4 de Março - Dia mundial da Obesidade




Obesidade no Brasil: 214 milhões de razões para agir


O Dia Mundial da Obesidade foi estabelecido pela World Obesity Federation em 2015 e, desde 2020, é celebrado em 4 de março como uma estratégia para aumentar a conscientização sobre a importância de ações unificadas para enfrentar a epidemia de obesidade, que continua crescendo em todo o mundo, sem sinais de redução. Esse aumento tem sido mais rápido em países de baixa e média renda e, dentro dos países, desproporcionalmente maior entre populações vulneráveis e indivíduos mais jovens. 

Em 2026, o lema da campanha é “8 bilhões de razões para agir”, em referência à população mundial atual. Por quê? O Atlas da World Obesity Federation mostra que, neste exato momento, metade da humanidade vive com sobrepeso ou obesidade, incluindo mais de um bilhão de pessoas com obesidade. 

No entanto, discutir e agir sobre obesidade é uma questão que diz respeito a todos. A obesidade está associada a mais de 200 doenças, aumento de incapacidade e mortalidade e grande prejuízo na qualidade de vida. Seu impacto vai além de quem vive com a doença, afetando a sociedade como um todo. 

Por exemplo, a epidemia de obesidade impõe um fardo econômico substancial por meio de custos diretos com saúde e custos indiretos, como absenteísmo no trabalho, além de impactar as mudanças climáticas e a sustentabilidade. Ademais, oferecer ambientes saudáveis para pessoas que vivem com doenças crônicas, especialmente crianças, é um direito humano que deve ser defendido coletivamente

No Brasil, como esperado, o cenário é extremamente preocupante. O Atlas Mundial da Obesidade de 2025 mostrou que, pela primeira vez, mais de 30% da população tem obesidade e 68% apresenta pelo menos sobrepeso. 

Segundo dados da WOF de 2024, a taxa anual projetada de crescimento da prevalência é de 1,8%. Entre crianças e adolescentes, estima-se que, na ausência de intervenções eficazes, metade terá excesso de peso até 2050. Mesmo em cenários altamente otimistas de prevenção, a prevalência deve continuar aumentando nos próximos anos e décadas. 

O que pode ser feito? Em primeiro lugar, é essencial reconhecer que a crise da obesidade exige ações tanto em prevenção quanto em tratamento, não uma em detrimento da outra. O Brasil possui um dos Guias Alimentares mais reconhecidos e premiados internacionalmente, com forte recomendação de “comer comida de verdade” e reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados (AUPs). 

Para contextualizar, o conceito de AUPs deriva da classificação NOVA, desenvolvida no Brasil e atualmente amplamente adotada internacionalmente. O alto consumo de AUPs tem sido repetidamente associado a pelo menos 32 desfechos adversos à saúde, muito além da obesidade. 

Nesta edição dos Archives of Endocrinology and Metabolism, Favaron e colaboradores apresentam evidências transversais que se somam a esse corpo de literatura. Os autores mostram que maior proporção de calorias provenientes de AUPs está associada a pior qualidade da dieta e a padrões alimentares mais desordenados, incluindo bulimia. Indivíduos no tercil mais alto de consumo de AUPs apresentaram maiores escores de compulsão alimentar e sintomas bulímicos, além de maior alimentação emocional, externa e descontrolada, e menor ingestão de alimentos minimamente processados e proteínas. 

Esses achados sugerem que os AUPs podem não apenas piorar a qualidade nutricional, mas também estar ligados a mecanismos neurocomportamentais que favorecem a perda de controle alimentar, reforçando comportamentos alimentares desadaptativos na obesidade. 

Embora associações semelhantes já tenham sido descritas, ainda falta uma compreensão mais abrangente da relação entre AUPs, saúde mental e transtornos alimentares. Ainda assim, os dados disponíveis sustentam a necessidade de ações públicas mais ativas para reduzir o consumo de AUPs no Brasil. 

Entretanto, implementar diretrizes alimentares e reduzir o consumo de AUPs é particularmente desafiador em populações vulneráveis, nas quais determinantes sociais e econômicos influenciam fortemente as escolhas alimentares. Alimentos in natura costumam ser mais caros, enquanto AUPs são baratos, onipresentes, intensamente divulgados na mídia tradicional e nas redes sociais e fáceis de consumir, exigindo pouco ou nenhum preparo. Assim como já ocorreu nos Estados Unidos e no Reino Unido, onde AUPs representam cerca de 60% da ingestão alimentar total, a dieta tradicional brasileira — baseada em preparo caseiro e tempo dedicado à alimentação — vem sendo gradualmente substituída por produtos ultraprocessados. 

No Brasil, os AUPs já contribuem com mais de 20% da ingestão energética total, proporção que aumenta a cada ano. Portanto, políticas para obesidade e outras doenças crônicas não transmissíveis devem priorizar ações públicas estruturais que aumentem a probabilidade de alimentação saudável, em vez de depender apenas de recomendações genéricas para “fazer melhores escolhas” sem oferecer condições reais para mudança. 

Em 2022, a World Health Organization lançou o Plano de Aceleração para Conter a Obesidade, e o Brasil foi identificado como um dos países líderes. Como em todas as intervenções em saúde, estratégias de prevenção da obesidade devem ser guiadas por evidências científicas, não por opiniões. A OMS destaca diversas políticas que devem ser implementadas, incluindo a tributação de bebidas açucaradas. 

Durante a reforma tributária brasileira, propôs-se a taxação de AUPs; contudo, em 2024, foi aprovado imposto seletivo apenas para refrigerantes, após intenso debate político e forte lobby da indústria. 

Considerando o amplo impacto dos AUPs na saúde e a fisiologia do comportamento alimentar humano, que predispõe ao consumo excessivo desses produtos, políticas fiscais deveriam ir muito além das bebidas açucaradas. Importante ressaltar que tais estratégias não devem apenas aumentar impostos sobre produtos não saudáveis — o que pode afetar desproporcionalmente grupos vulneráveis —, mas também reduzir o custo de alimentos saudáveis, especialmente frutas, verduras, grãos integrais e fontes de proteína de alta qualidade. 

A recente revisão da “Cesta Básica” introduziu isenções ou reduções tributárias para alguns alimentos mais saudáveis; contudo, nem todos os itens incluídos podem ser considerados nutricionalmente adequados. Assim, embora a reforma tributária represente avanço, permanece modesta e insuficiente para produzir impacto substancial em nível populacional. 

A OMS também recomenda medidas adicionais, como restrição da publicidade de alimentos não saudáveis, especialmente para crianças e adolescentes; aprimoramento da rotulagem frontal; fortalecimento das políticas de alimentação escolar; e modificação do ambiente construído para reduzir a inatividade física. Várias dessas estratégias foram parcialmente implementadas no Brasil, mas com eficácia limitada. Por exemplo, o rápido crescimento do uso de redes sociais entre populações jovens não foi acompanhado por regulamentação adequada da publicidade de alimentos em plataformas digitais, desafio que vai além do Brasil. 

Uma estratégia integrada e unificada, abordando simultaneamente todas essas frentes, é essencial, pois medidas isoladas tendem a ser ineficazes, especialmente diante da capacidade da indústria alimentícia de se adaptar rapidamente e contornar regulações. A WOF conduz atualmente o programa MAPPS II, que explora percepções e experiências de profissionais de saúde, formuladores de políticas e pessoas que vivem com obesidade sobre políticas existentes, lacunas e prioridades. 

A iniciativa busca fortalecer a prevenção e o cuidado da obesidade por meio de melhor geração de evidências, construção de coalizões e engajamento político. Ainda assim, mesmo as estratégias preventivas mais eficazes não resolverão o problema para quem já vive com obesidade, assim como a distribuição de preservativos não atende às necessidades de quem já vive com HIV. 

Portanto, a defesa das pessoas que vivem com obesidade (PlwO) é crucial, apesar das barreiras impostas pelo estigma estrutural. No Brasil, a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica tem avançado nessa agenda ao criar um Departamento de “Experiência Vivida” e promover a inclusão de PlwO em discussões e espaços decisórios de saúde pública. 

No âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), o único tratamento disponível para obesidade é a cirurgia bariátrica. Embora altamente eficaz e associada a melhorias substanciais na saúde e qualidade de vida, ela é restrita a indivíduos com obesidade grave, não é escalável e é oferecida a menos de 10 mil pacientes por ano, resultando em filas de espera extremamente longas. Além disso, a cirurgia é indicada apenas após falha do tratamento clínico, apesar de este ser amplamente indisponível. A suplementação nutricional no pós-operatório também não é rotineiramente fornecida, apesar do risco conhecido de deficiências de micronutrientes. 

Ao longo dos anos, diversas propostas para incorporar medicamentos para obesidade ao sistema público foram submetidas, muitas lideradas pela ABESO, mas todas rejeitadas pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS, mesmo diante de dados robustos de custo-efetividade. Padrões de cuidado não farmacológicos também são escassos, situação agravada pela ausência de formação formal em obesidade nos currículos da área da saúde.

 Como resultado, a maioria dos profissionais, incluindo médicos, se forma sem treinamento adequado em obesidade, limitando sua capacidade de oferecer cuidado eficaz e livre de estigmatização. Com o crescente corpo de evidências sobre os amplos benefícios dos tratamentos modernos da obesidade, muito além da perda de peso — e a publicação das Diretrizes da OMS sobre agonistas do receptor de GLP-1 para obesidade, é inevitável que a terapia farmacológica seja eventualmente incorporada ao SUS, ao menos para populações selecionadas. Isso deveria ocorrer o quanto antes. 

A crise da obesidade não é um problema do futuro; é uma realidade há décadas e, apenas no Brasil, há mais de 214 milhões de razões para agir agora.

Autores:
Dr. Bruno Halpern - Médico Endocrinologista
Dra. Maria Edna de Melo - Médica Endocrinologista




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