Quando comecei esse blog em 2010, não se falava de microplásticos, mas sim de ftalatos e bisfenol A (BPA). Especulava-se muito, mas as evidências ainda eram fracas. Países proibiram a utilização de BPA, a própria indústria de utensílios começou a colocar nas embalagens que seus produtos eram livres de BPA. Porém, ainda não temos tantas evidências robustas sobre essas substâncias na saúde dos seres vivos (humanos, animais, plantas). Temos indícios, mas não evidências fortes. Talvez nunca teremos e baseado nisso prefiro "pecar" por excesso de zelo.
A produção global de plásticos aumentou exponencialmente desde a década de 1950, resultando na fragmentação contínua desses materiais em microplásticos e nanoplásticos, partículas com potencial de interação biológica, seja disrupção endócrina ou levando a inflamação crônica de baixo grau.
Evidências recentes demonstram que esses fragmentos já fazem parte do expossoma humano, sendo detectados em alimentos, água, ar atmosférico e tecidos humanos.
Mas por que a ciência tem se preocupado? A crescente preocupação dos cientistas decorre do fato de que essas partículas podem atuar como vetores de compostos químicos tóxicos, interferir em processos celulares, induzir inflamação crônica e possivelmente contribuir para o desenvolvimento de doenças metabólicas, cardiovasculares, neurológicas e neoplásicas, ainda que os limites seguros de exposição permaneçam indefinidos. Evidências robustas? Não temos. Mas temos indícios.
Contaminação ambiental por microplásticos
Desde a intensificação do uso de plásticos descartáveis, a poluição por microplásticos tornou-se ubíqua em ambientes terrestres e aquáticos. Essas partículas já foram identificadas desde profundidades superiores a 10.000 metros nos oceanos até regiões remotas como geleiras do Himalaia e camadas atmosféricas elevadas.
A onipresença em todo o globo indica que a exposição humana ocorre de forma contínua e multifatorial, envolvendo ingestão, inalação e contato dérmico, o que dificulta estimativas precisas de carga corporal e risco acumulativo ao longo da vida.
Microplásticos em solos e cadeias alimentares
Estudos nacionais franceses, como o projeto MICROSOF, demonstraram a presença de microplásticos em aproximadamente 75% das amostras de solo analisadas em diferentes regiões. Esses achados reforçam a hipótese de que a agricultura atua como um elo crítico na transferência de microplásticos do ambiente para a cadeia alimentar humana.
A contaminação do solo pode afetar a microbiota edáfica, a absorção de nutrientes pelas plantas e, potencialmente, a qualidade nutricional e sanitária dos alimentos produzidos.
Penetração biológica e distribuição sistêmica
Embora a quantificação precisa de microplásticos em tecidos humanos ainda represente um desafio metodológico, evidências crescentes indicam que partículas micro e nanométricas conseguem atravessar barreiras biológicas.
Hoje a ciência já sabe que elas podem penetrar pelo trato respiratório, gastrointestinal e pela pele, alcançando órgãos distantes como rins, fígado, placenta, testículos e sistema nervoso central. Essa capacidade de translocação levanta preocupações quanto à bioacumulação e aos efeitos de longo prazo, especialmente em exposições crônicas e iniciadas precocemente na vida.
Evidências em tecidos humanos e possíveis desfechos clínicos
Relatório científico recente publicado pelo Gabinete Parlamentar de Avaliação Científica e Tecnológica apontou a presença de microplásticos em tecido cerebral humano, com concentrações que podem alcançar até 0,5% do peso do tecido analisado.
Observações adicionais indicam aumento progressivo da carga pulmonar de microplásticos com o envelhecimento, sugerindo baixa eficiência de eliminação dessas partículas pelo organismo.
Dados epidemiológicos preliminares associam a exposição a microplásticos a maior risco de eventos cardiovasculares, como infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral, além de neoplasias do trato gastrointestinal, embora a causalidade ainda esteja em investigação.
Toxicidade química associada aos microplásticos
A toxicidade dos microplásticos não se limita à sua presença física nos tecidos. Essas partículas podem conter aditivos industriais, como plastificantes, retardantes de chama e estabilizantes, além de adsorver contaminantes ambientais, incluindo metais pesados e compostos orgânicos persistentes.
Estima-se que mais de 4.000 substâncias químicas associadas aos plásticos sejam potencialmente perigosas para a saúde humana, o que amplia significativamente o espectro de riscos biológicos envolvidos.
Vias alimentares de exposição humana
A principal via de ingestão de microplásticos pela população ocorre por meio de alimentos e bebidas contaminados. Diversos estudos já confirmaram a presença dessas partículas em água potável, tanto engarrafada quanto de torneira, além de alimentos como frutas, vegetais, carnes, ovos, arroz e chás. Esse padrão reforça a ideia de exposição diária e cumulativa, independentemente do nível socioeconômico ou do tipo de dieta adotada.
Microplásticos em bebidas: dados recentes
Pesquisadores da Agência Francesa para a Segurança Alimentar, Ambiental e de Saúde e Segurança Ocupacional avaliaram recentemente a presença de microplásticos em diferentes bebidas comercializadas na França, incluindo água, refrigerantes, chás gelados, limonadas, cervejas e vinhos.
Microplásticos com tamanhos entre 30 μm e 500 μm foram detectados em todas as amostras analisadas, com variações significativas conforme o tipo de bebida, o processo industrial e o material da embalagem.
Comparação entre tipos de bebidas e níveis detectados
A água engarrafada apresentou concentrações relativamente baixas de microplásticos, em torno de 2,9 partículas por litro, enquanto refrigerantes e limonadas alcançaram médias de 31,4 e 101,5 partículas por litro, respectivamente.
Cervejas apresentaram cerca de 84 partículas por litro, e chás gelados, 14,6 partículas por litro.
O vinho apresentou média de 12 partículas por litro, embora estudos anteriores tenham descrito valores mais elevados, destacando a dificuldade de comparação entre metodologias, tamanhos de partículas analisadas e volumes amostrais.
Garrafas de vidro e uma falsa sensação de segurança
Contrariando a percepção comum de maior segurança, bebidas acondicionadas em garrafas de vidro apresentaram níveis mais elevados de microplásticos quando comparadas àquelas em garrafas plásticas ou latas.
A análise da composição e da coloração das partículas sugere que a principal fonte de contaminação são as tampas, cuja abrasão durante armazenamento e transporte em larga escala libera fragmentos poliméricos.
Medidas simples, como a lavagem prévia das tampas, mostraram potencial para reduzir significativamente essa contaminação, com exceção notável do vinho, que frequentemente utiliza rolhas de cortiça.
Conclusão
Respondendo à pergunta do título, a troca resolve? Parcialmente sim. Vale a pena? Com certeza. O Vidro por ser inerte, reciclável é mais sustentável para o planeta. Liberará menos microplástico se as tampas forem alteradas, mais bem preparadas para não liberar microplastico.
Fontes:
- https://www.ademe.fr/presse/communique-national/microplastiques-en-france-sur-33-echantillons-3-4-des-sols-analyses-contamines/#:~:text=09%20janvier%202025-,MICROPLASTIQUES%20%3A%20En%20France%20sur%2033%20%C3%A9chantillons%2C%203%2F,4%20des%20sols%20analys%C3%A9s%20contamin%C3%A9s&text=400%20millions%20de%20tonnes%20de,millions%20de%20tonnes%20en%20France.
- https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0889157525005344
- https://www.senat.fr/fileadmin/Presse/Documents_pdf/20241113_Synthese_Plastique_sante.pdf
Autor: Dr. Frederico Lobo - Médico Nutrólogo - CRM-GO 13192 - RQE 11915 - Gostou do texto e quer conhecer mais sobre minha pratica clínica, clique aqui.
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