O uso de hormônios esteroides anabolizantes e as redes sociais: a “lacração” que leva à morte



Os esteroides anabolizantes androgênicos (EAA) são compostos sintéticos derivados da testosterona, o principal hormônio sexual masculino, e são projetados para mimetizar dois efeitos principais no organismo: efeito anabólico e efeito androgênico.

Com relação aos efeitos anabólicos, os EAA promovem o crescimento celular, aumento da síntese de proteínas e desenvolvimento do tecido muscular e ósseo. Já na sua ação androgênica, é responsável pelo desenvolvimento e manutenção das características sexuais secundárias masculinas como desenvolvimento dos genitais, voz grave, pelos faciais e corporais.

Do ponto de vista clínico, os usos de testosterona e mais raramente de EAA são indicados para o tratamento de doenças específicas, como o hipogonadismo masculino – condição em que a produção de testosterona é ausente ou insuficiente –, sarcopenia grave induzida por doenças debilitantes e certos tipos de anemia. 

No entanto, seu uso fora das condições clínicas mencionadas e de forma abusiva, com doses supra fisiológicas (muitas vezes de 10 a 100 vezes maiores que as terapêuticas), ocorre amplamente para fins estéticos e melhoria de performance esportiva.

Nas décadas de 1970, 1980 e 1990, o uso dos EAA era mais usual entre atletas de alto rendimento, e um exemplo icônico foi o caso do velocista Ben Johnson. No dia 24 de setembro de 1988, Ben Johnson disputou a final dos 100 metros rasos contra seu maior rival, o norte-americano Carl Lewis. Johnson não apenas venceu a prova, mas conquistou a medalha de ouro e quebrou o recorde mundial com o tempo impressionante de 9,79 segundos. A performance foi celebrada globalmente como um feito histórico da capacidade humana.

Apenas três dias após a vitória, em 27 de setembro, o Comitê Olímpico Internacional (COI) anunciou que a amostra de urina de Johnson havia testado positivo para o EAA estanozolol.

O caso de doping do velocista canadense Ben Johnson é considerado um dos maiores escândalos da história do esporte moderno, marcando o fim da era da inocência em relação ao uso de substâncias de aprimoramento de desempenho nos Jogos Olímpicos.

Avançando para 2026, em pleno século 21, encontramos uma geração conectada às redes sociais: os chamados nativos digitais, frequentemente movidos pela busca de destaque nas postagens. Mas qual é a relação desse comportamento com o uso de anabolizantes? 

A pressão para exibir uma boa aparência nas redes e a valorização de um padrão corporal muitas vezes inatingível por meios naturais têm levado jovens a recorrer aos EAA. O que antes era uso quase que exclusivo de atletas de alto rendimento, passou a fazer parte da vida das pessoas em busca de um padrão estético que vem matando nossos jovens. Este comportamento não é restrito ao sexo masculino.

Muitos desses jovens desenvolvem um transtorno mental denominado vigorexia. A vigorexia, também conhecida por transtorno dismórfico muscular ou “síndrome de Adônis”, é um transtorno psicológico do espectro do Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC). Nela, a pessoa desenvolve uma obsessão doentia por ter mais massa muscular.

O paradoxo é que a combinação dessas substâncias com a prática de exercícios produz resultados estéticos rápidos, o que serve de incentivo para seu uso crescente, não somente por homens e mulheres adultos, mas também por jovens. Esse consumo ocorre muitas vezes ainda na adolescência, fase em que o organismo já produz naturalmente testosterona e outros hormônios androgênicos durante a puberdade, em ambos os sexos. Entretanto, a produção de testosterona, o hormônio masculino mais potente, é cerca de 10 a 15 vezes maior no sexo masculino.

Embora os anabolizantes possam proporcionar mudanças visíveis na aparência, esses resultados trazem juntos diversos danos à saúde. Em adolescentes ainda em fase de crescimento estatural, o excesso de androgênios acelera a maturação óssea e provoca o fechamento precoce das epífises dos ossos longos, resultando em estatura abaixo do seu potencial genético. O uso de EAA também interfere na produção natural de testosterona e dos hormônios gonadotróficos – LH e FSH –, comprometendo o desenvolvimento normal da puberdade.

Nos meninos, o uso de EAA pode causar atrofia testicular, redução acentuada da quantidade de espermatozoides — oligozoospermia ou azoospermia — resultando em infertilidade. Muitos adolescentes do sexo masculino ou homens adultos usuários de EAA desenvolvem ginecomastia, caracterizada pelo desenvolvimento das mamas devido à conversão do excesso de hormônios masculinos em hormônios femininos, os estrogênios. Ginecomastia em grau acentuado e com duração prolongada pode ser irreversível e necessitar de tratamento cirúrgico em muitos casos.

Nas meninas, o uso de EAA pode resultar em virilização, com desenvolvimento de características do sexo masculino. Entre estas alterações estão a mudança do timbre ou o engrossamento da voz. Esta alteração costuma ser irreversível. 

Outras mudanças no corpo feminino que ocorrem com o uso de EAA são o aumento do clitóris, o crescimento de pelos no rosto e no corpo, denominado hirsutismo, o surgimento ou aumento de acne na face e no dorso (costas). O uso de androgênios geralmente afeta o sistema reprodutivo feminino, resultando em irregularidade ou interrupção do ciclo menstrual e, não raramente, infertilidade.

Infelizmente os danos dos EAA não cessam por aí e os seus malefícios atacam o sistema cardiovascular, provocando hipertrofia patológica do músculo cardíaco, o miocárdio, especialmente do ventrículo esquerdo, reduzindo a eficiência do coração – a chamada cardiomiopatia hipertrófica. 

Esta condição geralmente evolui para insuficiência cardíaca grave e, muitas vezes, haverá necessidade de transplante cardíaco. Além disto, o excesso de testosterona ou EAA resultam em alteração profunda do perfil lipídico, com queda drástica do colesterol HDL (“colesterol bom”) e aumento expressivo do colesterol LDL (“colesterol ruim”), acelerando a aterosclerose precoce. 

Os EAA promovem também aumento da pressão arterial e da viscosidade sanguínea, elevando significativamente o risco de infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral nos nossos jovens.

O uso de EAA também pode causar hepatotoxicidade (lesão no fígado), sobretudo quando envolve compostos orais 17-alfa-alquilados. Esses compostos sobrecarregam as células do fígado e podem levar à hepatite medicamentosa aguda e colestase – produção aumentada ou retenção da bile. Em casos extremos e cada vez mais frequentes, a única alternativa terapêutica é o transplante de fígado. Os EAA também aumentam o risco dos usuários desenvolverem tumores hepáticos benignos ou malignos.

Se não bastassem todos os efeitos deletérios sobre o organismo, ainda é possível verificar transtornos psiquiátricos e comportamentais induzidos ou acelerados pelos EAA. Usuários frequentemente apresentam mudanças drásticas de comportamento, conhecidas na literatura médica como “roid rage“, caracterizadas por explosões de fúria irracional e comportamento violento; distúrbios de humor caracterizados por ciclos de mania, euforia exacerbada, paranoia e ansiedade generalizada, além de causar depressão e risco de suicídio. Por outro lado, a interrupção do uso (“bater o ciclo”) provoca uma queda abrupta dos hormônios que frequentemente resulta em quadros de depressão grave e ideação suicida.

Pesquisas publicadas recentemente confirmam que a morte súbita por problemas cardíacos é, disparadamente, a principal causa de óbito entre os usuários de EAA ou excesso de testosterona. Autópsias de jovens usuários revelam um padrão assustador – o coração desses indivíduos chega a pesar, em média, 74% a mais do que o peso normal, apresentando paredes do ventrículo esquerdo com mais do que o dobro da espessura esperada, caracterizando a hipertrofia cardíaca acentuada.

Embora as mortes sejam difíceis de rastrear na ponta final, os indicadores de consumo e mercado ilegal ajudam a ilustrar a atual “epidemia” de uso entre jovens: dados da Anvisa e monitoramentos de mercado apontaram que as vendas e o uso de compostos como a testosterona cresceram assustadores 670% em períodos recentes.

A comunidade médica internacional reforça que o abuso de hormônios para fins estéticos é um problema de saúde pública crescente. Contudo, enquanto as diretrizes internacionais de catalogação de doenças (CID) apontarem apenas a falência do órgão (coração/fígado) em detrimento da descrição da substância desencadeadora, as estatísticas globais sobre o tema permanecerão subdimensionadas.

Muitas vezes, conhecer todas as informações sobre os riscos não é suficiente para convencer os usuários de EAA a abandonar esse comportamento. Mais do que um comportamento temporário e controlável, frequentemente estes usuários têm ou desenvolveram transtornos psiquiátricos que dificultam o autorreconhecimento e a percepção de risco. Sinais sugestivos de abuso de EAA são ganhos muito rápido de massa muscular, mudanças súbitas e frequentes de humor com aumento da irritabilidade, acne intensa e, no caso das mulheres, sinais de virilização. Familiares, amigos e professores podem ajudar, suspeitando do problema e sugerindo a necessidade de buscar ajuda profissional para enfrentar este problema grave e potencialmente fatal. Essa orientação é essencial para enfrentar um problema que tem levado jovens à morte precoce, apesar de exibirem corpos esculturais nas redes sociais – a “lacração” que leva à morte.

Autores: 
Dr. Hugo Tourinho Filho, professor da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto da USP
Dr. Sonir Roberto Rauber Antonini, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP

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