Lugol e suplementação de iodo: você realmente precisa?
Toda semana recebo, em consultório particular e também no ambulatório de nutrologia no SUS, pacientes utilizando algum tipo de iodo por conta própria, seja solução de Lugol, seja iodo quelato. Antes não era tão comum, mas agora tem aparecido cada vez mais. Muitos chegam motivados por promessas vistas na internet sobre “regular a tireoide”, “acelerar o metabolismo” ou até “prevenir doenças”. Principalmente vídeos no YouTube e TikTok.
Como médico nutrólogo em Goiânia, com prática baseada em evidências e sem modismos, considero fundamental esclarecer esse tema com responsabilidade. Afinal nutrólogo cuida dos nutrientes e o iodo é um micronutriente essencial, mas isso não significa que quanto mais, melhor. Em saúde, excesso também é problema. E quando falamos de tireoide, o equilíbrio é tudo.
Preciso salientar que quando o assunto é tireóide, o nutrólogo não é o profissional mais indicado para tratar as disfunções da glândula. Podemos pedir os exames, a ultrassonografia etç, mas o tratamento e acompanhamento deverá ser feito por um endocrinologista, ou seja, especialista em endocrinologia, com Registro de qualificação de especialista (RQE) de endócrino. Então, se você precisa de indicação de profissionais em Goiânia, no meu site há uma lista com 14 profissionais que confio:
https://www.nutrologogoiania.com.br/a-nutrologia/nutrologo-e-endocrinologista/
O interesse pelo Lugol cresceu nos últimos anos, impulsionado por discursos simplificados e soluções mágicas para problemas complexos. É compreensível que pessoas busquem alternativas quando enfrentam fadiga, ganho de peso ou alterações hormonais. No entanto, antes de iniciar qualquer suplementação, especialmente envolvendo hormônios tireoidianos, é essencial avaliar o contexto clínico e laboratorial. A consulta com nutrólogo ou endocrinologista permite analisar exames, sintomas e histórico familiar de forma individualizada. A prescrição responsável exige critério técnico e ética médica. Não existe atalho seguro quando o assunto é função tireoidiana. Novamente volto a dizer: o profissional mais habilitado para prescrever hormônios tireoideanos é o endocrinologista, não o nutrólogo.
Funções do iodo e políticas de iodação
O iodo é indispensável para a síntese dos hormônios tireoidianos T3 e T4. Sem ele, o organismo não consegue produzir adequadamente esses hormônios, que regulam metabolismo, crescimento e desenvolvimento neurológico. No início do século XX, a deficiência de iodo era um grave problema de saúde pública na América Latina. Casos de bócio endêmico, atraso no desenvolvimento cognitivo e hipotireoidismo neonatal eram frequentes. Diante disso, políticas públicas foram implementadas para corrigir essa carência. A iodação do sal foi uma das estratégias mais importantes nesse processo.
No Brasil, a iodação do sal tornou-se obrigatória por legislação específica a partir da década de 1970, com ajustes ao longo dos anos. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) passou a monitorar os teores de iodo no sal comercializado. Essa política foi fundamental para reduzir a deficiência grave de iodo na população.
Entretanto, em determinados períodos, houve excesso de iodação, o que também trouxe consequências. Ou seja, saímos de um cenário de deficiência para outro em que o excesso passou a ser motivo de preocupação em algumas regiões.
Estudos sugerem que, após a intensificação da iodação do sal, parte da população brasileira passou a apresentar ingestão acima do recomendado. Pesquisas com escolares identificaram níveis elevados de iodo urinário, indicador utilizado para avaliar o status iódico populacional.
A concentração urinária ideal varia dentro de uma faixa considerada adequada, e valores persistentemente elevados indicam excesso. Dados variam entre regiões, mas a preocupação com sobrecarga de iodo não é recente. Isso reforça a necessidade de cautela ao propor suplementação indiscriminada.
A Organização Mundial da Saúde recomenda ingestão diária de iodo em torno de 100 a 150 microgramas para a população geral. Gestantes e lactantes apresentam maior necessidade, podendo demandar cerca de 200 microgramas por dia. Ainda assim, há um limite superior de segurança, e ultrapassá-lo de forma crônica pode trazer riscos. Uma alimentação habitual com consumo regular de sal iodado já fornece quantidades significativas de iodo. Considerando que muitos brasileiros consomem sal acima do recomendado, o aporte total tende a ser suficiente ou até elevado.
E o Lugol a 5%?
A solução de Lugol 5%, que é composta por iodeto de potássio (10%), iodo elementar inorgânico (5%) e água destilada, contem 2500 µg de iodo em cada gota, ou seja, mais que 10 vezes a recomendação da OMS. Portanto, utilizá-lo como “suplemento” rotineiro não é equivalente a ingerir pequenas doses fisiológicas. Trata-se de uma quantidade farmacológica, com potencial de impactar a fisiologia tireoidiana e na medicina, a dose faz o remédio ou o veneno.
A solução de Lugol 5% é usada na medicina há muitos anos. Ela tem várias aplicações importantes, principalmente em exames do aparelho digestivo, em cirurgias da tireoide e na identificação de lesões que podem evoluir para câncer.
Um dos usos mais conhecidos é durante a endoscopia digestiva, especialmente para avaliar o esôfago. Nessa situação, o médico aplica a solução de Lugol (em concentrações entre 0,5% e 3%) diretamente na mucosa do esôfago. O iodo presente na solução é absorvido pelas células normais, que são ricas em glicogênio, fazendo com que elas fiquem com uma coloração marrom-escura ou marrom-esverdeada. Já as áreas alteradas, como lesões pré-cancerígenas ou câncer inicial, não absorvem bem o iodo e, por isso, permanecem claras. Essa diferença de cor ajuda o médico a identificar com mais precisão regiões suspeitas.
Sociedades médicas, como a American Gastroenterological Association, recomendam o uso do Lugol para melhorar a visualização de lesões precoces do esôfago em pessoas com maior risco. Isso inclui, por exemplo, pacientes com câncer de cabeça e pescoço, fumantes de longa data e pessoas que consomem álcool em excesso. Nesses grupos, a detecção precoce pode fazer grande diferença no prognóstico.
Outra aplicação importante da solução de Lugol é no tratamento pré-operatório da doença de Graves, que é uma forma de hipertireoidismo (quando a tireoide produz hormônios em excesso). Antes da cirurgia para retirada da tireoide, o paciente pode usar Lugol 5% por via oral, geralmente em pequenas quantidades, algumas vezes ao dia. O iodo, nesse contexto, ajuda a reduzir temporariamente a liberação de hormônios tireoidianos e também diminui o fluxo de sangue na glândula. Isso torna a cirurgia mais segura, pois reduz o risco de sangramento.
Estudos mostram que o uso do Lugol antes da cirurgia consegue diminuir significativamente o fluxo sanguíneo na tireoide e melhorar as condições locais da glândula em casos de bócio tóxico difuso. O efeito costuma durar alguns dias a semanas.
Além disso, o Lugol também pode ser usado para identificar lesões suspeitas na cavidade oral, no rastreamento de alterações no colo do útero (em um método chamado inspeção visual com iodo de Lugol, ou VILI) e como parte do tratamento complementar em casos de crise tireotóxica, uma complicação grave do hipertireoidismo.
Em geral, os efeitos colaterais da solução de Lugol são leves e temporários. Algumas pessoas podem sentir desconforto atrás do esterno (região do peito), náuseas ou irritação no esôfago. O uso deve ser feito com cuidado em pessoas que têm alergia ou sensibilidade ao iodo.
Lugol e o efeito Wolff-Chaikoff e Jod-Basedow
Entre os efeitos do excesso de iodo, destacam-se alterações na função tireoidiana. Um dos mecanismos conhecidos é o efeito Wolff-Chaikoff, em que uma sobrecarga aguda de iodo pode inibir temporariamente a síntese hormonal, levando a quadro de hipotireoidismo.
Em outros contextos, pode ocorrer o efeito Jod-Basedow, com indução de hipertireoidismo, especialmente em indivíduos com doença tireoidiana prévia. Além disso, estudos associam ingestão excessiva de iodo ao aumento de tireoidites autoimunes, como a tireoidite de Hashimoto. Esses fenômenos ilustram como o equilíbrio é delicado.
No meu dia a dia como nutrólogo em Goiânia, é comum atender pacientes que iniciaram Lugol por conta própria (ou indicado por profissionais da saúde que publicam vídeos no YouTube) e evoluíram com piora de exames como TSH, T4 livre ou anticorpos antitireoidianos. Nem sempre os sintomas são imediatos, mas alterações laboratoriais podem surgir ao longo de semanas ou meses. Isso gera ansiedade, confusão diagnóstica e, muitas vezes, necessidade de ajustes terapêuticos adicionais. O que poderia ser acompanhado de forma simples torna-se mais complexo. Evitar intervenções desnecessárias é parte essencial da boa prática médica.
O que dizem as sociedades médicas sobre o Lugol?
A
Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) orienta em seu parecer que a solução de Lugol não deve ser prescrita com o objetivo de suplementação rotineira de iodo. Seu uso é indicado apenas em situações muito específicas, como no preparo pré-operatório de pacientes com doença de Graves ou em crise tireotóxica. Nessas circunstâncias, o objetivo é reduzir temporariamente a liberação hormonal ou a vascularização da glândula. Trata-se de uso de curto prazo e sob rigoroso acompanhamento. Fora desses cenários, não há respaldo científico robusto para uso preventivo ou generalizado.
A American Thyroid Association também recomenda suplementação de iodo em contextos específicos, principalmente para gestantes e lactantes em regiões com deficiência comprovada. Mesmo assim, a dose indicada é fisiológica, não farmacológica.
Estudos sugerem que, em países com iodação adequada do sal, a maioria da população já atinge as necessidades diárias por meio da alimentação. No Brasil, ainda há necessidade de monitoramento contínuo do status iódico, especialmente após ajustes nas concentrações de iodo no sal. Generalizações devem ser evitadas.
Avaliar antes de suplementar: o caminho mais seguro
Se existe suspeita de deficiência de iodo, o exame de iodúria de 24 horas pode ajudar a avaliar o status individual. No entanto, é importante interpretar o resultado dentro do contexto clínico. Sintomas como cansaço, queda de cabelo ou ganho de peso não são específicos de deficiência de iodo e podem ter múltiplas causas. Em minha prática clínica, raramente encontro deficiência comprovada laboratorialmente. Por isso, antes de iniciar qualquer suplemento, é fundamental investigar adequadamente.
É compreensível que discursos simplificados sejam atraentes. A ideia de que um único elemento pode “regular a tireoide” soa sedutora. No entanto, a fisiologia humana é complexa. A tireoide interage com hipófise, hipotálamo, sistema imunológico e estado nutricional global. Corrigir um possível desequilíbrio exige visão ampla. Em muitos casos, o foco deve estar em alimentação equilibrada, sono adequado, controle do estresse e acompanhamento médico regular. O iodo é apenas uma peça desse quebra-cabeça.
Outro ponto importante é diferenciar suplementação de tratamento. Em pessoas com hipotireoidismo estabelecido, o tratamento padrão envolve reposição hormonal com levotiroxina, quando indicado. Não há evidência consistente de que altas doses de iodo revertam hipotireoidismo autoimune. Pelo contrário, o excesso pode agravar o processo inflamatório em indivíduos predispostos. Portanto, substituir terapias consolidadas por estratégias não validadas pode atrasar o controle adequado da doença.
Quando procurar ajuda especializada?
Se você apresenta alterações nos exames de tireoide, sintomas persistentes ou dúvida sobre uso de suplementos, o mais prudente é agendar uma avaliação médica. Uma consulta com um endocrinologista permite esclarecer riscos, benefícios e alternativas. Não recomendo interromper ou iniciar qualquer substância sem orientação profissional. Cada caso deve ser analisado individualmente.
Em síntese, o iodo é essencial, mas seu excesso pode trazer prejuízos à função tireoidiana. A solução de Lugol tem indicações médicas restritas e não deve ser utilizada como suplemento rotineiro. Estudos sugerem que a população brasileira, de modo geral, já recebe iodo suficiente por meio do sal iodado. Antes de seguir recomendações encontradas na internet, busque avaliação qualificada. Saúde não combina com improviso.
Bibliografia
FAREBROTHER, J.; ZIMMERMANN, M. B.; ANDERSSON, M. Excess iodine intake: sources, assessment, and effects on thyroid function. Annals of the New York Academy of Sciences, New York, v. 1446, n. 1, p. 44-65, jun. 2019. DOI: https://doi.org/10.1111/nyas.14041
Parecer da SBEM:
https://www.tireoide.org.br/wp-content/uploads/2020/07/parecer_sobre_o_uso_do_iodo_e_de_soluções_contendo_iodo.pdf
Autor: Dr. Frederico Lobo - Médico Nutrólogo - CRM-GO 13192 - RQE 11915 - Gostou do texto e quer conhecer mais sobre minha pratica clínica,
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Sou o Dr. Frederico Lobo, médico nutrólogo titulado pela ABRAN, e desde 2010 produzo conteúdo sobre nutrologia, alimentação, metabolismo, prevenção de doenças e medicina do estilo de vida. Acompanhe meus materiais nas outras plataformas:
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