Saúde mental em crise: por que os transtornos psiquiátricos estão aumentando e o que fazer?



Entenda por que ansiedade e depressão estão aumentando, os impactos da nutrição, estilo de vida e microbiota, e como cuidar da saúde mental de forma integrada.


Durante um período da minha vida profissional, evitei atender pacientes com transtornos psiquiátricos. Isso vinha de uma dor pessoal: a perda do meu pai, após um tratamento inadequado de transtorno bipolar. Apesar de sempre ter gostado muito de psiquiatria, eu não me sentia seguro. Existia uma crença silenciosa: “eu preciso resolver o problema do paciente.”

Com o tempo e com a prática, entendi algo essencial: nem todo cuidado é sobre resolver, mas sim sobre acompanhar, direcionar e cuidar junto. E hoje, ironicamente, grande parte dos pacientes que recebo apresenta sintomas como:
  • Ansiedade
  • Depressão
  • Síndrome do pânico
  • Transtorno bipolar
  • Burnout
  • TDAH
E o que me preocupa é a alta prevalência especialmente em profissionais da saúde e da segurança pública. Brinco que ambos são grupo de risco e que negligenciam isso.

Um cenário que mudou rapidamente

Nos últimos anos, a saúde mental deixou de ser um tema secundário para se tornar uma das principais preocupações da medicina moderna. O aumento de casos de ansiedade, depressão e burnout é perceptível não apenas em estatísticas, mas principalmente na prática clínica diária. 

O que antes era considerado pontual hoje se tornou rotina. Como relatei acima, pcientes chegam cada vez mais esgotados, emocionalmente fragilizados e com dificuldade de lidar com demandas simples da vida. Esse fenômeno não é isolado, tampouco casual. Ele reflete mudanças profundas no estilo de vida contemporâneo.

Durante a pandemia de COVID-19, percebi um aumento expressivo de transtornos mentais em todo o mundo. O isolamento social, o medo da doença e as incertezas econômicas funcionaram como gatilhos importantes. No entanto, reduzir o problema apenas à pandemia seria simplificar demais. Na verdade, ela apenas acelerou um processo que já estava em curso há anos. A crise sanitária escancarou fragilidades emocionais que já vinham sendo construídas silenciosamente.

No consultório, essa mudança se traduz em um dado preocupante: é cada vez mais raro encontrar pacientes sem algum grau de sofrimento psíquico. Mesmo aqueles que buscam atendimento por questões físicas frequentemente apresentam sintomas associados, como ansiedade, insônia ou desmotivação. Isso reforça a ideia de que corpo e mente são indissociáveis. Ignorar essa conexão é comprometer o tratamento como um todo.

Estamos realmente mais ansiosos e deprimidos?

A dúvida é legítima: estamos mais doentes ou apenas diagnosticando melhor? A resposta, baseada em estudos recentes e na minha prática clínica como nutrólogo, mas também com conversa com amigos psicólogos/psiquiatras, aponta para ambos os cenários. 

A gente percebe que houve avanço no reconhecimento dos transtornos mentais, o que aumentou o diagnóstico. Porém, também existe um aumento real na incidência dessas condições, impulsionado por fatores ambientais e comportamentais. Além disso, o que antes era tabu (procura de psicólogo/psiquiatra), tem deixado de ser, ou seja, as pessoas estão se sentido mais a vontade para pedir ajuda.

A sociedade atual impõe um ritmo de vida acelerado, com alta cobrança por desempenho e produtividade. Esse contexto gera um estado de alerta constante, ativando de forma crônica os mecanismos de estresse do organismo. Com o tempo, essa ativação contínua leva à exaustão emocional e ao adoecimento. Não se trata apenas de sentir-se cansado, mas de um desgaste profundo que compromete a capacidade de funcionar.

Além disso, a cultura da comparação, amplificada principalmente pelas redes sociais, contribui significativamente para a insatisfação pessoal. A exposição constante a padrões irreais de sucesso, beleza e felicidade cria uma sensação de inadequação. Isso afeta diretamente a autoestima e pode desencadear ou agravar quadros de ansiedade e depressão. E aqui deixo um alerta, o problema não está apenas no uso da tecnologia, mas na forma como ela molda nossas percepções. 

O papel da genética e das experiências de vida

A genética desempenha um papel importante na predisposição a transtornos mentais. Estudos com gêmeos univitelinos mostram que condições como depressão e transtorno bipolar possuem fator genético significativo. No entanto, ter predisposição genética não significa necessariamente que todos os casos vão desenvolver determinado transtorno psiquiátrico. Hoje a gente já sabe que o ambiente e as experiências de vida são determinantes nesse processo. Chamo isso pros pacientes arquitetura do esgotamento.



Traumas vividos na infância e adolescência têm impacto profundo na saúde mental ao longo da vida. Situações como abuso, negligência ou instabilidade emocional podem alterar a forma como o cérebro responde ao estresse. Essas experiências modulam o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, tornando o indivíduo mais vulnerável a transtornos futuros.

Além dos traumas, o suporte emocional e social também influencia diretamente o desfecho. Ambientes acolhedores e relações saudáveis funcionam como fatores de proteção. Por outro lado, isolamento, conflitos familiares e falta de suporte aumentam o risco de adoecimento. A saúde mental é construída ao longo da vida, em interação constante com o meio.

Estresse crônico e estresse agudo

O estresse é uma resposta natural do organismo, essencial para a sobrevivência. No entanto, quando se torna crônico, passa a ser prejudicial. O estresse contínuo mantém níveis elevados de cortisol, o que impacta negativamente o humor, o sono e a cognição. Esse estado de alerta constante impede o organismo de se recuperar adequadamente.

Já o estresse agudo está relacionado a eventos específicos, como perdas, separações ou mudanças importantes. Embora seja esperado que esses eventos causem sofrimento, a forma como são elaborados faz toda a diferença. Pessoas com menor capacidade de adaptação podem desenvolver transtornos a partir dessas experiências.

A combinação entre estresse crônico e eventos agudos é particularmente perigosa. Quando o organismo já está sobrecarregado, qualquer evento adicional pode funcionar como gatilho. Isso explica por que algumas pessoas desenvolvem sintomas após situações que, aparentemente, seriam manejáveis.

Nutrição e saúde mental

A relação entre nutrição e saúde mental tem ganhado destaque nos últimos anos. O cérebro depende de nutrientes específicos para funcionar adequadamente. Deficiências nutricionais podem comprometer a síntese de neurotransmissores e afetar diretamente o humor.

Nutrientes como vitaminas do complexo B, magnésio, zinco e aminoácidos são essenciais para a produção de serotonina, dopamina e GABA. Quando há deficiência, o equilíbrio neuroquímico é prejudicado. Isso pode contribuir para sintomas como irritabilidade, ansiedade e tristeza.

Além disso, dietas ricas em alimentos ultraprocessados estão associadas a maior risco de depressão. Esses alimentos promovem inflamação e alteram o metabolismo, impactando negativamente o funcionamento cerebral. A alimentação, portanto, deve ser vista como parte do tratamento.

Mas aqui vale um adendo, muitos pacientes agendam acreditando que o tratamento nutrológico é que resolverá os sintomas psiquiátricos. Brinco que não vendo ilusões, então sou bem pé no chão quando dse trata de psiquiatria nutricional. Infelizmente, alguns charlatões vendem essa ideia de que a alimentação revolucionará o corpo, mudará os pensamentos dos pacientes. Deveria ser crime vender esse tipo de idéia. Quem trabalha com ciência compreende que há sim impacto da alimentação, mas outros fatores são mais decisivos. Já esquevi sobre isso aqui no blog: 

Fato ou fake em psiquiatria nutricional: https://www.ecologiamedica.net/2025/12/fato-ou-fake-em-psiquiatria-nutricional.html

Abordagem nutricional dos transtornos psiquiátricos: https://www.ecologiamedica.net/2022/05/abordagem-nutricional-dos-transtornos.html

Inflamação e cérebro

A hipótese inflamatória da depressão tem sido amplamente estudada. Estados inflamatórios crônicos aumentam a liberação de citocinas, que interferem na função cerebral. Esse processo pode afetar neurotransmissores e circuitos relacionados ao humor.

Condições como obesidade, resistência à insulina e doenças crônicas estão associadas a inflamação de baixo grau. Esse ambiente inflamatório favorece o surgimento de sintomas depressivos. A saúde mental, nesse contexto, não pode ser dissociada da saúde metabólica.

Reduzir a neuro-inflamação por meio de alimentação adequada, atividade física e sono de qualidade pode ter impacto no bem-estar emocional. Essa abordagem integrada é cada vez mais valorizada na medicina moderna.

O eixo intestino-cérebro

O intestino é erroneamente chamado de “segundo cérebro”. Isso ocorre porque ele possui uma rede complexa de neurônios e se comunica diretamente com o sistema nervoso central. A microbiota intestinal desempenha papel fundamental nesse processo. Além da questão do intestino produzir serotonina, mas uma coisa é a serotonina intestinal e outra é presente na fenda sináptica, ou seja, serotonina no cérebro. 

Alterações na microbiota, conhecidas como disbiose, estão associadas a ansiedade e depressão. Isso ocorre porque bactérias intestinais influenciam a produção de neurotransmissores e modulam a inflamação. O impacto real disso é o que a ciência tenta decifrar. Ainda temos mais perguntas que respostas. Mas uma coisa deixo claro para os pacientes, cuidar da saúde intestinal, por meio de alimentação adequada e hábitos saudáveis, pode melhorar a saúde mental de alguns pacientes. 

O impacto do estilo de vida moderno

O estilo de vida atual é caracterizado por excesso de estímulos e falta de recuperação. A privação de sono, por exemplo, afeta diretamente o humor e a capacidade de lidar com o estresse. Dormir mal não é apenas desconfortável, é prejudicial à saúde mental.

A exposição excessiva à luz artificial, especialmente à noite, interfere no ritmo circadiano. Isso prejudica a produção de melatonina e compromete o sono. Com o tempo, esse desajuste impacta o funcionamento cerebral.

O sedentarismo também contribui para o adoecimento mental. A atividade física tem efeito comprovado na redução de sintomas de ansiedade e depressão. Movimentar o corpo é uma das estratégias mais eficazes de cuidado.

Falar importa e é peça chave nesse contexto

Diante de tantos fatores envolvidos, fica claro que a saúde mental exige uma abordagem multidisciplinar. A psicoterapia é uma ferramenta fundamental nesse processo, na minha visão a mais importante, até mais que a farmacoterapia. Ela permite compreender padrões de pensamento e desenvolver estratégias mais saudáveis.

Falar sobre sentimentos não resolve todos os problemas, mas muda a forma como lidamos com eles. Isso reduz o impacto emocional e melhora a qualidade de vida. A terapia é, acima de tudo, um espaço de construção.

Mas é importante deixar claro que o acompanhamento psiquiátrico também pode ser necessário em vários casos. O uso de medicação, quando bem indicado, pode ser essencial e salvar vidas, promover melhor qualidade de vida. O importante é entender que buscar ajuda é um ato de cuidado, não de fraqueza, visto que, apesar dos avanços, ainda há preconceito com medicações psiquiátricas, bem menos que no passado, mas ainda existe. E o que me preocupa são pacientes que postergam por preconceito o tratamento farmacológico, achando que só psicoterapia, dieta e exercício vão "curá-lo". 

A saúde mental não pode mais ser vista de forma isolada. Ela é resultado da interação entre mente, corpo e ambiente. Ignorar qualquer um desses aspectos compromete o tratamento. Vivemos em um cenário desafiador, mas também com mais conhecimento e recursos do que nunca. Isso nos permite abordar o problema de forma mais completa e eficaz. Se existe uma recomendação essencial, é esta: cuide da sua saúde mental, faça terapia. 




FAQ – Perguntas frequentes sobre saúde mental

Ansiedade e depressão estão realmente aumentando?
Sim, há aumento real, impulsionado por fatores como estilo de vida, pandemia e uso excessivo de tecnologias em especial redes sociais.

A genética determina transtornos mentais?
Ela influencia, mas o ambiente e hábitos têm papel fundamental.

A alimentação interfere na saúde mental?
Sim. Nutrientes são essenciais para a produção de neurotransmissores, mas não tem o impacto gingantesco como muitos acreditam.  Vale a pena ler esses posts:

https://www.ecologiamedica.net/2022/05/abordagem-nutricional-dos-transtornos.html

https://www.ecologiamedica.net/2024/05/ultraprocessados-estudo-associa-consumo.html

https://www.ecologiamedica.net/2023/05/a-ligacao-entre-alimentos-altamente.html

https://www.ecologiamedica.net/2024/05/estudo-evidencia-que-alto-consumo-de.html

O intestino influencia o cérebro?
Sim. O eixo intestino-cérebro é uma das áreas mais estudadas atualmente.

Falta de sono pode causar ansiedade?
Sim. A privação de sono altera neurotransmissores e aumenta o estresse.

Redes sociais pioram a saúde mental?
Podem piorar, especialmente pelo excesso e comparação constante.

Exercício físico ajuda na depressão?
Sim. É uma das intervenções mais eficazes.

Terapia é necessária para todos?
Não obrigatoriamente, mas é altamente recomendada. Eu indico para todos os meus pacientes. O maios obstáculo encontro chama-se: Custo ! E quando isso ocorre, recorro a plataformas com valor social.

Quando procurar um psiquiatra?
Quando há sintomas persistentes ou prejuízo funcional, mesmo estando em acompanhamento psicoterápico.

Suplementos ajudam na saúde mental?
A maioria não. Alguns podem ajudar, mas não substituem tratamento adequado. Geralmente ajudam quando há um déficit laboratorial de determinado nutriente. 

O estresse pode causar depressão?
Sim, especialmente quando crônico.

Inflamação tem relação com depressão?
Sim. Estudos mostram forte associação.

Crianças podem desenvolver transtornos mentais?
Sim, principalmente após traumas.

Burnout é considerado um transtorno mental?
É uma síndrome relacionada ao trabalho, com impacto psicológico significativo.

Qual o primeiro passo para melhorar a saúde mental?
Reconhecer o problema e buscar ajuda profissional: psicólogo e psiquiatra. Desde 2018 atualizo uma lista de profissionais que confio: https://www.nutrologogoiania.com.br/profissionais-que-confio/



Autor: Dr. Frederico Lobo - Médico Nutrólogo - CRM-GO 13192 - RQE 11915 - Gostou do texto e quer conhecer mais sobre minha pratica clínica, clique aqui. 

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Sou o Dr. Frederico Lobo, médico nutrólogo titulado pela ABRAN, e desde 2010 produzo conteúdo sobre nutrologia, alimentação, metabolismo, prevenção de doenças e medicina do estilo de vida. Acompanhe meus materiais nas outras plataformas:

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