Engordando na menopausa?

 


Engordando na Menopausa? O que a medicina tem mostrado sobre o ganho de peso n transição menopausal e como o nutrólogo pode te ajudar.

Você está fazendo tudo certinho e mesmo assim está engordando? 

É um relato quase unânime nos consultórios de nutrologia e endocrinologia: "Doutor, eu não mudei nada na minha rotina, mas meu corpo parou de me obedecer". Mulheres que mantêm a mesma dieta e o mesmo nível de atividade física notam, subitamente, que a cintura começou a desaparecer e os números na balança sobem sem explicação aparente. Essa sensação de "perda de controle" não é imaginação e isso tem explicação. 

Se você chegou aos 45, 50 ou 55 anos e sente que seu corpo simplesmente deixou de responder da forma como respondia antes (Dr, anteseu perdia 2kg por semana, agora 2 kg por mês), saiba que não está sozinha. 

Pode ser que você esteja comendo praticamente as mesmas coisas, mantendo a mesma rotina e até tentando fazer mais exercícios do que fazia alguns anos atrás e mesmo assim, as roupas começaram a apertar, a cintura parece ter desaparecido e a balança insiste em mostrar números cada vez maiores. 


Como eu disse, essa é uma das queixas mais frequentes nos consultórios de nutrólogos e endocrinologistas que atendem mulheres na transição menopausal. E o mais importante: isso não é falta de força de vontade, preguiça ou desleixo. Existe uma explicação biológica, hormonal e metabólica para o que está acontecendo com seu corpo.

A sensação de perder o controle sobre o próprio peso costuma ser profundamente angustiante. Muitas mulheres relatam que passam a evitar espelhos, fotografias e até encontros sociais porque já não se reconhecem na própria imagem. 

Algumas sentem culpa por acreditarem que falharam consigo mesmas, enquanto outras recebem críticas injustas de familiares ou profissionais de saúde que simplificam o problema dizendo apenas para “comer menos e se exercitar mais”. Entretanto, as evidências científicas acumuladas nas últimas décadas mostram que o ganho de peso durante a transição menopausal é um fenômeno complexo, influenciado por alterações hormonais, metabólicas, comportamentais e até neurológicas.

Talvez a mudança mais frustrante seja perceber que estratégias que funcionavam aos 30 anos já não produzem os mesmos resultados aos 50. Isso gera revolta e desespero em muitas mulheres. Brinco que tenho uma legião de indignadas no consultório. 

Dietas que antes geravam perda de peso rapidamente passam a apresentar pouco ou nenhum efeito. O metabolismo parece desacelerar, a fome muda de comportamento e o corpo passa a armazenar gordura em regiões onde antes ela praticamente não existia. Essa transformação gera uma sensação de injustiça que muitas mulheres descrevem como uma verdadeira traição do próprio organismo. Como se o corpo (metabolismo) estivesse amarrado.

Mas existe uma boa notícia que raramente é divulgada. Embora a menopausa provoque mudanças reais na composição corporal, compreender os mecanismos por trás dessas alterações permite criar estratégias muito mais eficazes para preservar a saúde, controlar o peso e proteger o metabolismo

Em outras palavras, quando a gente entende as novas regras do jogo (novos tempos, nova era, uma mulher em outro estágio da vida), torna-se muito mais fácil tomar decisões que realmente funcionem para o seu momento de vida. Sim, o tempo passou, você está envelhecendo e seu corpo está mudando. 

A primeira mudança de perspectiva que precisamos adotar é abandonar a ideia de que o peso corporal é apenas uma consequência das calorias consumidas. Esse é o tipo de visão simplista que ignora o papel de alguns elementos:

  1. Papel dos hormônios, 
  2. Papel da massa muscular, 
  3. Papel da qualidade do sono, 
  4. Papel da resistência à insulina, 
  5. Papel do estresse crônico,
  6. E o papel de diversos outros fatores que influenciam diretamente a capacidade do organismo de armazenar ou utilizar energia. 
Na menopausa, todos esses elementos sofrem modificações importantes e passam a interagir de forma diferente do que acontecia durante os anos reprodutivos.

Menopausa e ganho de peso: mito ou realidade?

Uma das perguntas mais frequentes é se a menopausa engorda.

Será que realmente  a menopausa faz a mulher engordar ou será que tudo isso seria apenas uma consequência do envelhecimento? A resposta baseada nas evidências mais recentes é mais complexa do que um simples sim ou não. 

Os guidelines da International Menopause Society demonstram que parte do aumento do peso observado na meia-idade está relacionada ao envelhecimento cronológico. Entretanto, a menopausa exerce um papel fundamental na forma como a gordura passa a ser distribuída pelo organismo. Isso significa que talvez o número na balança não aumente tanto quanto você imagina, mas a composição corporal certamente muda. E é isso que vejo na prática aqui no consultório. 

Durante os anos férteis, o estrogênio favorece um padrão conhecido como distribuição ginecoide da gordura, caracterizado por maior acúmulo nos quadris e coxas. Essa localização funciona quase como um reservatório metabólico relativamente seguro. 

E aí quando os níveis de estrogênio começam a cair, o organismo passa gradualmente a favorecer o armazenamento de gordura na região abdominal (aumento da barriga tão relatado pelas pacientes). Surge então o padrão androide, popularmente conhecido como formato de maçã. É exatamente nesse momento que muitas mulheres começam a perceber o aumento da circunferência abdominal, mesmo sem grandes mudanças no peso total.

Essa alteração não representa apenas uma questão estética. A gordura abdominal mais interna, também chamada de gordura visceral, comporta-se como um órgão metabolicamente ativo capaz de produzir substâncias inflamatórias que aumentam o risco de diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doença cardiovascular, esteatose hepática e diversas outras condições crônicas. 

Em outras palavras, a preocupação não deve estar apenas em quantos quilos foram ganhos, mas principalmente em onde esses quilos estão sendo armazenados.

Os estudos mostram que duas mulheres com exatamente o mesmo peso podem apresentar riscos metabólicos completamente diferentes dependendo da quantidade de gordura visceral acumulada. Por isso, muitas vezes a fita métrica fornece informações mais relevantes do que a própria balança. 

Uma cintura que aumenta progressivamente durante a transição menopausal pode representar um sinal precoce de alterações metabólicas importantes, mesmo quando o peso corporal permanece relativamente estável.

Outro dado que merece atenção é o impacto da menopausa precoce ou cirúrgica. Mulheres submetidas à retirada dos ovários antes da menopausa natural frequentemente apresentam mudanças metabólicas mais intensas e mais rápidas. 

A queda abrupta dos hormônios sexuais acelera processos relacionados ao ganho de gordura abdominal, à perda de massa muscular e ao aumento do risco cardiometabólico. Nesses casos, a avaliação médica torna-se ainda mais importante para reduzir as consequências metabólicas a longo prazo.

A ciência moderna já não considera a menopausa uma doença, mas reconhece que ela representa uma janela crítica de vulnerabilidade metabólica. É um período no qual pequenas alterações de hábitos podem gerar grandes benefícios, mas também um momento em que a ausência de intervenção pode facilitar o surgimento de obesidade, síndrome metabólica e doenças cardiovasculares. 

Por isso, compreender o que está acontecendo dentro do seu organismo é o primeiro passo para recuperar a sensação de controle e construir uma estratégia eficiente para atravessar essa fase com mais saúde, energia e qualidade de vida.



O Estudo SWAN e a janela de maior risco para ganhar peso

Se existe uma pesquisa que mudou a forma como entendemos a menopausa, essa pesquisa é o SWAN (Study of Women's Health Across the Nation) publicada em 2019. Considerado um dos maiores estudos já realizados sobre saúde feminina, ele acompanhou milhares de mulheres durante anos para compreender exatamente o que acontece com o organismo antes, durante e após a menopausa. Link para o estudo: https://df6sxcketz7bb.cloudfront.net/manuscripts/124000/124865/cache/124865.1-20190326093323-covered-4fa089109ce452e764bbb8648b44a723.pdf

Os resultados revelaram algo extremamente importante: o ganho de gordura corporal não acontece de forma aleatória. Existe uma verdadeira janela biológica de vulnerabilidade metabólica que começa aproximadamente dois anos antes da última menstruação e se estende por cerca de dois anos após ela.

Durante esse período, o organismo passa por uma verdadeira reorganização hormonal. A produção ovariana de estrogênio torna-se instável, os ciclos menstruais tornam-se irregulares e diversas adaptações metabólicas começam a ocorrer simultaneamente. 

O que muitas mulheres interpretam como um ganho de peso súbito é, na realidade, o resultado de mudanças progressivas que já vinham acontecendo silenciosamente há vários meses ou até anos. Quando os sinais finalmente se tornam visíveis no espelho ou na balança, grande parte dessas alterações já está em curso.

Os dados do SWAN demonstraram que a velocidade de acúmulo de gordura praticamente dobra durante essa fase. Mais preocupante ainda é que esse ganho não ocorre apenas no tecido subcutâneo, aquele localizado logo abaixo da pele. 


O principal aumento acontece na gordura visceral, que se acumula ao redor dos órgãos internos e apresenta forte associação com inflamação crônica, resistência à insulina e doenças cardiovasculares. Essa descoberta mudou completamente a forma como nós médicos enxergamos o ganho de peso na menopausa.

Ao mesmo tempo em que ocorre o aumento da gordura corporal, observa-se uma redução acelerada da massa muscular e da força muscular. Esse fenômeno recebe o nome de sarcopenia relacionada à idade e torna-se ainda mais intenso durante a transição menopausal. Daí a importância de todo nutrólogo, ginecologista e endócrinologista realizar dinamometria nessas pacientes e solicitar exames para análise da composição corporal. Sendo o padrão-ouro a densitometria de corpo inteiro (DXA).

Como o tecido muscular é um dos principais responsáveis pelo gasto energético diário, sua perda reduz a quantidade de calorias que o organismo consegue queimar em repouso. Isso significa que uma mulher pode continuar comendo exatamente a mesma quantidade de alimentos de antes e, ainda assim, começar a ganhar peso.


Outro aspecto frequentemente ignorado é a perda progressiva da densidade mineral óssea. O mesmo ambiente hormonal que favorece o acúmulo de gordura abdominal também acelera a reabsorção óssea. 

Estudos demonstram que mulheres podem perder entre 15% e 20% de sua massa óssea nos anos que cercam a menopausa. Isso ajuda a explicar o aumento do risco de osteopenia, osteoporose e fraturas observadas após os 50 anos. Portanto, quando falamos de menopausa, não estamos discutindo apenas peso corporal, mas uma transformação completa da composição corporal.

Talvez a maior contribuição do estudo SWAN tenha sido demonstrar que agir precocemente faz diferença. Quanto antes uma mulher identifica essa janela de vulnerabilidade e adota estratégias direcionadas para preservar músculo, controlar gordura visceral e proteger a saúde óssea, maiores são as chances de atravessar a menopausa mantendo independência funcional, qualidade de vida e saúde metabólica nas décadas seguintes.

O estrogênio era seu aliado metabólico e talvez você nunca percebeu

Durante grande parte da vida reprodutiva, o estrogênio atua silenciosamente como um dos mais importantes reguladores do metabolismo feminino. Ele participa do controle do apetite, da distribuição da gordura corporal, da sensibilidade à insulina, da saúde vascular e até mesmo da função cerebral. 

O problema é que normalmente só percebemos a importância de algo quando começamos a perdê-lo. É exatamente isso que acontece durante a transição menopausal.



Uma das funções mais relevantes do estrogênio é direcionar o local onde a gordura será armazenada. Enquanto seus níveis permanecem adequados, existe uma tendência maior de deposição de gordura nos quadris e coxas. 

Esse padrão, embora muitas vezes criticado por questões estéticas, é metabolicamente mais seguro, principalmente do ponto de vista cardiovascular. Quando o estrogênio diminui, o organismo passa a favorecer o armazenamento de gordura no abdomem, criando um ambiente mais propenso à inflamação e às alterações metabólicas.

O estrogênio também exerce efeitos importantes sobre o endotélio, camada interna dos vasos sanguíneos. Ele estimula a produção de óxido nítrico, uma substância que promove vasodilatação e contribui para a saúde cardiovascular. Com a redução hormonal, esse efeito protetor diminui, favorecendo alterações na pressão arterial, na função vascular e e o já citado aumento do risco cardiovascular. Essa é uma das razões pelas quais doenças cardíacas passam a representar a principal causa de morte entre mulheres após a menopausa.

Outro efeito pouco conhecido envolve a forma como o cérebro regula a fome e a saciedade. Existem receptores de estrogênio em regiões cerebrais responsáveis pelo controle do comportamento alimentar. 

E aí, quando os níveis hormonais caem, muitas mulheres passam a relatar aumento do apetite e um maior desejo por alimentos ricos em açúcar, além de uma dificuldade cada vez maior para controlar impulsos alimentares. Os mecanismos biológicos que antes regulavam o apetite estão sendo modificados.

A redução do estrogênio também contribui para alterações no metabolismo da glicose. Estudos mostram que a sensibilidade à insulina tende a diminuir durante a transição menopausal, favorecendo elevações da glicemia e maior facilidade para armazenamento de gordura. 

Esse fenômeno ajuda a explicar por que mulheres que nunca apresentaram dificuldades importantes para controlar o peso começam a desenvolver resistência à insulina justamente nessa fase da vida.

Por trás de todas essas mudanças existe uma mensagem importante: o ganho de peso na menopausa não pode ser explicado apenas pela quantidade de comida ingerida. Ele resulta de uma interação complexa entre hormônios, cérebro, músculos, tecido adiposo, sono, atividade física e envelhecimento.

 Compreender essa realidade é fundamental para abandonar a culpa e substituir a autocrítica por estratégias verdadeiramente eficazes, baseadas na biologia feminina e nas melhores evidências científicas disponíveis.

Resistência à insulina: a peça do quebra-cabeça que a maioria das mulheres nunca ouviram falar

Uma das razões pelas quais tantas mulheres relatam dificuldade crescente para emagrecer durante a menopausa é o desenvolvimento progressivo da resistência à insulina. Embora esse termo seja frequentemente associado ao diabetes, ele começa a surgir muito antes de qualquer alteração significativa nos exames laboratoriais. 

Na prática, resistência à insulina significa que as células passam a responder menos eficientemente ao hormônio responsável por permitir a entrada da glicose nos tecidos. Como consequência, o organismo precisa produzir quantidades cada vez maiores de insulina para obter o mesmo efeito metabólico.

O problema é que a insulina não atua apenas no controle da glicemia. Ela também é um dos hormônios mais importantes relacionados ao armazenamento de gordura. Quando seus níveis permanecem elevados por longos períodos, o corpo recebe sinais constantes para acumular energia, especialmente na região abdominal. Isso ajuda a explicar por que algumas mulheres percebem aumento progressivo da cintura mesmo sem mudanças evidentes na alimentação. Muitas vezes, a questão não é apenas o que está sendo consumido, mas como o organismo está processando esses nutrientes.

A queda do estrogênio contribui diretamente para esse fenômeno. Estudos demonstram que o estrogênio participa da manutenção da sensibilidade à insulina em músculos, fígado e tecido adiposo. Quando seus níveis diminuem, ocorre uma redução gradual da eficiência metabólica, favorecendo maior armazenamento energético e menor utilização da glicose pelos tecidos. Esse processo pode acontecer mesmo em mulheres que nunca tiveram excesso de peso durante a juventude.

A perda de massa muscular observada durante a menopausa agrava ainda mais esse cenário. O músculo é o principal local de captação de glicose do organismo. 

Quanto menor a quantidade de músculo, menor a capacidade de remover glicose da circulação após as refeições. Isso cria um ambiente metabólico que favorece níveis mais elevados de insulina e, consequentemente, maior tendência ao acúmulo de gordura visceral.

Talvez o aspecto mais frustrante para muitas mulheres seja perceber que a resistência à insulina frequentemente se manifesta através de sintomas aparentemente desconectados. Fome excessiva no final da tarde, desejo intenso por doces, dificuldade de perder peso, sonolência após refeições, aumento da circunferência abdominal e fadiga persistente podem representar sinais precoces de que o metabolismo da glicose já não está funcionando da mesma maneira que antes. Reconhecer esses sinais é essencial para intervir antes que problemas maiores se instalem.

Quando a gordura "migra" do culote para a barriga

Uma das transformações corporais mais marcantes da menopausa é a mudança do padrão de distribuição da gordura. Muitas mulheres relatam que, durante décadas, acumulavam gordura principalmente em quadris e coxas. 

Então, quase sem perceber, começam a notar que a região abdominal passa a concentrar cada vez mais tecido adiposo. Esse fenômeno não é fruto do acaso nem simplesmente resultado do envelhecimento. Trata-se de uma resposta biológica diretamente relacionada às alterações hormonais da transição menopausal.

Durante a fase reprodutiva, o estrogênio favorece o armazenamento de gordura em depósitos periféricos. Esse padrão ginecoide está associado a menor risco cardiovascular e menor inflamação sistêmica. Quando os níveis hormonais diminuem, o organismo passa a utilizar mecanismos metabólicos mais semelhantes aos observados nos homens, favorecendo a deposição de gordura abdominal profunda. É exatamente por isso que tantas mulheres afirmam que seu corpo mudou completamente de formato após a menopausa.

A gordura visceral difere profundamente da gordura localizada logo abaixo da pele. Ela é metabolicamente ativa e produz uma série de moléculas inflamatórias conhecidas como adipocinas. Essas substâncias podem interferir no funcionamento da insulina, aumentar processos inflamatórios e contribuir para alterações no colesterol, pressão arterial e função vascular. 

Em outras palavras, a gordura visceral não é apenas um depósito energético; ela participa ativamente do desenvolvimento de doenças metabólicas. O tecido adiposo hoje é conhecido como um "órgão" produtor de substâncias pró-inflamatórias. Assim como o músculo um órgão endócrino, uma usina de substâncias com ação antiinflamatória e com múltiplas funções benéficas. 

Pesquisas demonstram que o aumento da gordura visceral está associado a maior risco de diabetes tipo 2, síndrome metabólica, esteatose hepática, infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral. Isso explica por que especialistas em menopausa enfatizam tanto a importância da circunferência abdominal. Muitas vezes, uma redução de poucos centímetros na cintura produz benefícios metabólicos muito mais relevantes do que uma pequena mudança observada na balança.

Existe ainda outro aspecto importante. A gordura visceral favorece um estado de inflamação crônica de baixo grau que acelera diversos processos relacionados ao envelhecimento biológico. Esse ambiente inflamatório pode contribuir para fadiga, dores articulares, piora da composição corporal, resistência à insulina e aumento do risco cardiovascular. 

Por isso, o objetivo durante a menopausa não deve ser simplesmente perder peso, mas reduzir especificamente a gordura visceral e preservar a massa muscular. Ou seja, fazer uma poupança de músculos. E em tempos de "Momom e Ozempic" preservar músculo ou ganhar é um luxo. 

O papel da testosterona e o desequilíbrio hormonal da transição Menopausal

Quando se fala em hormônios femininos, a atenção costuma se concentrar exclusivamente no estrogênio. No entanto, a menopausa envolve mudanças em diversos hormônios que interagem entre si de maneira complexa. Entre eles está a testosterona, frequentemente vista como um hormônio exclusivamente masculino, mas que também desempenha funções importantes no organismo feminino.

Durante a vida fértil existe um equilíbrio relativamente estável entre estrogênio e testosterona. Com a redução progressiva do estrogênio, a influência relativa da testosterona torna-se mais evidente, mesmo que seus níveis absolutos não aumentem significativamente (testosterona não aumenta na transição). 


Esse desbalanço: estrogênio caindo acentuadamente, testosterona mantendo-se normal: contribui para a migração do padrão de gordura corporal em direção ao abdome, reforçando o surgimento da chamada obesidade central. 

A testosterona participa da manutenção da massa muscular, da força física e da vitalidade. Entretanto, quando ocorre um desequilíbrio entre os hormônios sexuais, seus efeitos metabólicos podem favorecer maior resistência à insulina e alterações na distribuição da gordura corporal. É justamente essa interação hormonal que ajuda a explicar parte das transformações observadas durante a transição menopausal.

Outro aspecto relevante é que muitas mulheres interpretam as mudanças corporais exclusivamente como um problema alimentar e apesar da a qualidade da alimentação ser fundamental, os hormônios influenciam diretamente onde a energia será armazenada,. Ou seja, como o organismo responderá à atividade física e qual será a facilidade para preservar massa muscular. Ignorar esse componente hormonal significa compreender apenas parte do problema.



Testosterona na menopausa: solução milagrosa ou modismo sem comprovação científica?

É cada vez mais comum que nutrólogos, endocrinologistas e ginecologistas recebam em seus consultórios mulheres na transição menopausal ou já na pós-menopausa utilizando testosterona, seja na forma de géis transdérmicos, cápsulas manipuladas, adesivos ou implantes subcutâneos popularmente conhecidos como "chips hormonais". 

Muitas dessas mulheres chegam acreditando que estão utilizando um tratamento capaz de acelerar o metabolismo, promover emagrecimento, aumentar a disposição, melhorar a composição corporal, a libido e até retardar o envelhecimento. 

Essa percepção foi amplamente difundida por redes sociais, influenciadores digitais e campanhas de marketing que frequentemente apresentam a testosterona como uma espécie de hormônio da juventude feminina. 

O problema é que a ciência não acompanha o entusiasmo observado nas redes sociais. Atualmente, as principais sociedades médicas internacionais, incluindo a International Menopause Society (IMS), a The Menopause Society (antiga NAMS), a Endocrine Society e a International Society for the Study of Women's Sexual Health (ISSWSH), são bastante claras ao afirmar que a principal indicação baseada em evidências para a terapia com testosterona em mulheres é o tratamento do transtorno do desejo sexual hipoativo (HSDD), após avaliação cuidadosa e exclusão de outras causas. 

Fora desse contexto específico, as evidências disponíveis permanecem insuficientes para recomendar seu uso rotineiro. O Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women liderado pela maior autoridade mundial sobre o tema, a Dra. Susan R Davis deixa isso claro. Link: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31488288/

Apesar das promessas frequentemente divulgadas, não existem evidências robustas demonstrando que a testosterona seja um tratamento eficaz para emagrecimento em mulheres na menopausa. 

Os estudos realizados até o momento apresentam resultados inconsistentes, amostras pequenas, períodos curtos de acompanhamento e grande heterogeneidade metodológica. As diretrizes internacionais não recomendam a testosterona como estratégia para perda de peso, prevenção da obesidade, tratamento da resistência à insulina ou melhora global da saúde metabólica. 

Na prática clínica, muitas mulheres acabam atribuindo eventuais melhoras à testosterona quando, na realidade, também iniciaram simultaneamente dieta, atividade física, terapia hormonal convencional ou outras intervenções.

Outro ponto que merece atenção é que os implantes hormonais comercializados em diversos países frequentemente utilizam doses que produzem concentrações hormonais acima da faixa fisiológica feminina. 

Embora algumas pacientes relatem aumento de energia ou melhora da libido nas primeiras semanas, a exposição prolongada a níveis suprafisiológicos pode desencadear efeitos adversos importantes. Entre eles destacam-se acne, aumento da oleosidade da pele, crescimento excessivo de pelos corporais e faciais, queda de cabelo com padrão masculino, alterações da voz e aumento do clitóris, sendo que alguns desses efeitos podem ser irreversíveis mesmo após a suspensão do tratamento.

As incertezas tornam-se ainda maiores quando analisamos a segurança em longo prazo. Até o momento, faltam estudos de alta qualidade avaliando os efeitos da testosterona utilizada por muitos anos sobre desfechos cardiovasculares, risco de câncer de mama, eventos tromboembólicos e mortalidade global. 

A maioria dos ensaios clínicos disponíveis possui duração relativamente curta, geralmente inferior a dois anos, o que impede conclusões definitivas sobre segurança a longo prazo. Em medicina, ausência de evidência de dano não significa evidência de segurança.

Outro aspecto frequentemente negligenciado é que muitos dos benefícios atribuídos à testosterona podem ser consequência indireta da correção de outros problemas comuns na menopausa. Distúrbios do sono, fogachos, ansiedade, depressão, deficiência de ferro, hipotireoidismo, sedentarismo e perda de massa muscular podem causar fadiga, redução da libido e diminuição da qualidade de vida. Quando essas condições não são adequadamente investigadas, existe o risco de utilizar testosterona como uma solução simplificada para um problema multifatorial que exige abordagem muito mais abrangente.

Por esse motivo, as diretrizes internacionais recomendam cautela diante de promessas de rejuvenescimento, emagrecimento ou melhora metabólica atribuídas à testosterona. A medicina baseada em evidências exige que tratamentos sejam sustentados por estudos clínicos consistentes, reprodutíveis e capazes de demonstrar benefícios superiores aos riscos. Até o presente momento, esses critérios não foram atendidos para a maioria das indicações frequentemente divulgadas em mulheres na menopausa.

Isso não significa que a testosterona nunca tenha lugar no cuidado da mulher menopausada. Significa apenas que sua utilização deve ser criteriosa, individualizada e fundamentada em evidências científicas sólidas. Em uma época marcada por marketing agressivo e promessas de resultados rápidos, é fundamental que pacientes e profissionais diferenciem aquilo que é comprovado pela ciência daquilo que permanece apenas como hipótese, entusiasmo comercial ou experiência pessoal.

As diretrizes mais recentes da International Menopause Society destacam que o foco deve estar na saúde metabólica global e não apenas na reposição hormonal isolada. Isso significa avaliar composição corporal, resistência à insulina, perfil lipídico, qualidade do sono, atividade física e fatores cardiovasculares. 

E como a Nutrologia pode te ajudar nessa fase?

A menopausa é um processo sistêmico, e suas consequências não podem ser compreendidas analisando apenas um único hormônio. Ao entender que o ganho de peso resulta de uma interação complexa entre estrogênio, testosterona, insulina, tecido adiposo e massa muscular, a mulher deixa de enxergar seu corpo como um inimigo e passa a compreender que está enfrentando uma mudança fisiológica real. 

Essa compreensão é libertadora porque substitui a culpa pela ação estratégica. E quando a estratégia é baseada na ciência, os resultados costumam ser muito mais consistentes e duradouros.

Mas como um nutrólogo vai te ajudar? Na visão do nutrólogo, a menopausa não representa uma sentença inevitável de ganho de peso, mesmo que as alterações hormonais criem um ambiente metabólico menos favorável do que aquele vivido durante os anos reprodutivos. É isso que estamos fazendo há décadas. 

Com auxílio da ciência, podemos tentar preservar a composição corporal, reduzir o acúmulo de gordura visceral e até mesmo emagrecer nessa fase da vida. O segredo está em compreender que as estratégias utilizadas aos 30 anos nem sempre funcionam aos 50. 

A Nutrologia busca justamente identificar essas mudanças biológicas e desenvolver intervenções personalizadas capazes de atuar sobre os mecanismos que favorecem o ganho de gordura durante a transição menopausal.

O primeiro passo é mudar o foco da balança para a composição corporal. Muitas mulheres entram aqui no consultório preocupadas exclusivamente com o peso total, quando o verdadeiro problema está ocorrendo em um nível mais profundo. 

Como citei acima, os estudos mais recentes mostram que a menopausa promove aumento da gordura visceral e perda de massa muscular mesmo quando o peso permanece relativamente estável. Isso significa que uma mulher pode vestir o mesmo número na balança e, ainda assim, apresentar maior risco cardiovascular, maior resistência à insulina e pior saúde metabólica. Então o primeiro passo é realizarmos uma avaliação da composição corporal, já que essa é uma ferramenta fundamental para orientar decisões terapêuticas mais precisas. Afinal pode ser uma paciente já sarcopênica e aí, o tratamento muda completamente. Confiar apenas em número da balança é um erro. 

E como frisei no texto, a preservação da massa muscular é uma das peças mais importantes nesse jogo de xadrez. O músculo é muito mais do que um tecido responsável pela força física, é um órgão endócrino e funciona como um verdadeiro órgão metabólico, consumindo glicose, aumentando o gasto energético diário e ajudando a controlar a resistência à insulina. 

Quando a menopausa acelera a perda muscular, ocorre uma redução progressiva do metabolismo basal, mesmo que irrisório a cada ano, porém, ao longo de décadas, pode favorecer ganho de peso. Isso acaba criando um cenário favorável ao ganho de gordura. 

Por isso, preservar músculo não é uma questão estética, mas uma das principais intervenções de saúde metabólica para mulheres nessa fase. Caso queira ler mais sobre o mito do metabolismo lento, leia: https://www.ecologiamedica.net/2026/03/fim-do-metabolismo-lento-verdade.html

Alimentação e menopausa

A alimentação assume um papel central nesse processo. Durante a peri e a pós-menopausa ocorre um fenômeno conhecido como resistência anabólica, no qual os músculos respondem menos eficientemente aos estímulos nutricionais. Isso faz com que muitas mulheres necessitem de uma ingestão proteica maior do que a recomendada para adultos jovens. 

As evidências atuais apontam que uma ingestão entre 1,2 e 1,6 g de proteína por quilograma de peso corporal ao dia pode favorecer a manutenção da massa muscular, especialmente quando associada ao treinamento resistido. Além da quantidade total, a distribuição adequada da proteína ao longo do dia também parece desempenhar papel importante.

Outro aspecto frequentemente negligenciado é a qualidade das fontes proteicas. Proteínas de alto valor biológico, ricas em aminoácidos essenciais e especialmente em leucina, apresentam maior capacidade de estimular a síntese muscular. Ovos, peixes, laticínios, carnes magras e algumas combinações de proteínas vegetais podem contribuir para atingir esse objetivo. 

Na prática clínica, muitas mulheres descobrem que estavam consumindo muito menos proteína do que imaginavam, especialmente no café da manhã e no jantar, momentos fundamentais para o estímulo da massa muscular.

Treinamento de força e menopausa

Se a proteína é o combustível, o treinamento de força é o sinal que informa ao organismo que o músculo precisa ser preservado. Entre todas as intervenções estudadas na menopausa, o exercício resistido apresenta uma das evidências mais consistentes para reduzir gordura visceral, melhorar a sensibilidade à insulina e combater a sarcopenia.

 Duas a três sessões semanais envolvendo grandes grupos musculares podem gerar benefícios expressivos mesmo em mulheres que nunca praticaram musculação anteriormente. Ainda não existe medicamento capaz de reproduzir integralmente os efeitos metabólicos produzidos pelo treinamento resistido. Lembra da poupança de músculos que citei acima? O treino resistido é a principal forma de ativar essa poupança.

Treino aeróbico e menopausa

O exercício aeróbico também possui papel relevante. Caminhadas, ciclismo, natação e outras atividades cardiovasculares ajudam a aumentar o gasto energético, melhorar a saúde cardiovascular e reduzir o risco de diabetes tipo 2. As recomendações internacionais sugerem pelo menos 150 minutos semanais de atividade física aeróbica moderada. Entretanto, os melhores resultados costumam ocorrer quando o treinamento aeróbico é combinado com exercícios de força, permitindo simultaneamente preservar músculo e reduzir gordura corporal.

Sono e menopausa

Outro pilar frequentemente subestimado é o sono. Muitas mulheres percebem que a qualidade do sono piora significativamente durante a transição menopausal devido aos fogachos, sudorese noturna, ansiedade e alterações hormonais. O problema é que noites mal dormidas aumentam os níveis de cortisol, favorecem resistência à insulina e alteram hormônios relacionados à fome e à saciedade. A consequência costuma ser aumento do apetite, maior desejo por alimentos ultraprocessados e maior facilidade para acumular gordura abdominal. Tratar o sono inadequado pode produzir benefícios metabólicos muito maiores do que muitas pessoas imaginam.

Estresse, cortisol e menopausa

Da mesma forma, o manejo do estresse deve ser encarado como parte integrante do tratamento. O excesso de cortisol está associado ao aumento da gordura visceral, piora da resistência à insulina e redução da capacidade de recuperação muscular. Em um momento da vida frequentemente marcado por múltiplas responsabilidades familiares, profissionais e emocionais, aprender estratégias de gerenciamento do estresse pode representar uma ferramenta valiosa para proteger a saúde metabólica. Meditação, atividade física, psicoterapia e técnicas de relaxamento podem complementar o tratamento nutricional de maneira significativa.

E aqui muitos me perguntam: você não vai dosar meu cortisol para ver meu nível de estresse?  Sugiro que assistam a esse vídeo da Dra. Luciana Haddad.



E não, eu não dosarei seu cortisol. 

Padrões alimentares e menopausa: qual a melhor dieta para menopausa?

Entre os padrões alimentares estudados, a dieta mediterrânea ocupa posição de destaque. Rica em vegetais, frutas, leguminosas, azeite de oliva, oleaginosas e peixes, ela apresenta benefícios consistentes sobre inflamação, resistência à insulina e risco cardiovascular. 

Diferentemente de dietas extremamente restritivas, o padrão mediterrâneo é sustentável a longo prazo e demonstra resultados favoráveis tanto para prevenção quanto para tratamento do excesso de peso. Diversos estudos associam sua adoção à menor incidência de doenças cardiovasculares e melhor envelhecimento metabólico.

A Nutrologia também desempenha papel fundamental na identificação de deficiências nutricionais que podem agravar sintomas e dificultar o controle do peso. Ferro, vitamina D, vitamina B12, magnésio, zinco e proteínas inadequadas podem contribuir para fadiga, perda de desempenho físico e dificuldade de adesão às mudanças de estilo de vida. 

Corrigir essas alterações não produz emagrecimento diretamente, mas frequentemente melhora disposição, recuperação muscular e capacidade de manter hábitos saudáveis de forma consistente. E aqui uma ressalva: evitem autosuplementação? Nos últimos 10 anos a minha prática clínica diaria consiste em algum momento corrigir erros ocasionados por autosuplementação. 

Suplementos são válidos? Sim, quando não se consegue obter os nutrientes em quantidade necessária pela alimentação. Eles interagem entre si e quando você repõem um, outro pode decair, exemplo: zinco e cobre, zinco e ferro, ou B12 e ácido folico. Veste um santo, desveste outro. Dinheiro jogado no lixo e riscos de colaterais advindos de auto-suplementação.

Fibras, resistência insulínica e menopausa

Em algumas mulheres, a resistência à insulina torna-se um componente central do quadro clínico. Nesses casos, a abordagem nutricional precisa ser cuidadosamente individualizada para reduzir picos glicêmicos, melhorar a resposta metabólica e favorecer a mobilização de gordura corporal. A escolha adequada dos carboidratos, o aumento do consumo de fibras e a distribuição estratégica das refeições podem exercer impacto significativo sobre a saciedade e o controle do peso. A Nutrologia permite que essas decisões sejam tomadas de forma personalizada, respeitando características individuais e objetivos específicos. Leia meus textos sobre fibra: https://www.ecologiamedica.net/2026/03/fibermaxxing.html

Terapia de reposição hormonal - TRH

A terapia hormonal da menopausa também merece consideração quando corretamente indicada. É importante esclarecer que ela não deve ser utilizada como tratamento da obesidade. Entretanto, estudos demonstram que mulheres elegíveis para terapia hormonal podem apresentar menor acúmulo de gordura visceral, menor circunferência abdominal e melhor preservação da composição corporal em comparação às não usuárias. O principal benefício parece estar relacionado à correção parcial do ambiente metabólico criado pela deficiência estrogênica, facilitando a resposta às intervenções de estilo de vida.

E o nutrólogo deve fazer essa TRH? Na minha opinião não. Fica reservada para quem realmente entende do assunto: ginecologistas e endocrinologistas. 

Tratamento farmacológica da obesidade e menopausa

Nos últimos anos, os medicamentos baseados nas incretinas revolucionaram o tratamento da obesidade e abriram uma nova perspectiva para mulheres que enfrentam o ganho de peso durante a transição menopausal. 

Embora a maioria dos grandes estudos tenha incluído homens e mulheres de diferentes faixas etárias, pesquisas recentes começaram a avaliar especificamente o comportamento desses fármacos em mulheres na peri e pós-menopausa. Os resultados sugerem que a combinação entre tratamento farmacológico adequado, mudanças no estilo de vida e correção das alterações hormonais pode representar uma das estratégias mais eficazes para reduzir gordura visceral e melhorar a saúde metabólica nessa fase da vida.

Um dos trabalhos mais relevantes foi publicado por Castaneda e colaboradores em 2026. Nesse estudo retrospectivo envolvendo mulheres pós-menopáusicas com sobrepeso ou obesidade, os autores avaliaram se a terapia hormonal da menopausa poderia influenciar a resposta à tirzepatida, um agonista duplo dos receptores de GIP e GLP-1. 

Os resultados mostraram que as mulheres que utilizavam simultaneamente terapia hormonal e tirzepatida apresentaram perda de peso significativamente maior do que aquelas tratadas apenas com tirzepatida. Aproximadamente metade das pacientes que receberam a combinação alcançou perdas superiores a 20% do peso corporal, sugerindo que a correção da deficiência estrogênica pode potencializar os benefícios metabólicos do tratamento farmacológico.

A importância desse estudo vai além da magnitude da perda de peso observada. Castaneda et al. levantaram uma hipótese extremamente relevante para a prática clínica: a deficiência estrogênica da menopausa pode reduzir parcialmente a capacidade do organismo de responder aos estímulos metabólicos associados aos agonistas de GLP-1. 

Embora sejam necessários ensaios clínicos randomizados para confirmar essa teoria, os resultados reforçam a ideia de que obesidade e menopausa não devem ser tratadas como problemas independentes. Em muitas mulheres, a melhor estratégia pode envolver uma abordagem integrada que considere simultaneamente composição corporal, hormônios, alimentação, atividade física e farmacoterapia.

Outra publicação importante foi a revisão conduzida por Hurtado Andrade em 2025, publicada na revista Menopause, periódico oficial da The Menopause Society. A autora analisou criticamente as principais opções farmacológicas atualmente disponíveis para tratamento da obesidade em mulheres na meia-idade. 

A conclusão foi clara: os agonistas do receptor de GLP-1, especialmente semaglutida e tirzepatida, representam atualmente as intervenções medicamentosas mais eficazes para redução do peso corporal e da gordura visceral. A revisão também destaca que essas medicações não devem ser encaradas como substitutas de dieta e exercício, mas como ferramentas capazes de facilitar a adesão e potencializar os resultados de uma estratégia global de mudança de estilo de vida.

Em 2026, uma ampla revisão publicada na revista Maturitas aprofundou ainda mais essa discussão. Os autores concluíram que semaglutida e tirzepatida inauguraram uma nova era no tratamento da obesidade, alcançando reduções de peso anteriormente observadas apenas após procedimentos cirúrgicos. 

O trabalho destaca que mulheres pós-menopáusicas constituem uma população particularmente interessante para esses tratamentos devido ao aumento progressivo da gordura visceral, da resistência à insulina e do risco cardiovascular observado após a queda dos níveis de estrogênio. Os autores também apontam que futuros estudos deverão avaliar estratégias combinadas envolvendo terapia hormonal, treinamento resistido e agonistas incretínicos.

Outra contribuição importante surgiu na revisão "Management of Obesity in the Menopause Transition and Postmenopausal Period", publicada em 2026. Os autores enfatizam que o tratamento da obesidade na menopausa exige objetivos diferentes daqueles utilizados em mulheres mais jovens. 

Não basta apenas reduzir o peso corporal total. O verdadeiro objetivo terapêutico deve ser diminuir a gordura visceral, preservar a massa muscular e melhorar a saúde cardiometabólica. Nesse contexto, os agonistas de GLP-1 e a tirzepatida aparecem como ferramentas extremamente promissoras, especialmente quando associados a ingestão proteica adequada e treinamento de força para minimizar perdas de massa magra durante o emagrecimento.

Talvez a principal mensagem deixada por esses estudos seja que estamos diante de uma mudança de paradigma. Durante décadas, o tratamento da obesidade na menopausa concentrou-se quase exclusivamente em restrição calórica e aumento da atividade física. 

Hoje sabemos que a fisiopatologia é muito mais complexa, envolvendo alterações hormonais, redistribuição da gordura corporal, perda de massa muscular e resistência à insulina. Os novos medicamentos não substituem hábitos saudáveis, mas oferecem uma oportunidade inédita de atuar diretamente sobre mecanismos biológicos que antes eram extremamente difíceis de controlar. Quando utilizados de forma criteriosa, individualizada e associados a uma abordagem nutrológica abrangente, eles podem contribuir significativamente para reduzir o impacto metabólico da menopausa e melhorar a qualidade de vida das mulheres nas décadas seguintes.

Mensagem final para mulheres na transição menopausal e menopausadas

A mensagem mais importante que a ciência nos oferece é que o ganho de peso na menopausa não deve ser encarado como um destino inevitável. A mulher não está lutando contra falta de disciplina, mas contra uma série de adaptações biológicas que exigem novas estratégias. 

Quando alimentação adequada, treinamento de força, sono de qualidade, correção de deficiências nutricionais, atividade física regular e tratamento médico individualizado são combinados, torna-se possível não apenas evitar o ganho de peso, mas construir uma saúde metabólica mais robusta para as próximas décadas. A menopausa não precisa marcar o início do declínio físico. Para muitas mulheres, ela pode representar o começo de uma fase de maior consciência corporal, autocuidado e longevidade saudável.







Perguntas Frequentes sobre ganho de peso na menopausa (FAQ)

1. É normal engordar durante a menopausa?

Sim. Muitas mulheres percebem aumento de peso durante a transição menopausal, mas a ciência mostra que parte desse ganho está relacionada ao envelhecimento natural. O que realmente muda de forma importante na menopausa é a composição corporal. Há tendência de perda de massa muscular e aumento da gordura visceral, especialmente na região abdominal. Essas alterações podem ocorrer mesmo quando o peso na balança muda pouco. Por isso, mais importante do que acompanhar apenas o peso é monitorar a circunferência abdominal e a composição corporal.

2. Por que minha barriga aumentou mesmo sem eu ganhar muito peso?

A queda do estrogênio favorece a redistribuição da gordura corporal. Durante a vida fértil, a gordura tende a se acumular mais nos quadris e coxas. Após a menopausa, ocorre migração para a região abdominal, aumentando a gordura visceral. Esse tipo de gordura fica ao redor dos órgãos internos e está associado a maior risco de diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares. Por isso, muitas mulheres percebem aumento da cintura mesmo mantendo peso semelhante ao de anos anteriores.

3. A menopausa desacelera o metabolismo?

De forma indireta, sim. mas não tem o impacto tão grande como muitos acreditam. O metabolismo tende a diminuir principalmente devido à perda progressiva de massa muscular associada ao envelhecimento e à menopausa. Como o músculo é um tecido metabolicamente ativo, sua redução diminui o gasto energético diário, mas não de forma tão relevante como muitos acreditam. Por isso, preservar a musculatura torna-se uma das principais estratégias para manter um metabolismo mais alto e saudável.

4. O estrogênio influencia o ganho de peso?

Sim. O estrogênio participa do controle do apetite, da distribuição da gordura corporal, da sensibilidade à insulina e do gasto energético. Quando seus níveis diminuem, ocorre maior tendência ao acúmulo de gordura abdominal e aumento da resistência insulínica. Além disso, a deficiência estrogênica pode favorecer alterações no sono e no humor, fatores que também influenciam o comportamento alimentar. Por isso, o estrogênio é considerado um importante regulador metabólico feminino.

5. O que é gordura visceral e por que ela preocupa tanto?

A gordura visceral é aquela que se acumula ao redor dos órgãos internos dentro da cavidade abdominal. Diferentemente da gordura localizada logo abaixo da pele, ela produz substâncias inflamatórias que aumentam o risco de doenças metabólicas. Estudos mostram associação entre excesso de gordura visceral e diabetes tipo 2, hipertensão arterial, esteatose hepática e doença cardiovascular. Por esse motivo, a redução da gordura visceral é uma prioridade terapêutica na menopausa.

6. Posso emagrecer normalmente após a menopausa?

Sim. Embora o emagrecimento possa se tornar mais desafiador, ele continua sendo perfeitamente possível. A diferença é que estratégias que funcionavam aos 30 anos nem sempre apresentam os mesmos resultados aos 50. Atualmente, sabe-se que a combinação entre alimentação adequada, treinamento de força, sono de qualidade e acompanhamento médico pode produzir excelentes resultados. O segredo é adaptar as intervenções às mudanças hormonais e metabólicas dessa fase.

7. Qual é a melhor dieta para mulheres na menopausa?

Não existe uma única dieta ideal para todas as mulheres. Entretanto, o padrão alimentar mediterrâneo possui uma das melhores evidências científicas disponíveis. Ele prioriza frutas, vegetais, leguminosas, azeite de oliva, oleaginosas e peixes. Esse padrão alimentar ajuda a reduzir inflamação, melhorar a sensibilidade à insulina e proteger a saúde cardiovascular. Além disso, costuma ser mais sustentável a longo prazo do que dietas extremamente restritivas.

8. Comer mais proteína ajuda a evitar o ganho de peso?

Sim. A proteína desempenha papel fundamental na preservação da massa muscular, especialmente durante a menopausa. Estudos sugerem ingestão entre 1,2 e 1,6 g/kg/dia para muitas mulheres nessa fase. Além de ajudar na manutenção muscular, a proteína aumenta a saciedade e contribui para o controle do apetite. Quando associada ao treinamento de força, torna-se uma das ferramentas mais importantes para proteger a composição corporal.

9. Musculação é realmente importante na menopausa?

Muito importante. Entre todas as estratégias estudadas, o treinamento resistido apresenta uma das evidências mais robustas para preservar massa muscular e reduzir gordura visceral. Além disso, melhora a sensibilidade à insulina, fortalece os ossos e contribui para a independência funcional durante o envelhecimento. Duas a quatro sessões semanais podem produzir benefícios significativos para a saúde metabólica e cardiovascular.

10. Caminhada ajuda a emagrecer na menopausa?

Sim, mas geralmente os melhores resultados acontecem quando a caminhada é associada ao treinamento de força. O exercício aeróbico melhora o condicionamento cardiovascular, aumenta o gasto calórico e contribui para a saúde metabólica. As recomendações atuais sugerem pelo menos 150 minutos semanais de atividade física moderada. Quando combinada com musculação, a caminhada torna-se ainda mais eficaz para controle do peso.

11. Dormir mal pode fazer eu ganhar peso?

Sim. A privação de sono altera hormônios relacionados à fome e à saciedade, favorecendo aumento do apetite e maior desejo por alimentos ricos em açúcar e gordura. Além disso, eleva os níveis de cortisol e pode piorar a resistência à insulina. Muitas mulheres apresentam piora do sono devido aos fogachos e à sudorese noturna. Tratar essas alterações frequentemente melhora também o controle do peso.

12. A terapia hormonal da menopausa emagrece?

Não. A terapia hormonal não deve ser prescrita com o objetivo de promover emagrecimento. Entretanto, estudos mostram que ela pode ajudar a reduzir o acúmulo de gordura abdominal e melhorar a composição corporal em mulheres adequadamente selecionadas. Seu principal benefício está na correção parcial do ambiente metabólico criado pela deficiência estrogênica. Ainda assim, ela não substitui alimentação adequada nem atividade física.

13. A testosterona ajuda a emagrecer mulheres na menopausa?

Atualmente não existem evidências científicas robustas que sustentem o uso rotineiro da testosterona para emagrecimento em mulheres. As principais sociedades médicas internacionais reconhecem apenas o tratamento do transtorno do desejo sexual hipoativo como indicação baseada em evidências e mesmo assim nem é em todos os casos. Não há comprovação consistente de benefícios para perda de peso, melhora da composição corporal ou prevenção do envelhecimento. Além disso, o uso inadequado pode causar efeitos adversos importantes. E mesmo com prescrição médica, na minha prática recebo muitas pacientes que ganharam peso, aumentaram o apetite e tiveram virilização após uso de testosterona. 

14. Os medicamentos como semaglutida e tirzepatida funcionam na menopausa?

Sim. Diversos estudos recentes demonstram que esses medicamentos podem promover perda significativa de peso e redução da gordura visceral em mulheres na menopausa com obesidade. Eles atuam ajudando a regular o apetite e melhorando a resistência insulínica. Entretanto, devem ser utilizados sob supervisão médica e como parte de uma estratégia mais ampla que inclua alimentação adequada, exercício físico e preservação da massa muscular.

15. Mulheres na menopausa perdem mais músculo durante o emagrecimento?

Podem perder, especialmente quando o emagrecimento ocorre sem treinamento de força e sem ingestão proteica adequada. Por isso, o objetivo do tratamento não deve ser apenas reduzir peso corporal. Preservar a massa muscular é essencial para manter o metabolismo ativo, reduzir o risco de fragilidade e melhorar a qualidade de vida. A combinação de proteína adequada e musculação ajuda a minimizar essa perda.

16. Resistência à insulina aumenta após a menopausa?

Frequentemente sim. A redução dos níveis de estrogênio favorece alterações na sensibilidade à insulina, especialmente quando ocorre aumento da gordura visceral. Esse processo pode facilitar o ganho de peso e aumentar o risco de diabetes tipo 2. A boa notícia é que atividade física regular, alimentação adequada e redução da gordura abdominal ajudam a melhorar significativamente a resistência insulínica.

17. É possível ganhar gordura mesmo sem mudar a alimentação?

Sim. Alterações hormonais, perda muscular, redução do gasto energético e piora da sensibilidade à insulina podem favorecer o acúmulo de gordura corporal mesmo sem grandes mudanças na ingestão alimentar. Isso ajuda a explicar por que tantas mulheres afirmam estar comendo da mesma forma e ainda assim percebem aumento da cintura. Nesses casos, a composição corporal costuma fornecer informações mais úteis do que o peso isolado.

18. A menopausa aumenta o risco de diabetes?

Sim. O aumento da gordura visceral e da resistência à insulina observados nessa fase contribuem para maior risco de diabetes tipo 2. Além disso, fatores como sedentarismo, excesso de peso e predisposição genética podem potencializar esse risco. Por isso, a menopausa representa uma oportunidade importante para revisar hábitos de vida e investir em prevenção cardiometabólica.

19. Qual é o exame mais importante para avaliar essas mudanças?

Além dos exames laboratoriais tradicionais, métodos de avaliação da composição corporal podem fornecer informações valiosas. A densitometria corporal total (DEXA), a bioimpedância e a medida da circunferência abdominal ajudam a identificar alterações que a balança não consegue mostrar. Avaliar massa muscular, gordura visceral e distribuição da gordura corporal permite uma abordagem muito mais precisa.

20. O ganho de peso na menopausa é inevitável?

Não. Embora a menopausa crie condições biológicas que favorecem o ganho de gordura abdominal, isso não significa que todas as mulheres irão necessariamente engordar. A combinação entre alimentação adequada, ingestão proteica suficiente, treinamento de força, sono de qualidade, controle do estresse e acompanhamento médico pode reduzir significativamente esse risco. Com estratégias baseadas em evidências, é possível atravessar essa fase preservando saúde, autonomia e qualidade de vida.

Referências Bibliográficas

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DAVIS, Susan R. et al. Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women. The Journal of Sexual Medicine, v. 16, n. 9, p. 1331-1337, 2019. DOI: 10.1016/j.jsxm.2019.07.012. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31488288/

GREENDALE, Gail A. et al. Changes in body composition and weight during the menopause transition. PubMed. Bethesda: National Library of Medicine, 2019. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30843880/

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INTERNATIONAL MENOPAUSE SOCIETY. IMS Recommendations on Women's Midlife Health and Menopause. Londres: International Menopause Society, 2026. Disponível em: https://www.imsociety.org/wp-content/uploads/2026/03/IMS-Recommendations-Full-Document.pdf

ROBINSON, J. A. et al. Management of obesity in the menopause transition and postmenopausal period. Surgery for Obesity and Related Diseases, 2026.

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Autor: Dr. Frederico Lobo - Médico Nutrólogo - CRM-GO 13192 - RQE 11915 - Gostou do texto e quer conhecer mais sobre minha pratica clínica, clique aqui. 

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