Você já se perguntou se aquele café da manhã pode fazer mais do que apenas despertar? Um grande estudo publicado no JAMA investigou se o consumo de café e chá ao longo da vida poderia influenciar o risco de demência e o desempenho cognitivo
Em um cenário em que a Doença de Alzheimer cresce de forma alarmante no mundo, qualquer estratégia preventiva desperta atenção. A boa notícia é que pesquisadores acompanharam mais de 130 mil pessoas por até 43 anos para tentar responder a essa pergunta. E os resultados são animadores, especialmente para quem aprecia café com cafeína ou chá diariamente. Mas será que qualquer quantidade vale? Será que o café descafeinado tem o mesmo efeito? Vamos entender, em linguagem clara, o que realmente foi descoberto.
O que os pesquisadores fizeram e por que isso importa?
O estudo acompanhou dois grandes grupos de profissionais de saúde nos Estados Unidos, homens e mulheres, que responderam questionários alimentares a cada dois ou quatro anos. Isso permitiu avaliar o consumo habitual de café com cafeína, café descafeinado e chá ao longo de décadas. Durante o acompanhamento, mais de 11 mil casos de demência foram identificados. Além disso, os pesquisadores avaliaram queixas subjetivas de memória e testes objetivos de função cognitiva. Ou seja, não foi apenas uma “impressão” dos participantes: houve também medição formal do desempenho mental. Essa combinação de longo seguimento, grande número de participantes e avaliação repetida da dieta torna o estudo particularmente robusto.
Café com cafeína: menor risco de demência
Os resultados mostraram que pessoas que consumiam mais café com cafeína apresentaram menor risco de desenvolver demência ao longo do tempo. Comparando quem bebia mais com quem quase não consumia, houve redução significativa do risco. Isso significa que, estatisticamente, os consumidores habituais tinham menos casos da doença. O mais interessante é que esse efeito permaneceu mesmo após ajustes para fatores como idade, atividade física, tabagismo, qualidade da dieta e doenças prévias. Em outras palavras, o café pareceu ter um papel independente. Contudo, não estamos falando de exageros: os maiores benefícios apareceram com consumo moderado.
Chá também mostrou benefícios
O chá apresentou associação semelhante: maior consumo esteve ligado a menor risco de demência. Assim como o café com cafeína, o chá parece exercer um efeito protetor, possivelmente devido à cafeína e a compostos bioativos como polifenóis. Isso amplia a perspectiva para quem prefere chá em vez de café.
Não se trata apenas de um tipo de bebida, mas de um padrão de consumo que inclui substâncias potencialmente neuroprotetoras. O estudo sugere que essas bebidas podem contribuir para um envelhecimento cerebral mais saudável quando consumidas de forma equilibrada.
E o descafeinado?
Aqui está um ponto importante: o café descafeinado não demonstrou o mesmo benefício. Não houve associação significativa com redução do risco de demência nem melhora consistente na função cognitiva. Isso sugere que a cafeína pode desempenhar papel central nos efeitos observados.
Embora o café contenha outros compostos antioxidantes, parece que a ausência de cafeína muda o cenário. Para quem busca possíveis benefícios cognitivos, essa diferença é relevante.
Quanto é a quantidade ideal?
A análise mostrou uma relação em formato de curva: os melhores resultados apareceram com consumo moderado. Aproximadamente 2 a 3 xícaras de café com cafeína por dia ou 1 a 2 xícaras de chá foram associadas ao menor risco de demência. Consumir mais do que isso não trouxe benefícios adicionais claros. Esse achado é fundamental porque reforça a ideia de equilíbrio. Nem abstinência total, nem exagero. O cérebro parece responder melhor a uma dose moderada.
E quanto à memória no dia a dia?
Além do diagnóstico formal de demência, o estudo avaliou queixas subjetivas de memória e testes cognitivos objetivos. Pessoas que consumiam mais café com cafeína e chá relataram menos percepção de declínio cognitivo.
Nos testes objetivos, houve pequenas diferenças positivas no desempenho mental. Embora essas diferenças sejam discretas, em nível populacional podem representar impacto relevante ao longo do envelhecimento. É importante entender que não se trata de “aumentar inteligência”, mas possivelmente de preservar função.
Por que a cafeína poderia auxiliar?
Os autores discutem possíveis mecanismos biológicos.A cafeína pode reduzir inflamação cerebral, melhorar sensibilidade à insulina, favorecer função vascular e influenciar vias relacionadas ao acúmulo de proteínas associadas ao Alzheimer. Além disso, compostos antioxidantes presentes no café e no chá podem contribuir para proteção neuronal.
Contudo, o estudo é observacional: ele mostra associação, não prova causa direta. Ainda assim, os dados são consistentes e biologicamente plausíveis.
Se você já consome café com cafeína ou chá moderadamente, os resultados são tranquilizadores. Não há evidência de que esse hábito, dentro de limites razoáveis, aumente risco de demência — pelo contrário, pode estar associado a menor risco. Porém, não se trata de uma “cura” ou garantia. Outros fatores como atividade física, controle de pressão, sono adequado e alimentação equilibrada continuam sendo fundamentais. O café pode ser parte do estilo de vida saudável, mas não substitui hábitos protetores amplos.
Conclusão: pequenos hábitos, grandes impactos
Em um mundo onde a demência cresce progressivamente, identificar fatores modificáveis é essencial. Este estudo sugere que o consumo moderado de café com cafeína e chá pode estar associado a menor risco de demência e melhor desempenho cognitivo ao longo do tempo. A mensagem final é simples: equilíbrio é a chave. Se você aprecia sua xícara diária, talvez esteja oferecendo ao seu cérebro mais do que apenas energia momentânea. A ciência ainda evolui, mas os dados atuais indicam que, com moderação, café e chá podem fazer parte de uma estratégia de envelhecimento cerebral saudável.
Artigo original: ZHANG, Yu et al. Coffee and Tea Intake, Dementia Risk, and Cognitive Function. JAMA, Chicago, 9 fev. 2026. DOI: 10.1001/jama.2025.27259.
Autor: Dr. Frederico Lobo - Médico Nutrólogo - CRM-GO 13192 - RQE 11915 - Gostou do texto e quer conhecer mais sobre minha pratica clínica, clique aqui.
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