Goma de mascar (chiclete), composição química e exposição a microplásticos
A goma de mascar é um produto de consumo cotidiano frequentemente percebido como inócuo, mas sua composição química levanta questões relevantes do ponto de vista toxicológico e ambiental. Tradicionalmente, as gomas são formuladas a partir de uma “base de goma”, que pode ser de origem vegetal ou sintética, associada a adoçantes, aromatizantes, corantes e agentes plastificantes.
Essa base é composta por polímeros elásticos e hidrofóbicos, estruturalmente semelhantes a materiais plásticos, o que levanta a hipótese de liberação de microplásticos durante a mastigação e consequente ingestão direta dessas partículas pelo ser humano. Os polímeros mais comumente identificados incluem polietileno (PE), polipropileno (PP) e poliestireno (PS).
Benefícios e aplicações dos chicletes
Uma revisão abrangente identificou três áreas principais de aplicação da goma de mascar: melhora do bem-estar e desempenho, auxílio médico e auxílio cirúrgico/procedural. Os usos mais frequentemente estudados incluem desempenho esportivo, cessação do tabagismo e recuperação pós-operatória. No entanto, lacunas notáveis de pesquisa foram encontradas, particularmente em contextos pediátricos e geriátricos.
Microplásticos como contaminantes emergentes
Os microplásticos são definidos como partículas plásticas com diâmetro inferior a 5 milímetros, capazes de interagir biologicamente com tecidos humanos. Estudos recentes já documentaram sua presença em alimentos, bebidas, ar atmosférico e fluidos biológicos, consolidando-os como contaminantes emergentes do expossoma humano.
A preocupação científica decorre não apenas da partícula em si, mas também da sua capacidade de atuar como veículo de aditivos químicos e contaminantes ambientais, potencialmente modulando processos inflamatórios, oxidativos e metabólicos.
A goma de mascar como fonte potencial de microplásticos
A base da goma de mascar contém polímeros que conferem elasticidade e resistência mecânica, propriedades fundamentais para sua função sensorial. Esses polímeros podem ser derivados de resinas vegetais modificadas ou de compostos sintéticos, como elastômeros e poliolefinas.
Durante a mastigação, forças mecânicas repetitivas, associadas à ação da saliva e à variação de temperatura, podem favorecer a fragmentação dessas estruturas poliméricas, resultando na liberação de partículas microscópicas diretamente na cavidade oral.
Desenho do estudo e metodologia empregada
Com o objetivo de investigar essa hipótese, pesquisadores conduziram um estudo piloto para avaliar a liberação de microplásticos durante a mastigação de goma de mascar. Foram analisados dez tipos diferentes de goma, incluindo cinco marcas classificadas como naturais e cinco de base sintética.
Um único participante mastigou cada goma por períodos controlados, variando de dois a vinte minutos, permitindo a análise temporal da liberação de partículas ao longo da mastigação.
Técnicas analíticas e quantificação das partículas
Durante o experimento, amostras de saliva foram coletadas em diferentes momentos e submetidas à análise por microscopia de infravermelho com transformada de Fourier, uma técnica amplamente utilizada para identificação de polímeros.
Adicionalmente, foi empregado um método complementar habilitado por smartphone para quantificação das partículas, aumentando a sensibilidade da detecção. Apesar disso, os próprios autores reconhecem limitações metodológicas, especialmente na identificação de partículas de tamanho nanométrico.
Resultados quantitativos da liberação de microplásticos
Os resultados demonstraram que cada grama de goma de mascar pode liberar até 637 partículas de microplástico durante a mastigação. Observou-se que aproximadamente 94% dessas partículas foram liberadas nos primeiros oito minutos, sugerindo um pico inicial associado à fragmentação mais intensa da superfície da goma.
Esse achado é relevante do ponto de vista clínico, uma vez que a maioria das pessoas descarta a goma após períodos relativamente curtos de uso.
Comparação entre gomas naturais e sintéticas
Contrariando a percepção comum de que produtos “naturais” seriam intrinsecamente mais seguros, o estudo não identificou diferenças estatisticamente significativas entre gomas de base vegetal e gomas sintéticas quanto à quantidade de microplásticos liberados.
A análise estatística indicou valores de P superiores a 0,8, reforçando a similaridade entre os dois grupos. Esse dado sugere que a estrutura polimérica da base, e não sua origem, é o principal determinante da liberação de partículas.
Tipos de polímeros identificados na saliva
A análise qualitativa revelou a presença de quatro principais classes de polímeros plásticos nas amostras de saliva, com predominância de poliolefinas. Esses materiais são amplamente utilizados na indústria devido à sua estabilidade química e baixo custo, mas também são conhecidos por sua persistência ambiental. A detecção dessas partículas na saliva confirma a ingestão direta de microplásticos durante a mastigação da goma.
Implicações para a saúde humana
Do ponto de vista prático, os autores destacam que os achados sugerem que a goma de mascar pode representar uma via direta e até então pouco considerada de ingestão de microplásticos.
Embora ainda não existam estudos clínicos que estabeleçam causalidade entre essa exposição específica e desfechos de saúde, a ingestão repetida e cumulativa pode contribuir para a carga corporal total de microplásticos ao longo da vida.
Esse aspecto é particularmente relevante em populações que consomem goma de mascar de forma frequente.
Limitações, contexto científico e perspectivas futuras
Os próprios pesquisadores enfatizam que o objetivo do estudo não é alarmar a população, mas ampliar o entendimento sobre fontes cotidianas de exposição a microplásticos. Ainda não existem testes em humanos capazes de determinar com precisão os efeitos biológicos dessas partículas, e microplásticos menores podem ter passado despercebidos devido às limitações dos métodos analíticos.
Os resultados, apresentados em 2025 na reunião da American Chemical Society e conduzidos por pesquisadores da Universidade da Califórnia, Los Angeles com apoio de programas financiados pelos Institutos Nacionais de Saúde, reforçam a necessidade de estudos mais amplos, com múltiplos participantes e técnicas de maior resolução, para elucidar os reais impactos da ingestão de microplásticos via goma de mascar.
Fontes:
Allam A, Cirio S, Salerno C, Camoni N, Campus G, Cagetti MG. Chewing Gum and Health: A Mapping Review and an Interactive Evidence Gap Map. Nutrients. 2025 Aug 25;17(17):2749. doi: 10.3390/nu17172749. PMID: 40944140; PMCID: PMC12430410.
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