Biotina e exames de sangue: o detalhe “inofensivo” que pode distorcer resultados e atrasar diagnósticos

A biotina (vitamina B7) ficou famosa em suplementos para cabelo, pele e unhas, mas existe um detalhe pouco lembrado: ela pode interferir em alguns exames laboratoriais e “maquiar” resultados. Isso acontece principalmente em testes de sangue feitos por imunoensaios, muito comuns na prática clínica e em check-ups. 

O risco não é teórico e já peguei algumas vezes aqui no consultório: resultados distorcidos podem gerar susto, investigação desnecessária (onerar o plano de saúde) ou, pior, atrasar um diagnóstico importante. Por isso, se você usa biotina e vai fazer exames, vale ler este texto para não atrapalhar o seu médico rs. 

Mas por que isso ocorre? 

A interferência ocorre porque muitos exames usam uma tecnologia chamada biotina–estreptavidina, um “encaixe” muito forte que ajuda o laboratório a detectar substâncias em baixas concentrações. Quando há biotina “sobrando” no sangue (vinda de suplementos nesse caso), ela pode competir com esse sistema e alterar o sinal do teste. 

Dependendo do tipo de imunoensaio, o resultado pode ficar falsamente baixo ou falsamente alto. Em outras palavras: não é o seu corpo que mudou de um dia para o outro; pode ser o exame que ficou enganado. E a questão é: principalmente mulheres, que estão em acompanhamento com dermato, geralmente estao utilizando biotina (em doses altas, já que a necessidade diária gira em torno de 30mcg e os produtos prescritos muitas vezes tem 5000 a 1000 mcg de Biotina.

Nem todo mundo tem o mesmo risco. A própria orientação técnica ressalta que a biotina da alimentação e do metabolismo normal é baixa demais para causar problema, e que doses de multivitamínicos de prateleira (até 1 mg) não costumam ser relatadas como causa de interferência. 

O alerta fica mais forte quando falamos de “doses altas”, comuns em cápsulas para estética (muitas vezes 5000mcg=5mg ou mais) e em alguns usos terapêuticos com doses muito maiores. Como as fórmulas variam bastante, a regra prática é: se você suplementa biotina, informe sempre antes de coletar o sangue mesmo que pareça “só uma vitamina”.

Os exames mais comumente afetados

O exemplo clássico é a tireoide: a biotina pode produzir um padrão que parece hipertireoidismo no papel, com TSH falsamente baixo e T4/T3 falsamente altos, quando a tireoide está normal. Isso pode levar a consultas, repetição de exames, ultrassons e até ajustes indevidos de medicação se ninguém suspeitar da interferência. Por isso, quando um resultado “não combina” com os sintomas, uma das primeiras perguntas deveria ser: “Você está usando biotina?”, porém, muitos médicos desconhecem isso, então cabe a quem trabalha com educação em saúde, orientar o paciente.

Os mais citados são os exames de função tireoidiana (TSH, T4 livre, T3), mas não param aí: diversos hormônios e marcadores medidos por imunoensaios podem sofrer interferência, como PTH, cortisol, prolactina, testosterona, estradiol e outros, dependendo do método e do fabricante. 

Em estudos e relatos, a interferência já apareceu em painéis endócrinos e até em alguns marcadores usados no acompanhamento clínico, justamente porque a tecnologia biotina–estreptavidina é muito difundida. A mensagem central é simples: “exame alterado” não é sinônimo automático de “doença confirmada”.

Um ponto sensível é a troponina, marcador importante para ajudar a diagnosticar infarto. O FDA americano destaca preocupação específica porque a biotina pode causar resultado falsamente baixo de troponina, o que pode contribuir para perder um diagnóstico em um contexto de emergência. Se a pessoa chega com dor no peito, falta de ar, mal-estar importante, ou está em investigação cardiológica, avisar sobre uso de biotina não é detalhe: é informação de segurança.

Outros testes que podem ser impactados (conforme método) incluem β-hCG (gravidez), alguns testes infecciosos feitos por imunoensaios e dosagens como vitamina D em certas plataformas. 

Minha função aqui não é criar pânico, e sim reduzir erro evitável, evitando gastos desnecessários em investigação diagnóstica: muitos laboratórios já têm protocolos e alertas, mas eles só funcionam bem quando o paciente e a equipe comunicam claramente o uso de suplementos, o que na prática não acontece. Digo isso por que no meu questionário pré-consulta pergunto:
Faz uso de algum medicamento de uso contínuo? Se sim, qual o nome e a dose:
Faz uso de algum suplemento (vitaminas, minerais, fitoterápicos, proteínas)? Se sim, qual o nome e a dose:
Mesmo perguntando, muitos pacientes não preenchem, muitas vezes por que desconhecem o que é realmente um suplemento.
Então, se você não sabe se o seu exame “usa biotina”, quem sabe é o laboratório e vale perguntar.

Como se preparar para seus exames se você usa biotina

Primeiro passo: conte, sem vergonha e sem minimizar. Anote tudo o que usa (nome do suplemento, dose e horário da última cápsula) e leve no dia da coleta; isso inclui “gominha para cabelo”, polivitamínico, pré-natal e fórmulas manipuladas. 

Um truque útil é olhar o rótulo e identificar se a dose está em microgramas (mcg/µg) ou miligramas (mg), porque 5 mg = 5000 mcg e essa diferença muda muito o risco de interferência. Essa transparência poupa tempo, dinheiro e preocupação desnecessária. 

Segundo passo: siga a orientação do seu médico e do laboratório sobre pausa antes do exame, porque o tempo ideal depende da dose e do teste. Um guia técnico bastante usado cita que, para quem tomou 5–10 mg, pode ser recomendado aguardar pelo menos 8 horas antes da coleta; em alguns ensaios mais sensíveis, pode ser necessário um “washout” mais longo, chegando a até 72 horas para reduzir o risco de interferência. O que recomendo é pelo menos 3 dias sem nenhum suplemento, antes de fazer a coleta. Para não acontecer falseamento.

Terceiro passo: se o resultado vier estranho (principalmente se não combina com seus sintomas), não conclua nada sozinho, a não ser que você seja médico. Avise o profissional solicitante e pergunte se pode haver interferência por biotina; muitas vezes a solução é repetir a coleta após o intervalo recomendado, ou usar um método alternativo que não dependa de biotina–estreptavidina. 

Essa conduta simples evita diagnósticos errados e decisões apressadas, e mantém o exame no lugar certo: como ferramenta para ajudar, não para confundir.





Fonte: https://myadlm.org/science-and-research/academy-guidance/biotin-interference-in-laboratory-tests

Autor: Dr. Frederico Lobo - Médico Nutrólogo - CRM-GO 13192 - RQE 11915 - Gostou do texto e quer conhecer mais sobre minha pratica clínica, clique aqui. 

Gostou deste conteúdo e quer se aprofundar em Nutrologia e saúde baseada em evidências?

Sou o Dr. Frederico Lobo, médico nutrólogo titulado pela ABRAN, e desde 2006 produzo conteúdo sobre nutrologia, alimentação, metabolismo, prevenção de doenças e medicina do estilo de vida. Acompanhe meus materiais nas outras plataformas

▶️ Canal no YouTube – vídeos de Nutrologia e saúde

🌐 Site Nutrólogo Goiânia – biblioteca de Nutrologia clínica

📘Site Dr. Frederico Lobo

📘 Blog Ecologia Médica – medicina, meio ambiente e nutrição

📷 Instagram


📲 Canal no WhatsApp (textos, vídeos e áudios diários)

🎧 Podcast para pacientes no Spotify

🎧 Podcast Movimento Nutrologia Brasil (atualização científica para médicos = conteúdo técnico)

📂 Grupo NUTRO PDFs no Telegram (exclusivo para médicos = conteúdo técnico)




Comentários