Os dispositivos médicos de uso único dominaram rapidamente a indústria da saúde nos Estados Unidos, afirma a Dra. Jodi Sherman, médica, professora associada de anestesiologia e epidemiologia da Yale School of Medicine, nos EUA, e diretora fundadora do Programa da Yale sobre Sustentabilidade Ambiental na Saúde.
Uma parte significativa dos dispositivos é feita de plástico, o que pode prejudicar os seres humanos e o meio ambiente. A produção de plásticos utiliza combustíveis fósseis e libera gases do efeito estufa. Posteriormente ao uso, uma vez descartados em aterros sanitários, os plásticos se decompõem em minúsculas partículas que contêm conhecidos carcinógenos e desreguladores hormonais.
O Dr. Todd L. Sack, médico, professor clínico associado do H. Wertheim College of Medicine e diretor executivo da My Green Doctor Foundation, ambos nos EUA, lembrou-se de quando a indústria da saúde não era tão dependente de plásticos de uso único. “Quando eu era um jovem médico, mais coisas eram reutilizadas”, observou ele. “Agora, tudo é descartado.” A cadeia de suprimentos redesenhou os produtos para serem descartáveis, explicou ele.
Isso se aplica a todo tipo de dispositivo e equipamento, como manguitos para aferir a pressão arterial, espéculos, aventais hospitalares, roupas de cama e instrumentais cirúrgicos. O desperdício mais absurdo, na opinião do Dr. Todd, são as luvas plásticas descartáveis. Usar um novo par para cada paciente tornou-se o padrão de atendimento, disse ele.
De acordo com um estudo recente, as luvas são o produto descartável de saúde mais utilizado em volume, com aproximadamente 100 a 124 bilhões de luvas usadas em exames anualmente nos EUA. “É um desperdício desnecessário”, afirmou ele. Em vez disso, “precisamos lavar as mãos; é só isso que precisamos fazer”, enfatizou.
Equipamentos plásticos de uso único são eficientes. “As pessoas estão tentando trabalhar de forma rápida ao cuidar dos pacientes, então a sustentabilidade muitas vezes não é a prioridade número um”, disse o Dr. Matthew J. Meyer, anestesiologista e diretor médico de sustentabilidade do sistema de saúde UVA Health, nos EUA. “Às vezes, o fator decisivo é: ‘Bem, isso levará dois minutos, e aquilo levará apenas 30 segundos’.”
Suprimentos médicos descartáveis também são mais baratos, afirmou a Dra. Anna L. Goldman, médica da atenção primária e diretora médica de clima e sustentabilidade do sistema de saúde Boston Medical Center (BMC), nos EUA. O plástico é tão barato que a compra de artigos plásticos de uso único é frequentemente mais econômica e eficiente do que a limpeza e reutilização de alternativas reprocessáveis, explicou ela. A esterilização exige pessoal, energia e equipamentos. “Transferir os custos externamente, para o meio ambiente, não exige [nada disso]”, acrescentou ela.
Segundo a Dra. Anna, a cautela extrema com a segurança do paciente legitimou esse uso de descartáveis. Especialmente desde a pandemia de covid-19, as instituições têm relutado em reutilizar itens, e os fabricantes de produtos de uso único não aplacaram esses temores, explicou a Dra. Jodi. Afinal, eles têm um interesse velado. “Há um incentivo para os fabricantes de equipamentos”, disse ela. “Quanto mais descartamos, mais eles vendem.” No início de 2025, negociações para encerrar uma isenção do setor de saúde no Tratado Global de Plásticos falharam.
Quando a Dra. Anna começou a cursar a faculdade de medicina, em 2008, ela e seus colegas realizavam exames de citologia oncótica com espéculos metálicos reutilizáveis, lembrou ela. “Agora, usamos os de plástico. Durante uma citologia oncótica, às vezes eles quebram, e precisamos usar dois. Penso em como esses grandes pedaços de plástico permanecerão no ambiente pelos próximos mil anos. É desolador e acontece com tudo relacionado à medicina.”
“O dano é tão óbvio para nós, da área da saúde, que podemos sentir angústia moral cada vez que cuidamos de um paciente”, disse a Dra. Jodi. “Às vezes, os descartáveis são a abordagem correta”, admitiu ela. Contudo, seu uso saiu do controle. “Sempre partimos do princípio de que os dispositivos de uso único são mais seguros porque eliminam o risco de erro humano.” Porém, isso não precisa — e não deveria — ser assim.
Como reduzir o descarte
A mudança deve vir de cima, explicou a Dra. Jodi. Atualmente, a Agência de Proteção Ambiental dos EUA não coleta dados sobre resíduos médicos, mas a legislação federal deveria obrigar as organizações de saúde a implementar um inventário padronizado de emissões de gases de efeito estufa, afirmou ela. Dados confiáveis ajudariam a priorizar a sustentabilidade na saúde e a embasar a tomada de decisões.
Unidades de saúde e clínicas devem reduzir o uso desnecessário de produtos descartáveis, migrar para reutilizáveis e realizar o reprocessamento de dispositivos de uso único, disse John Ullman, diretor de transformação da cadeia de suprimentos da unidade de Washington da Health Care Without Harm, organização internacional voltada para a redução da pegada ambiental dos serviços em saúde, ligada ao movimento global por saúde e justiça ambiental. Ele observou que esses tópicos serão abordados na CleanMed 2026, conferência anual da organização nos EUA sobre sustentabilidade na saúde.
“As instituições de saúde devem rever os produtos plásticos comprados e priorizar ações [de sustentabilidade]”, recomendou John. “Eliminar itens de uso único de alto volume que não são essenciais para a assistência pode contribuir muito para reduzir o consumo de plástico, mesmo antes de se considerar a utilização de produtos alternativos. A transição de produtos descartáveis para reutilizáveis e o aprimoramento do programa de reprocessamento de dispositivos de uso único de um hospital podem, muitas vezes, levar a economias significativas e, portanto, ser um ponto de partida muito atraente para impulsionar iniciativas mais amplas de redução de resíduos.”
Ele destacou que o Ronald Reagan UCLA Medical Center, nos EUA, há alguns anos voltou a utilizar aventais de isolamento reutilizáveis, o que reduziu centenas de toneladas de resíduos em aterros sanitários anualmente.
Ao implementar um programa de reprocessamento, com a Medline ReNewal — divisão da gigante de suprimentos médicos Medline Industries focada no reprocessamento de dispositivos médicos de uso único — e a Cardinal Health — fabricante e distribuidora global de produtos médicos e laboratoriais, entre outras atividades —, o BMC economizou tanto nos custos de descarte quanto na recompra de dispositivos de uso único com descontos (como cateteres, instrumentais cirúrgicos, torniquetes e lençóis/colchonetes deslizantes de baixa fricção usados para mover pacientes acamados). O BMC estimou que reduziu os custos de compra em US$ 1,2 milhão em 2024.
No UVA Health, o Dr. Matthew constatou que os suprimentos reprocessados geralmente apresentam a mesma qualidade de novos produtos e são 50% mais baratos. “Estávamos jogando fora itens valiosos”, disse ele. “Ao comprar itens reprocessados, estamos recuperando parte do valor que antes descartávamos.”
Quando hospitais e clínicas optarem por itens de uso único, podem buscar produtos feitos com materiais compostáveis, como cana-de-açúcar ou amido de milho, em vez de plástico. Ele citou como exemplo aventais hospitalares compostáveis, sacos para pertences de pacientes e hampers da Terraloam. Outras empresas fabricam produtos biodegradáveis, como luvas, máscaras, campos e estojos de instrumentação cirúrgica, bandejas, recipientes e itens para assistência ao paciente.
A Dra. Jodi Sherman informou não ter conflitos de interesse. A Dra. Anna L. Goldman informou receber subsídio do National Institute of Mental Health (K23MH128639) e, pelo BMC, informou liderar o projeto descrito no artigo “Takeda & Boston Medical Center: Tackling Decarbonization in a Healthcare Setting”, que conta com apoio financeiro da Takeda. O Dr. Todd L. Sack informou não ter participação na My Green Doctor Foundation e não é remunerado pela instituição. John Ullman informou não ter conflitos de interesse. O Dr. Matthew J. Meyer informou ser o diretor médico de sustentabilidade do UVA Health University Medical Center, além de ser coinventor de propriedade intelectual focada na redução do desperdício de instrumentais e suprimentos cirúrgicos, mas informou não ter envolvimento financeiro com nenhuma das empresas mencionadas.
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