É comum pacientes que estão contaminados com arboviroses (dengue, chikungunya e zika) entrar em contato e perguntar se há algo do ponto de vista nutriciona, que possa ser feito, para aliviar sintomas ou acelerar a resolução do quadro.
Mas e aí, será que tem algo na parte “nutricional” que mudaria o rumo do quadro? Tem alguma vitamina, mineral ou fitoterápico que evitará que os sintomas se agravem o que favorecam uma cura mais rápida? Infelizmente não. Sempre explico que não é um suplemento milagroso que ajudará um paciente conaminado. Quem terá suma importância é hidratação bem feita e a alimentação mantida conforme a tolerância. E isso vale ainda mais na dengue, porque a piora pode acontecer justamente na fase em que a febre começa a ceder.
O objetivo real da alimentação nessas infecções
1) Sempre friso que devenis evitar desidratação e queda do volume circulante (muito comum quando há febre, suor, falta de apetite, vômitos ou diarreia).Então, hidratar é a regra. Água, sucos e se não funcionar via oral, procurar uma unidade de saúde para infusão de soro endovenoso.
Reduzir risco de complicações por descuido simples: pouca ingestão de líquidos, “jejum involuntário” por dias e automedicação inadequada. Com relação à hidratação, nos casos sem sinais de alarme (conduta ambulatorial), o Ministério da Saúde orienta hidratação oral iniciada precoce:
- Adultos: referência de ~60 mL por kg por dia, sendo 1/3 com Sais de Reidratação Oral (SRO) e 2/3 com outros líquidos (água, sucos, chás, água de coco etc.). Exemplo do próprio manual: adulto de 70 kg → 4,2 litros/dia, com maior volume nas primeiras 4–6 horas, e o restante distribuído ao longo do dia.
- Crianças: os volumes variam por peso e a orientação também inclui 1/3 do volume em SRO, com atenção especial nas primeiras horas.
Dica simples e segura: se a urina está muito escura e vem em pouca quantidade, geralmente é um sinal de que você está hidratando menos do que precisa.
2) Manter energia e proteína para o corpo atravessar a fase aguda sem “quebrar” demais os músculos (especialmente em crianças, idosos, gestantes e pessoas com comorbidades). Muitos pacientes rejeitam carne, ovos e laticínios nessa fase, então sugiro proteína magra e de fácil digestão. Brinco que o "dengoso" tem que comer a “dieta possível”, não “dieta perfeita”. A própria diretriz do Ministério da saúde reforça: a alimentação não deve ser interrompida; ajuste de acordo com a aceitação.
Na prática, o que a nutrologia recomenda:
- Refeições pequenas e frequentes (principalmente se houver náusea).
- Base leve e bem tolerada: arroz, batata/mandioca, aveia, banana, maçã, torradas, sopas, iogurte, legumes cozidos.
- Proteína em porções menores: ovos, frango, peixe, iogurte/queijos leves (se tolerados).
- Se houver vômitos, priorize líquidos em pequenos goles e retome sólidos aos poucos.
3) O que evitar (para não piorar sintomas)
- Obviamente alcool, já que ele desidrata e pode piorar mal-estar. Além do risco de toxicidade pro fígado.
- Bebidas muito açucaradas (podem piorar náusea/diarreia em algumas pessoas).
- Excesso de gordura e frituras (piora enjoos).
- Não usar aspirina ou anti-inflamatórios (ibuprofeno, naproxeno etc.) até dengue ser descartada, por risco de sangramentos.
Estado Nutricional e Gravidade da Dengue
De acordo com o Open Evidence:
- Sobrepeso e obesidade estão associados a maior risco de dengue grave. Em crianças tailandesas, o sobrepeso foi associado a aumento de 76-84% no risco de dengue grave.
- Uma meta-análise demonstrou que indivíduos obesos apresentaram risco significativamente maior de progressão para doença grave em comparação com indivíduos desnutridos.
- A obesidade também foi associada a níveis elevados de hemoglobina, hematócrito, hemoconcentração e trombocitopenia mais acentuada.
- Em modelos animais, camundongos obesos apresentaram maior morbidade, perda de peso e trombocitopenia após infecção por dengue.
- A desnutrição apresenta uma relação mais complexa com a dengue. Alguns estudos sugerem que a desnutrição pode estar associada a menor risco de dengue grave, possivelmente devido a uma resposta imune celular suprimida que resulta em menor lesão tecidual.
- Crianças com baixa estatura (stunting) apresentaram risco 39-46% menor de dengue grave.
“E suplementos doutor, posso usar?”
Vitamina C, D, E e zinco são estudados como adjuvantes em dengue, mas a evidência ainda é inconsistente e não substitui o básico (hidratação e monitorização). A conduta mais racional é corrigir deficiência quando há indicação, e não “tomar um monte” na fase aguda.
Tem estudos mostrando que a vitamina D tem capacidade de reduzir citocinas pró-inflamatórias, melhorar respostas de macrófagos e modular a atividade de receptores toll-like, com níveis mais elevados associados a menor replicação viral e manifestações clínicas mais leves. E as vitaminas C e E também mostraram resultados promissores em pequenos estudos de suplementação. Eu prescrevo? Não. Estimulo o uso de sucos cítricos se tolerados. Consumo de grãos integrais e se tolerado: oleaginosas, azeite, abacate. A suplementação com ácido fólico não demonstrou afetar os desfechos clínicos.
E por que não prescrevo e prefiro orientar a dieta: a maioria dos estudos apresenta limitações significativas, incluindo amostras pequenas e dados limitados sobre o estado nutricional basal dos participantes. Ou seja, ensaios clínicos randomizados de alta qualidade são necessários para elucidar o papel da suplementação de micronutrientes no tratamento da dengue.
Sinais de alarme: quando parar de “tratar em casa” e procurar atendimento
Procure serviço de saúde imediatamente se aparecerem sinais como:
- Dor abdominal intensa e contínua,
- Vômitos persistentes,
- Sangramento de mucosas,
- Tontura/desmaio,
- Sonolência importante
- Piora no momento em que a febre está baixando.
Fontes:
- https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/svsa/dengue/dengue-diagnostico-e-manejo-clinico-adulto-e-crianca
- Langerman SD, Ververs M. Micronutrient Supplementation and Clinical Outcomes in Patients with Dengue Fever. Am J Trop Med Hyg. 2021 Jan;104(1):45-51. doi: 10.4269/ajtmh.20-0731. Link: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33258437/
Autor: Dr. Frederico Lobo - Médico Nutrólogo - CRM-GO 13192 - RQE 11915 - Gostou do texto e quer conhecer mais sobre minha pratica clínica, clique aqui.
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