Neste exato momento, você abriga um universo no seu intestino. Cerca de 100 trilhões de microrganismos (bactérias, vírus, protozoários, arqueas e fungos) habitam seu trato gastrointestinal, formando um ecossistema complexo que dita o ritmo da sua saúde.
Em um estado de equilíbrio, esses inquilinos são seus maiores aliados na digestão e na imunidade. No entanto, o estilo de vida moderno está quebrando esse "tratado de paz". O caso mais emblemático é o da Candida albicans: um fungo que normalmente reside de forma pacífica em nós, mas que, sob as condições erradas, sofre uma transformação drástica de comensal inofensivo para um patógeno invasivo, capaz de comprometer sua vitalidade de forma silenciosa e profunda.
O perigo oculto da dieta ocidental e a "outra" levedura
A globalização impôs o que chamamos de "dieta ocidental", um padrão rico em gorduras saturadas, açúcares refinados e alimentos ultraprocessados, mas dramaticamente pobre em fibras.
Esse processamento industrial não apenas retira nutrientes, mas elimina micróbios benéficos, favorecendo a disbiose, o desequilíbrio da microbiota.
Quando consumimos excesso de açúcar e gordura, alteramos a barreira intestinal, facilitando a translocação de lipopolissacarídeos (LPS) para o sangue, o que gera uma inflamação sistêmica constante.
Além da onipresente C. albicans, a ciência agora volta os olhos para a Candida glabrata. Diferente de sua "prima" mais famosa, a C. glabrata tem uma habilidade única de manter a disbiose e a inflamação de longo prazo, tornando-se um obstáculo persistente para quem busca recuperar a saúde intestinal.
Estudos clínicos demonstram que a prevalência de C. albicans é significativamente maior em indivíduos obesos em comparação com aqueles com peso saudável, evidenciando que o excesso de tecido adiposo e a dieta inflamatória criam o ambiente perfeito para o supercrescimento fúngico.
Fibras: O combustível para a defesa antifúngica
Se você quer combater fungos, precisa alimentar suas bactérias "boas" com fibras fermentáveis. Quando essas fibras chegam ao cólon, a microbiota as transforma em ácidos graxos de cadeia curta (SCFAs), como o acetato, o propionato e o butirato.
Esses metabólitos são verdadeiras chaves biológicas: eles se ligam aos receptores GPR41 e GPR43 nas células intestinais, disparando a liberação de hormônios como GLP-1 e PYY, que regulam o metabolismo da glicose e a saciedade.
O butirato de sódio, especificamente, é um potente inibidor direto do crescimento da Candida, impedindo que ela forme hifas (os filamentos invasivos que perfuram os tecidos).
Células Th17 específicas para C. albicans são vitais para a integridade da barreira epitelial; elas produzem citocinas como IL-17 e IL-22, que protegem o intestino contra lesões e evitam que o fungo escape para a corrente sanguínea.
Além do prato: Os vilões do estilo de vida
O equilíbrio intestinal é moldado por cada escolha do seu dia a dia. Veja como outros fatores podem "abrir a porta" para a colonização fúngica:
- Estresse Crônico: O estresse altera a estabilidade da microbiota, reduzindo a abundância de Bacteroides e aumentando a de Clostridia. Além disso, diminui a produção de óxido nítrico pelos macrófagos, enfraquecendo a capacidade do corpo de destruir fungos.
- Tabagismo: O hábito de fumar altera a ecologia oral e reduz a atividade dos neutrófilos. O risco de uma infecção por Candida na boca é 7 vezes maior em fumantes do que em não fumantes.
- Álcool em excesso: Facilita a translocação de β-glucanos fúngicos para o sangue, o que pode agravar doenças hepáticas e aumentar a mortalidade em pacientes com hepatite alcoólica.
- Sedentarismo: A falta de movimento está ligada à inflamação. Em contrapartida, o exercício moderado aumenta a capacidade fagocítica dos neutrófilos contra a Candida.
- Antibióticos de amplo espectro: Ao eliminar as bactérias que competem por espaço e nutrientes, o uso prolongado de antibióticos cria um "vácuo" que é rapidamente preenchido por fungos oportunistas.
A "Farmácia Natural" na sua cozinha
Como nutrólogo e acadêmico de Nutriição, recomendo utilizar alimentos não apenas como calorias, mas como auxiliar na nossa saúde intestinal. Obviamente que como médico, quando necessário usarei medicações (seja antbióticos ou antifúngicos), mas sempre estimularei o consumo de alimentos ricos em compostos bioativos com ação direta ou indireta nesse ecossistema intestinal. Então aqui estão as substâncias com mais evidência na saúde intestinal:
- Alho (Allium sativum): Para liberar seu potencial máximo, o alho deve ser esmagado fresco. Isso libera a alicina e o ajoene, que em estudos in vitro inibem o crescimento fúngico e impedem a transição da levedura para a forma invasiva.
- Óleo de Coco: Rico em ácido láurico e monolaurina, ele altera o programa metabólico da Candida, tornando-a menos agressiva e reduzindo sua colonização. Atenção se você possui dislipidemia. Não indico óleo de coco para pacientes com aumento do LDL ou com risco para infarto, AVC ou com diabetes.
- Especiarias (Canela, Capim-Limão, Gengibre): Seus óleos essenciais, como o cinamaldeído e o citral, alteram fisicamente a membrana do fungo.
- Vinagre de Maçã: Ajuda a aumentar a atividade fagocítica dos monócitos contra a Candida, além de reduzir sua viabilidade.
- Própolis
- Cítricos
Micronutrientes Essenciais:
- Vitamina D: Atua como um fungicida direto, alterando a integridade da membrana celular fúngica. Fonte: Sol, óleo de fígado de bacalhau, cogumelos expostos ao sol.
- Vitamina E: Possui propriedades anti-inflamatórias ao suprimir a atividade de proteínas inflamatórias como o NF-κB. Fonte: trigo, gérmen de trigo, oleaginosas, abacate, óleos vegetais.
- Selênio: Nanopartículas de selênio podem danificar a estrutura da Candida ao substituir o enxofre pelo selênio em sua composição química. Fonte: Castanha do Pará, carnes, ovos.
Probióticos e a estratégia "Levedura contra Levedura"
Na restauração da microbiota, o uso de Lactobacillus e Bifidobacterium é fundamental para baixar o pH intestinal, criando um ambiente hostil para fungos. Um destaque interessante é o uso do Saccharomyces boulardii, uma levedura benéfica que, ironicamente, ajuda a diminuir a colonização por C. albicans.
Alimentos fermentados como chucrute (sauerkraut) e kimchi (que contêm cepas como L. plantarum) não apenas fornecem probióticos, mas também aumentam os níveis de IgA secretora, fortalecendo a imunidade da mucosa.
Porém, muitas vezes somente ajustar a alimentação, colocar fitoquímicos ou dar prebióticos não resolvem o quadro clínico do paciente. Nesse caso utilizamos alguns antifúngicos de prescrição médica ou se tiver supercrescimento bacteriano dos 4 tipos, usamos antibióticos isolados ou combinados.
Artigo original: JAWHARA, Samir. Healthy diet and lifestyle improve the gut microbiota and help combat fungal infection. Microorganisms, Basel, v. 11, n. 6, p. 1556, 2023. DOI: https://doi.org/10.3390/microorganisms11061556
Autor: Dr. Frederico Lobo - Médico Nutrólogo - CRM-GO 13192 - RQE 11915 - Gostou do texto e quer conhecer mais sobre minha pratica clínica, clique aqui.

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