmente o que se vê hoje, são profissionais justificando fadiga com 'déficits hormonais' e saem prescrevendo hormônios iatrogenicamente, sem antes investigar o básico."
É fundamental esclarecer que o termo "fadiga adrenal" é um mito sem reconhecimento científico, frequentemente utilizado para justificar a prescrição iatrogênica de corticoides ou outros hormônios. Na medicina baseada em evidências, o que existe é a Doença de Addison (insuficiência adrenal real) ou o estresse crônico que afeta o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, mas nunca uma "falência" do órgão por cansaço.
A investigação honesta prioriza a detecção de deficiências de nutrientes vitais e a revisão de medicamentos, como os beta-bloqueadores, que sabidamente causam letargia. O foco do tratamento nutrológico deve ser o suporte metabólico e a correção da causa base, uma vez que estudos mostram que intervenções como vitaminas intravenosas ou antivirais não possuem eficácia comprovada para a cura da Síndrome da Fadiga Crônica.
Tratamento
O tratamento para recuperar a disposição e superar o esgotamento não é um processo que aceita atalhos ou soluções mágicas baseadas em modismos. O caminho para a vitalidade real exige paciência, uma investigação médica criteriosa e um plano terapêutico focado na causa base, partindo sempre de um diagnóstico de exclusão rigoroso.
O primeiro passo essencial é a realização de uma anamnese com rastreio metabólico para identificar ferropenia, distúrbios da tireoide ou inflamação crônica, antes de considerar qualquer diagnóstico de síndrome complexa.
Se o seu cansaço persiste mesmo após o repouso e limita suas atividades diárias, não aceite explicações simplistas ou prescrições automáticas de hormônios, o que é muito comum alguns médicos fazerem.
A dica que dou é: busque uma avaliação nutrológica ética e detalhada, pois identificar os verdadeiros gatilhos biológicos é a única estratégia segura para restaurar o equilíbrio do seu organismo e devolver a energia que sua saúde merece.

Comentários
Postar um comentário
Propagandas (de qualquer tipo de produto) e mensagens ofensivas não serão aceitas pela moderação do blog.