Mounjaro pode causar descolamento das unhas? Entenda o que diz a ciência

 


O Mounjaro (tirzepatida), medicamento que atua como agonista dos receptores de GIP e GLP-1, tem demonstrado resultados expressivos no tratamento da obesidade e do diabetes mellitus tipo 2. Entretanto, com a ampliação de seu uso, começaram a surgir questionamentos sobre possíveis efeitos adversos que não foram claramente identificados nos estudos clínicos iniciais. 

Entre eles estão alterações nas unhas, principalmente a onicólise, condição caracterizada pelo descolamento da lâmina ungueal do leito ungueal, geralmente iniciado na extremidade distal da unha. Esse descolamento pode produzir uma região esbranquiçada ou amarelada, além de favorecer o acúmulo de resíduos e a ocorrência de infecções secundárias. 

Embora a tirzepatida tenha sido amplamente investigada em ensaios clínicos, como o SURMOUNT-1, publicado no New England Journal of Medicine em 2022, as alterações ungueais não foram estabelecidas como um efeito adverso frequente ou característico do medicamento. Portanto, a possível associação entre o Mounjaro e o comprometimento das unhas ainda representa uma questão científica em investigação. 

Um estudo multinacional apresentado em outubro de 2026, durante o Congresso da European Academy of Dermatology and Venereology (EADV), trouxe novas informações sobre essa possível relação. Conduzida por Piraccini e colaboradores, a pesquisa avaliou 1.904 indivíduos da França, dos Estados Unidos, do Brasil e do México, sendo 575 usuários de medicamentos com ação sobre os receptores de GLP-1 e 1.329 participantes com obesidade e/ou diabetes tipo 2 que não utilizavam esses tratamentos. Entre os usuários, 39% relataram descolamento das unhas, comparativamente a 9% no grupo controle.

Alterações na coloração ungueal foram relatadas por 46% dos usuários, contra 17% dos não usuários. Considerando qualquer alteração nas unhas, as frequências foram de 66,3% e 52,8%, respectivamente. Esses resultados chamam atenção pela magnitude das diferenças encontradas, especialmente em relação à onicólise. 

Entretanto, é fundamental destacar que o estudo avaliou medicamentos da classe e não permite atribuir especificamente à tirzepatida todo o risco observado. 

Apesar dos resultados, é necessário interpretar os dados com cautela. A pesquisa possui natureza observacional e utilizou informações relatadas pelos próprios participantes, o que limita a determinação de causalidade e pode introduzir vieses de memória e de seleção. Além disso, parte dos indivíduos apresentava alterações nas unhas antes de iniciar o tratamento, dificultando estabelecer se o medicamento realmente desencadeou o problema. 

Outra questão importante é que pacientes com obesidade e diabetes podem apresentar condições concomitantes capazes de afetar a saúde ungueal, incluindo infecções fúngicas, doenças inflamatórias e alterações metabólicas. A onicólise também pode ocorrer por traumatismos repetitivos, exposição a produtos químicos, psoríase e disfunções tireoidianas. Assim, a ocorrência de onicólise durante o uso do Mounjaro não significa necessariamente que exista uma relação direta de causa e efeito. 

Sob a perspectiva nutricional, uma hipótese que merece atenção envolve as mudanças alimentares e nutricionais que podem acompanhar o tratamento da obesidade com tirzepatida. A redução importante do apetite, particularmente quando associada a uma restrição calórica excessiva e à ingestão insuficiente de proteínas, pode comprometer o aporte de nutrientes necessários à manutenção dos tecidos. As unhas são estruturas formadas predominantemente por queratinas, e seu crescimento depende da atividade celular da matriz ungueal e da adequada disponibilidade de nutrientes. 

Uma revisão científica publicada na revista Clinics in Dermatology, em 2021, intitulada Nutrition and nail disease, descreveu como diferentes deficiências nutricionais podem interferir no crescimento e na estrutura das unhas. 

Entre os nutrientes de interesse clínico estão:

  • As proteínas
  • Ferro,
  • Zzinco
Cuja insuficiência pode contribuir para fragilidade, crescimento inadequado e determinadas distrofias ungueais. Entretanto, ainda não existem evidências suficientes para afirmar que a onicólise observada entre usuários de tirzepatida seja causada especificamente por deficiência proteica ou de micronutrientes. Essa possibilidade deve ser considerada uma hipótese fisiopatológica, e não um mecanismo comprovado. 

Na prática clínica, pacientes em tratamento com Mounjaro que desenvolvem alterações ungueais devem receber uma avaliação individualizada, considerando o tempo de aparecimento dos sintomas, a velocidade do emagrecimento, os hábitos alimentares, as doenças preexistentes e a utilização de outros medicamentos. 

A investigação pode incluir exame dermatológico, avaliação de possíveis infecções fúngicas e, conforme a história clínica, exames laboratoriais para identificação de anemia, deficiência de ferro, alterações tireoidianas ou inadequações nutricionais.

É importante reforçar que a suplementação indiscriminada de biotina, zinco ou outros micronutrientes não constitui tratamento comprovado para a onicólise relacionada aos medicamentos com ação incretínica. 

Da mesma forma, o aparecimento dessas alterações não representa, isoladamente, indicação para suspensão imediata da tirzepatida. O mais adequado é investigar suas possíveis causas, corrigir eventuais deficiências identificadas e acompanhar a evolução clínica. 

Até outubro de 2026, a literatura científica aponta uma associação que merece investigação, mas ainda não comprova que o Mounjaro provoque diretamente descolamento das unhas

Fontes:

PIRACCINI, B. M.; et a. Association between GLP-1 receptor agonists and nail disorders: Results from a multinational case-control study. https://eadv.org/2026/10/01/nail-detachment-over-four-times-more-common-among-glp-1-users-first-controlled-study-finds/

MUDDASANI, S, et al. Nutrition and nail disease. Clin Dermatol. 2021 Sep-Oct;39(5):819-828. doi: 10.1016/j.clindermatol.2021.05.009. Epub 2021 May 15. PMID: 34785009. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34785009/


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