Por que o colágeno virou “febre” (e por que isso merece cautela)
Toda semana os pacientes me perguntam no consultório: Dr, preciso tomar colágeno? Ano após ano a pergunta fica mais frequente. Mas por que?
Nos últimos anos, a suplementação de colágeno virou um dos assuntos mais procurados quando o tema é beleza e envelhecimento da pele. Esse boom não aconteceu por acaso: influencers e seu marketing forte, promessas rápidas (“pele firme”, “menos rugas”, “hidratação”), e muita gente tentando resolver flacidez e linhas finas com algo simples de tomar.
O interesse de busca por “colágeno” cresceu bastante nos últimos anos, o que ajuda a explicar por que o produto se consolidou como tendência.
Só que popularidade não é sinônimo de prova científica forte. Para decidir se vale a pena, a pergunta correta não é “tem algum estudo dizendo que ajuda?”, e sim:
- O quanto ajuda?
- Em quem ajuda?
- Via oral? Via intramuscular? Tópico?
- Por quanto tempo?
- Com qual dose?
- Custo benefício compensa?
- Tem efeitos colaterais?
O que é colágeno e por que ele importa na pele
Colágeno é uma família grande de proteínas estruturais do corpo. Ele participa da “armação” de vários tecidos, incluindo pele, tendões, cartilagens e ossos. Em termos de quantidade, o colágeno representa uma parcela enorme das proteínas do organismo e, na pele, ele é parte central da estrutura da derme.
Com o envelhecimento e com agressões do dia a dia (principalmente radiação UV do sol, além de outros fatores do estilo de vida), o equilíbrio entre produção e degradação do colágeno se altera: o corpo tende a produzir menos e a degradar mais, e isso aparece como flacidez e rugas ao longo do tempo.
“Tomar colágeno” vira colágeno na pele?
Aqui está um ponto que quase todo anúncio simplifica demais: quando você ingere colágeno (hidrolisado/peptídeos), ele não vai inteiro “direto para a pele”.
Ele é quebrado no trato digestivo em aminoácidos e pequenos peptídeos. O corpo usa esses “tijolinhos” onde for mais necessário, de acordo com prioridades metabólicas (manutenção geral, reparo tecidual, etc.).
Na prática, a lógica mais realista é: se o colágeno ajudar, tende a ajudar como mais uma fonte de blocos de construção (e talvez sinalização por peptídeos), e não como um “preenchedor de rugas de dentro para fora”.
O que os melhores estudos em humanos mostram sobre colágeno e pele
Quando a gente olha revisões sistemáticas e meta-análises (que juntam vários ensaios clínicos), aparece um padrão: em média, há estudos mostrando melhora em medidas como hidratação, elasticidade e rugas/linhas em comparação ao placebo. Um exemplo é uma meta-análise de 2023 com ensaios clínicos randomizados que encontrou melhora em hidratação e elasticidade. (PMC)
Ao mesmo tempo, revisões também reconhecem limites importantes e reforçam que ainda faltam estudos maiores e mais robustos para afirmar eficácia com segurança para todas as pessoas e situações.
Tradução para o mundo real: existe sinal de benefício em parte dos estudos, mas isso não garante que o efeito seja grande, consistente e “valha o preço” para a maioria.
Onde a evidência fica frágil: os pontos que mais confundem o resultado
1) Efeito pequeno e difícil de perceber
Muitos resultados são estatísticos (aparecem no aparelho e na média do grupo), mas não necessariamente são transformadores no espelho. Isso abre espaço para frustração: a pessoa paga caro, espera “pele de filtro”, e recebe uma melhora discreta ou imperceptível.
2) Estudos com desfechos que variam muito
Hidratação e elasticidade podem ser medidas por equipamentos diferentes, em tempos diferentes, com populações diferentes (idade, exposição solar, hábitos). Isso cria um cenário perfeito para resultados inconsistentes.
3) Fatores confundidores: dieta, proteína total, hidratação, sono e sol
Pele não depende só de colágeno. Se um estudo não controla bem a ingestão proteica total, vitamina C, hidratação, fotoexposição, tabagismo, álcool, sono e rotina de skincare, fica difícil afirmar que “foi o colágeno” que causou a melhora.
4) Conflito de interesses e viés de patrocínio (um ponto crítico)
Aqui está um detalhe que muda o jogo: uma meta-análise de 2025 (23 ensaios clínicos) encontrou melhora nos desfechos gerais, mas quando separou por fonte de financiamento, o efeito não apareceu nos estudos sem financiamento de empresas farmacêuticas, enquanto apareceu nos estudos financiados. Isso é um sinal clássico de possível viés (por desenho do estudo, publicação seletiva, ou outros fatores). (ScienceDirect)
Resultado prático: dá para entender por que existe tanta gente defendendo e tanta gente desconfiando. A ciência não é “zero ou cem”; o problema é a qualidade e a confiabilidade do corpo de evidências.
A pergunta que realmente importa: vale o custo-benefício?
Mesmo que exista um benefício médio leve a moderado em alguns estudos, o paciente geralmente precisa:
usar por semanas a meses de forma contínua;
manter constância;
pagar um valor recorrente.
Se o orçamento é limitado, costuma ser mais inteligente investir primeiro no que tem impacto maior e mais previsível na pele.
O que costuma dar mais resultado para a pele (e costuma sair mais barato)
Se o objetivo é “pele melhor”, a base é simples e pouco glamourosa, mas funciona:
Proteína total adequada ao dia (porque colágeno é proteína e a pele precisa de aminoácidos no geral).
Vitamina C suficiente (participa da formação de colágeno).
Minerais chave (como zinco e cobre, em contexto de dieta equilibrada).
Hidratação (pele desidratada piora textura e aparência).
Proteção solar diária (UV acelera degradação de colágeno e envelhecimento cutâneo).
Sono e controle de estresse (pele “paga a conta” quando isso vai mal).
Evitar tabagismo (tabaco acelera envelhecimento cutâneo).
Estratégia alimentar prática (sem suplemento)
Em vez de “apostar tudo” em colágeno hidrolisado, a abordagem mais sólida costuma ser garantir proteína de qualidade distribuída no dia, por exemplo com:
ovos, peixes, carnes magras, laticínios (se tolerados),
leguminosas (feijão, lentilha, grão-de-bico) combinadas ao longo do dia,
e uma rotina com frutas/vegetais ricos em vitamina C (como acerola, goiaba, cítricos, pimentão) junto de refeições.
Isso entrega matéria-prima para o corpo produzir colágeno onde realmente precisa, com efeito global na saúde — não só na estética.
E as articulações? Aqui a conversa pode mudar
É importante separar indicações. “Colágeno para pele” não é a mesma coisa que “colágeno para articulações”. Em ortopedia/reumatologia, existem estudos com colágeno tipo II não desnaturado (UC-II) com desfechos mais objetivos (dor, função), e alguns ensaios mostram melhora clínica em grupos específicos. Um exemplo é um estudo clínico publicado em 2022 avaliando UC-II em idosos, com avaliação de dor e função. (SciELO)
Isso não significa “todo mundo precisa”, nem que funciona para qualquer dor. Significa só que a evidência pode ser mais interessante em alguns contextos articulares do que na estética da pele.
Conclusão: uma postura crítica é o que protege seu paciente (e seu bolso)
A ciência sugere que pode haver melhora de hidratação, elasticidade e rugas com colágeno oral em parte dos estudos, mas a magnitude do efeito, a heterogeneidade e principalmente a questão do financiamento/viés tornam a decisão muito mais “pé no chão” do que o marketing faz parecer. (PMC)
Na prática, o caminho mais consistente costuma ser:
arrumar a base (proteína total, vitamina C, hidratação, sono, proteção solar);
só depois considerar suplemento como “extra”, se fizer sentido para aquele paciente e para aquele orçamento.
Autor: Dr. Frederico Lobo - Médico Nutrólogo - CRM-GO 13192 - RQE 11915 - Gostou do texto e quer conhecer mais sobre minha pratica clínica, clique aqui.


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