segunda-feira, 24 de abril de 2017

Poluição do ar e o aumento do risco de diabetes tipo 2 em crianças

Altos níveis de poluição do ar podem aumentar o risco de diabetes tipo 2 em algumas crianças latino-americanos, de acordo com um estudo publicado na revista Diabetes.

Pesquisadores com sobrepeso ou obesos acompanharam 314 crianças hispânicas no condado de Los Angeles. As crianças tinham entre 8 e 15 anos de idade quando o estudo começou, e nenhuma delas tinha diabetes.

Os pesquisadores descobriram que as concentrações elevadas de dióxido de azoto e diâmetro aerodinâmico de partículas com menos de 2,5 estavam associados com um declínio mais rápido da sensibilidade à insulina e diminuição da sensibilidade à insulina aos 18 anos, independente da adiposidade. A equipe também descobriu um declínio mais rápido no índice de disposição e de um índice de disposição mais baixo em 18 anos associados à exposição ao dióxido de azoto.

O conceito habitual é de que o aumento do diabetes é o resultado de um aumento na obesidade, devido à expectativa de vida sedentários e dietas altamente calóricas. Este novo estudo mostra que a poluição do ar também contribui para o risco do tipo 2 diabetes.

Fonte: Diabetes 2017 Jan; DOI:10.2337/db16-1416

Os primeiros 1000 dias de vida por Dr. Thiago Hirose

Olá mamães e futuras mamães!

Hoje, a ideia é falar de um conceito que está sendo cada vez mais divulgado e estudado com relação à parte da alimentação e prevenção de doenças do futuro: Os mil primeiros dias de vida e programação metabólica.

O que seria isto? Primeiramente, temos que definir o que são os mil primeiros dias de vida: quando há a união do óvulo com o espermatozóide, dizemos que houve a fecundação, ou seja, o início da formação do bebê. Em média, da fecundação até o nascimento, a gestação dura 9 meses ou 270 dias. Do nascimento até os 2 anos de idade, a criança vive 730 dias (1 ano tem 365 dias e, portanto, 2 anos equivalem a 730 dias). Portanto, somando os 270 dias da gestação mais os 730 dias dos 2 primeiros anos de vida, temos os mil primeiros dias de vida.

E qual a relação destes mil primeiros dias de vida com programação metabólica? Novamente uma explicação - o que é programação metabólica? Sabemos que somos compostos de genes que podem ou não manifestar inúmeras doenças (pressão alta, diabetes, obesidade, câncer, dentre outras.); porém, o que se sabe hoje, é que fatores externos podem sim modificar não o gene em si, mas o produto dele. Um exemplo bem fácil para explicar isto: eu produzo carro com a carroceria da cor azul, é a única cor que tenho na minha fábrica. Uma pessoa compra meu carro, leva para casa mas não gosta da cor - ela compra uma tinta vermelha e pinta o carro de vermelho. Ou seja, de fábrica era um carro azul mas a pessoa usou um fator externo (tinta) para mudar a cor do carro. Esta influência de fatores externos no produto final é a chamada EPIGENÉTICA.

Desta forma, podemos ver que uma pessoa, por exemplo, que não carregue genes que possam causar uma obesidade por exemplo, de acordo com situações externas, ela pode sim ser obesa. Fica um recado importante: não basta culparmos apenas a genética se a pessoa é magra ou não e se aparece tal doença ou não, temos que juntar vários dados para ver o causador daquele problema.

E isto vale para as "doenças do adulto" - pressão alta, diabetes, problemas de colesterol, câncer, síndrome metabólica - NA INFÂNCIA! Pois é, atualmente a incidência de crianças e adolescentes com excesso de peso e "doenças do adulto" está cada dia aumentando em todo o mundo, inclusive no Brasil. E por que isto está ocorrendo? Os dois principais motivos são: 1) Alimentação inadequada, com baixa ingesta de fibras, alta ingesta de alimentos calóricos (açúcares, gorduras, doces, refrigerantes, etc) e 2) Sedentarismo, com pouca atividade física, muito tempo na frente da TV/tablet/computador, etc.

E qual a relação dos mil primeiros dias de vida com este assunto? Os estudos mostram que, por conta da epigenética, este período dos mil dias são cruciais para a prevenção das "doenças do adulto" - claro que isto pode ocorrer também em fases mais tardias da vida, mas os mil primeiros dias de vida sofrem influência muito grande do ambiente externo na prevenção ou aparecimento destas doenças. O que pode influenciar nisto?


  • Aleitamento materno exclusivo diminui a chance de obesidade e síndrome metabólica, ao contrário das fórmulas infantis e o leite de vaca tradicional (estes últimos apresentam um teor calórico-protéico maior que o leite materno); 
  • Uso de antibióticos na gravidez e durante os dois primeiros anos de vida alteram a microbiota intestinal. Aqueles microorganismos que ficam no intestino e protegem o corpo de doenças; 
  • Tipo de parto, o parto vaginal deixa a criança em contato com a microbiota boa, protetora das doenças; 
  • Quantidade de peso ganho pela mãe na gravidez; 
  • Prematuridade; 
  • Peso ao nascer, entre outros.

Então podemos ver que não é só a genética, mas o contexto todo que faz com que o indivíduo aumente ou não a chance de ter determinada doença. Quando falamos em fatores de risco, não quer dizer necessariamente que a pessoa terá tal doença, mesmo uma pessoa totalmente sem fatores de risco pode ter câncer, por exemplo; mas o fator de risco faz com que a chance de manifestar determinada doença seja maior.

Agora, um detalhe importante: sabemos bem que o leite materno é o principal alimento para o bebê, que deve ser dado exclusivamente até os 6 meses de idade e, a partir daí, introduz-se novos alimentos ao leite materno, complementando a alimentação diária da criança. Usa-se a fórmula apenas em situações específicas. Mas uma criança que esteja amamentando em seio materno pode algum dia ter excesso de peso? A resposta é: SIM! Por incrível que pareça, sim. A chance é menor, mas existe. Por que ocorre isto? Ou por ingestão excessiva de leite materno mas, principalmente, outra causa fundamental é a dieta materna. Eu disse anteriormente que uma alimentação com alto teor calórico-protéico aumenta a chance da pessoa ter excesso de peso. Caso a mãe faça este tipo de alimentação, estas calorias e proteínas a mais passam sim para o leite materno, e este fica com um maior teor de calorias e proteínas, provocando aumento excessivo de peso. Desta forma, na amamentação ao seio materno, cuidado mamães com a própria alimentação para não prejudicar o crescimento e desenvolvimento do bebê.

Portanto, vamos pensar sempre no estilo de vida saudável desde a gravidez, e após o nascimento dos nossos filhos, para que eles possam ter uma boa saúde, evitar as "doenças do adulto" na própria infância, e aumentar a qualidade e expectativa de vida deles.


Obrigado e até a próxima!

Dr. Thiago Santos Hirose - CRM 126.047 (SP) / 69.449 (MG)
Pediatra e endocrinologista infantil
Fan page: Thiago Santos Hirose - Endocrinologia
Instagram: @drthiagosantoshirose

Dieta rica em fibras pode auxiliar no combate aos efeitos da gota em ratos

Uma dieta rica em fibras introduzida em camundongos pela professora Angélica Thomaz Vieira, do Departamento de Bioquímica e Imunologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB), reduziu, nesses animais, a resposta inflamatória induzida por cristais de ácido úrico, o que indica benefícios para o tratamento da artrite gotosa e alívio de seus sintomas, como dor intensa, inchaço e vermelhidão nas articulações. Se não for tratada, essa enfermidade genética pode provocar sérias restrições na qualidade de vida dos doentes.

Desenvolvida em modelo animal, a pesquisa mostra evidências de que dietas ricas em fibras ou ácidos graxos de cadeia curta promovem a prevenção da inflamação induzida pelo aumento de cristais de ácido úrico na articulação do joelho. Os camundongos tratados com uma dieta rica em fibra ou ácidos graxos de cadeia curta apresentaram melhor resposta à inflamação.

Os animais foram alimentados durante 14 dias com dieta enriquecida de um tipo de fibra solúvel (Pectina) muito encontrada na casca de frutas cítricas e alguns legumes. Foi feita uma avaliação da inflamação no joelho dos camundongos logo depois da indução da gota, que se deu com a injeção de cristais de ácido úrico no local, e outra16 horas após esse procedimento. Nos animais que consumiram fibras, observou-se uma redução nos sinais clínicos e nas inflamações na comparação com outros camundongos não submetidos a esse tipo de alimento.

"Os tratamentos resultaram na resolução da resposta inflamatória, prevenindo a lesão e disfunção tecidual – alteração no tecido que o impede de exercer suas funções e que pode provocar o desenvolvimento de outras doenças –, melhorando, inclusive, sinais clínicos como a dor", esclarece Angélica Thomaz.

Com esse trabalho, ela recebeu os prêmios Thereza Kipnis, da Sociedade Brasileira de Imunologia, e Pemberton, de incentivo a pesquisas direcionadas à saúde e ao bem-estar da sociedade, promovido pela Coca-Cola. A pesquisadora, que iniciou o estudo ainda no doutorado, foi orientada pelo professor Mauro Teixeira.

Metabólitos

A pesquisa também avalia a importância das substâncias resultantes do metabolismo das bactérias do intestino, os metabólitos, na redução da doença. Eles podem atingir a corrente sanguínea e provocar a morte programada de neutrófilos – tipo de célula/glóbulo branco do sistema imune – diretamente relacionados com a inflamação na gota.

"Compreendendo a maneira como os alimentos interagem com a nossa ­microbiota, será possível propor dietas ou estratégias bioterapêuticas que poderão ajudar pessoas com doenças inflamatórias diversas, promovendo, assim, sua saúde e bem-estar", afirma a pesquisadora, lembrando que a incidência de gota tem crescido em países com dieta alimentar assentada na chamada fast food, alimentação com baixo teor de fibras e alto teor de gordura.

Embora congênita, a gota tem na comida um importante fator de potencialização. Com base na compreensão do processo que associa alimentação com redução da resposta inflamatória, os pesquisadores do ICB pretendem desenvolver estratégicas bioterapêuticas de reorganização das bactérias da microbiota – grupo de bactérias benéficas hospedadas no intestino humano – por meio de dietas ricas em fibras, probióticos e pós-bióticos.

As conclusões do estudo desenvolvido pela professora Angélica Thomaz Vieira estão descritas no artigo Dietary fiber and the short-chain fatty acid acetate promote resolution of neutrophilic inflammation in a model of gout in mice, publicado no Journal of Leukocyte Biology, em janeiro deste ano.

Doença dos reis

Conhecida há mais de quatro mil anos, a gota era chamada de doença dos reis, porque as cortes organizavam festas ricas em carnes e álcool, dois importantes fatores de risco para a inflamação.

A artrite gotosa é uma doença reumatológica, inflamatória e metabólica que atinge as articulações, como dedos dos pés, joelhos, cotovelos ou tornozelos. Ela afeta principalmente os homens – incidência 20 vezes superior à das mulheres em 95% dos casos – a partir dos 50 anos. Mulheres são afetadas geralmente após a menopausa.

Uma das causas da gota reside no fato de algumas pessoas nascerem sem um mecanismo enzimático responsável pela excreção do ácido úrico pelos rins. A produção excessiva de ácido úrico pelo organismo, em decorrência de um "defeito" enzimático, ou o uso de medicamentos, como diuréticos e o ácido acetilsalicílico, também podem levar à diminuição da excreção renal do ácido úrico. A maioria dos casos de artrite gotosa é provocada por falhas na eliminação ou na produção do ácido úrico. Não há tratamento definitivo, e a alimentação adequada pode amenizar os efeitos da doença.

Fonte: https://www.ufmg.br/online/arquivos/047183.shtml

Posicionamento brasileiro sobre testes nutrigenéticos

Ha 3 anos fiz um post sobre testes nutrigenéticos, no qual eu afirmava ainda não existir consenso na comunidade científica sobre os mesmos. Porém muitas vezes devemos deixar os preconceitos de lado e estudar o tema. Ano passado me interessei pelo tema e resolvi pesquisar sobre tais exames. Acabei descobrindo que aqui na UFG tem um grupo de pesquisas, coordenado pela Dra. Maria Aderusa Horst, uma profissional séria e que tem como linha de pesquisa o tema de genômica nutricional.

Como a mesma já trabalhou junto ao laboratório Centro de Genomas de São Paulo, resolvi fazer o exame que eles comercializam. Tive uma experiência boa porém a impressão que tenho é que ainda há muita coisa para ser descoberta. Ou seja, não é hora ainda de solicitar tais exames para os pacientes. Primeiro pelo alto custo ( acima de R$ 1600,00), segundo por ser um terreno ainda certo. A maior crítica que tais exames recebem é com relação o impacto real dos polimorfismos detectados. Muitas vezes há genes ainda não estudados que ativam ou silenciam outros genes. Ou seja, muitas vezes os polimorfismos apresentado não terá importância tão grande na saúde do paciente, pois há genes mais importantes.

Mas é sempre bom estudar e aprender com gente séria e ética. Abaixo o posicionamento escrito por 3 pesquisadores na área. O link para o posicionamento completo está ao final do post.

Att

Dr. Frederico Lobo - Médico, clínico geral - CRM-GO 13192

Posicionamento brasileiro sobre testes nutrigenéticos

A convite da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (SBAN), as doutoras Cristiane Cominetti e Maria Aderuza Horst, coodenadoras do Grupo de Pesquisa em Genômica Nutricional - FANUT/UFG e o doutor Marcelo Macedo Rogero, coordenador do Laboratório de Genômica Nutricional e Inflamação - FSP/USP redigiram o primeiro posicionamento brasileiro sobre testes de nutrigenética.

📚O posicionamento é baseado em análise crítica da literatura científica a respeito da Genômica Nutricional e sua aplicação clínica por meio dos testes de nutrigenética. A Genômica Nutricional é um termo amplo que compreende a Nutrigenômica, a Nutrigenética e a Epigenômica Nutricional, as quais se referem ao modo que o ambiente, os nutrientes e os genes interagem e a maneira que estes são capazes de alterar o fenótipo, como por exemplo, o risco de doenças. 💡

📖Os conceitos básicos de Genômica Nutricional podem ser resumidos em:
📓Nutrientes e fatores alimentares atuam no genoma humano de modo direto e indireto na alteração da expressão ou estrutura de genes;
📓Sob certas circunstâncias e em casos individuais, a alimentação pode ser um fator crítico para o desenvolvimento de algumas doenças;
📓Alguns genes regulados pela alimentação são susceptíveis a desempenhar funções no desenvolvimento, incidência, progressão e/ou gravidade das doenças crônicas não transmissíveis;
📓A intensidade com que a alimentação influencia o equilíbrio entre saúde e doença pode depender da individualidade genética;
📓Intervenções baseadas nas necessidades nutricionais, no estado nutricional e no genótipo podem ser utilizadas como estratégia de prevenção e tratamento de doenças.

📌Os nutricionistas e profissionais de saúde devem estar aptos a interpretar os testes de nutrigenética e a utilizá-los como base para a definição de condutas profissionais.

O posicionamento está disponível na íntegra pelo link:
https://nutrirejournal.biomedcentral.com/articles/10.1186/s41110-017-0033-2

Doze dicas para identificar charlatanismo por Dr. Mateus Severo

Nas mais diversas áreas, existem pessoas mal intencionadas e aproveitadores. Quando envolvemos ciência e, especialmente saúde, pode ser muito difícil identificar se uma informação, tratamento ou profissional são de fato éticos e estão embasados em evidências sólidas. Chamo de evidências sólidas resultados de pesquisas científicas com alto rigor metodológico, isto é, avaliações realmente justas e bem feitas de uma determinada intervenção. Abaixo, alguns indícios que sugerem que você está sendo enganado...



1- Retórica: o processo de tomada de decisão compartilhado entre médico e paciente é uma das prerrogativas da Medicina atual. Para que uma pessoa possa optar entre este ou aquele procedimento é importante que seja informada de maneira clara e compreensível. Linguagem excessivamente técnica muitas vezes é usada como artifício para induzir o paciente a escolhas menos corretas, já que este é levado a acreditar que o profissional de saúde detém conhecimento de ponta, quando não é verdade.

2- Pseudotítulos: no Brasil, médicos se tornam especialistas após realizarem estágio supervisionado em programas de residência médica ou através de provas de título rigorosas ministradas por sociedades médicas reconhecidas pelo Conselho Federal de Medicina. Não raro, maus profissionais apresentam "pseudotítulos", isto é, titulação conferida por "sociedades" não reconhecidas, muitas vezes criadas por eles próprios.

3- Glamourização: ostentação de clínicas luxuosas frequentadas por celebridades, consultas e tratamentos a preços exorbitantes, exclusividade, servem para passar uma imagem de "sucesso" ao público geral. É uma estratégia há muito usada por marcas de luxo para agregar valor e criar um certo desejo no consumidor (no caso, no paciente).

4- Falta de rigor científico: o método científico é rigoroso e hierarquiza os estudos de acordo com sua qualidade metodológica e força de evidência. Isto quer dizer que a conclusão de um estudo feito numa cultura de células não tem o mesmo peso que a conclusão de um estudo realizado em grande número de pessoas. O mesmo serve para estudos metodologicamente bem feitos e mal feitos. É comum que estudos ruins e de baixa qualidade sejam usados para justificar as opiniões pessoais do mau profissional. Assim como estudos robustos e bem desenhados são deixados de lado, se assim convier. É uma leitura viciada da literatura médica.

5- Excessos de exames e tratamentos: aprendemos desde cedo que um exame só deve ser solicitado quando for capaz de beneficiar o paciente de alguma forma, seja prevenindo, identificando ou monitorando o tratamento de uma doença. O excesso de exames disfarça a falta de perícia clínica. Passa a falsa impressão de que se está sendo bem avaliado. Exames não devem ser solicitados sem uma indicação precisa sob a pena de levarem a mais exames e a mais tratamentos desnecessários ou, inclusive, deletérios.

6- Cointervenções: são frequentes as prescrições com extensas fórmulas manipuladas, associadas a dietas restritivas e outras mudanças na rotina para pacientes saudáveis ou pouco doentes. Grande parte do que consta na receita serve para passar a falsa impressão de exclusividade do tratamento que, diversas vezes, é muito parecido ao convencional, com alguns floreios, além de disfarçar o uso de substâncias ilícitas ou de indicação controversa. "Esta receita é tão exclusiva que precisa ser manipulada de acordo com minhas necessidades biológicas". Será? "Esse HCG está me ajudando a emagrecer". Nananão.

7- Ritualização: duas pílulas de açúcar, funcionam melhor do que uma. Uma injeção de água destilada, funciona melhor que 2 pílulas de açúcar. Uma infusão de soro colorido por vitaminas, funciona melhor que a injeção de água. Quanto mais complexo e ritualístico for o tratamento, mais forte é o sugestionamento e o efeito placebo. Alguns tratamentos têm a complexidade de verdadeiros rituais esotéricos.

8- Promessas: corpo perfeito, desintoxicação, juventude, vigor físico, antes versus depois, cura de doenças crônicas são promessas frequentes.

9- Gurus: o conhecimento científico é de livre disponibilidade. Qualquer profissional de saúde bem intencionado consegue, com boa vontade, ter acesso, interpretar a literatura científica e citar suas referências. O mau profissional muitas vezes costuma citar outro charlatão de maior destaque. "Eu faço, porque o Dr. Fulano, super famoso, faz". Muitos destes "gurus" ministram cursos e ganham a vida vendendo informações distorcidas para os maus profissionais.

10- Polarização: é frequente a polarização entre "produtos naturebas" versus "indústria farmacêutica", "Medicina moderna e inovadora" versus "Medicina tradicional e retrógrada", "hormônio bioidêntico que previne" versus "remédio que promove a doença", "eu que quero ajudar meus pacientes" versus "todos os outros médicos que têm inveja do meu sucesso". O discurso do "bem contra o mal" visa criar uma aura de pureza e honestidade em quem usa a Medicina para ludibriar e lucrar.

11- Incriticabilidade: a crítica faz parte da ciência. Como evoluir se algo é inquestionável? O mau profissional gosta de criticar a "Medicina tradicional" com discurso filosófico e fracamente embasado, como vimos anteriormente. Contudo, se torna extremamente agressivo quando se vê encurralado e lhe faltam argumentos para defender o indefensável.

12- Intangibilidade: é frequente que tais profissionais sofram com processos éticos ou mesmo judiciais. Contudo, se dizem injustiçados e perseguidos. Discurso infelizmente frequente no Brasil dos dias atuais...

Sugestão de leitura: Ciência Picareta - Ben Goldacre - Ed. Civilização Brasileira



Dr. Mateus Dornelles Severo

 Médico Endocrinologista
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

sexta-feira, 31 de março de 2017

Quero ser nutrólogo, como proceder?


A razão desse texto é que muitos médicos tem enviado e-mail perguntando sobre a área de nutrologia. Como fazer pra ser nutrólogo, onde cursar, por onde estudar e quais os pré-requisitos para prestar a prova de título.

Antes de tudo quero deixar claro que eu (Frederico Lobo) NÃO sou nutrólogo ainda. Fiz a Pós de Nutrologia da ABRAN em 2014 e estou estudando pra prestar a prova de título (26/04/2017), já que atuo na área desde 2011 e trabalho em um Ambulatório de Nutrologia no SUS desde 2014. Os outros autores do texto são dois amigos. Dr. Leandro Marques ( nutrólogo em Anápolis e Brasília) e Dr. Delmir Rodrigues (pediatra, endocrinopediatra e nutropediatra em Brasília).

Antes de explicar o modus operandi para "se tornar nutrólogo" vale a pena fazer algumas considerações importantes sobre a Nutrologia Médica.

A Nutrologia no Brasil 

A nutrologia só foi reconhecida como especialidade médica há 39 anos (1978), entretanto desde 1952 faz parte do programa do Departamento de Clínica Médica da USP de Ribeirão Preto. Considera-se o pai da Nutrologia no Brasil o Prof. Dr. José Dutra de Oliveira. No Brasil quem representa a Nutrologia diante da Associação Médica Brasileira (AMB) e do Conselho Federal de Medicina (CFM) é a Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN).

Nutrologia como especialidade médica

A Nutrologia é a especialidade médica que estuda, pesquisa e avalia os benefícios e malefícios causados pela ingestão dos nutrientes, aplicando este conhecimento para a avaliação de nossas necessidades orgânicas, visando a manutenção da saúde e redução de risco de doenças, assim como o tratamento das manifestações de deficiência ou excesso. Também denominada segundo a ABRAN de Nutrologia Funcional ou Nutrologia Médica, que são sinônimos na sua conceituação.

O acompanhamento do estado nutricional do paciente e a compreensão da fisiopatologia das doenças diretamente relacionadas aos nutrientes permitem ao nutrólogo atuar no diagnóstico, prevenção e tratamento destas doenças, contribuindo na promoção de uma longevidade saudável, com melhor qualidade de vida

Nutrólogo X nutricionista

Há 7 principais diferenças entre nutrólogos e nutricionistas.
  1. Graduação
  2. Áreas de atuação
  3. Tipo de diagnóstico permitido para médicos e nutricionistas
  4. Solicitação de exames
  5. Arsenal terapêutico
  6. Indicação do tipo de de dieta e prescrição de plano dietoterápico
  7. Número de consultas por planos de saúde
Para ler mais detalhadamente sobre cada uma das diferenças sugerimos que acesse esse texto: http://www.ecologiamedica.net/2015/08/diferenca-entre-nutrologo-e.html

É importante frisar que em nenhum momento a Nutrologia invade a nutrição, sendo que os bons nutrólogos sabem trabalhar em parceria com nutricionistas. Ou seja, o médico nutrólogo não é um prescritor de dietas, ele faz a parte médica da Nutrição humana, dando diagnóstico nosológico, instituindo o melhor tipo de terapia para cada caso, orientando o paciente sobre o prognóstico da doença e solicitando ao nutricionista o tipo de dieta a ser elaborada. 

Modismo x Nutrologia Baseada em evidências

Muitos dizem que desde 2008 com o surgimento de algumas redes sociais, a nutrologia tornou-se uma das especialidades médicas da moda. Talvez porque há alguns anos era menos difícil passar na prova de título de especialista.

As razões pela especialidade estar "em voga" são inúmeras:
  1. Aumento  estrondoso do número de pesquisas correlacionando a influência de hábitos alimentares sobre centenas de doenças.
  2. A importância da nutroterapia no desfecho de inúmeras patologias. 
  3. Médicos cansando de suas especialidades originais e querendo atuar em uma área diferente.
  4. A crença de que é uma área altamente rentável, já que trata de Obesidade e Ganho de massa (hipertrofia), ou seja, envolve estética e esse mercado gera bilhões em todo o mundo. 
  5. Como até pouco tempo atrás era relativamente fácil ter autorização para prestar a prova de título (e com isso garantir um título), médicos sem especialidade ou recém-formados viam na Nutrologia uma alternativa para ter um título de especialista. 
  6. É uma área que se interrelaciona com diversas áreas da medicina e outras profissões da área da saúde, em especial Educação física, Nutrição. 
Como era uma especialidade até então "desconhecida por ignorância" até mesmo pelos próprios médicos, o "boom" ocorrido nos últimos anos foi benéfico.

Despertou interesse da comunidade científica brasileira, dos médicos de diversas especialidades e de graduandos em medicina. Mas nem tudo são flores. Com esse "boom" surgiram inúmeros charlatões que se intitulam "nutrólogos" por terem cursado o Curso Nacional de Nutrologia (CNN) e na verdade a última coisa que exercem é a verdadeira nutrologia. 

É importante deixar claro que Nutrologia não inclui no seu arsenal terapêutico e propedêutico:
  1. Prática Ortomolecular ou Biomolecular
  2. Modulação hormonal
  3. Uso de hormônios com finalidade estética
  4. Ozonioterapia
  5. Biorressonância
  6. Medicina "quântica"
  7. Homeopatia
  8. Medicina germânica
  9. Medicina biológica
  10. Medicina funcional
Só existe UMA nutrologia, que é a nutrologia baseada em evidências científicas. Apesar da nutrição humana ser um terreno de incertezas, talvez por falhas metodológicas, ano após ano essas evidências vão se consolidando. 

Prós e contras

Por ser uma área que tem a ciência a seu favor (digo em investimentos de pesquisas científicas) é uma área ultra-dinâmica. Diariamente surgem novos estudos, ensaios clínicos e algo que era verdade até mês passado, pode deixar de ser, ou então uma dúvida paira no ar. Para quem gosta desse dinamismo, a especialidade é um prato cheio. Para quem não gosta dessa "incerteza" científica, pule fora, nutrologia não é pra você. 

É uma área que demanda muito conhecimento do ciclo básico da graduação em medicina, em especial bioquímica médica. Se você não gosta de bioquímica, vias metabólicas, hormônios, compreensão da fisiopatologia das doenças, pule fora, ainda dá tempo, pois nutrologia não é pra você. 

Se você gosta de pacientes críticos, pode seguir a área de Nutrição Enteral e Parenteral. Ficando parte do seu cotidiano restrito ao ambiente hospitalar (em especial CTI, enfermaria). Mas se ficar em hospital não te agrada, você tem inúmeras áreas dentro da Nutrologia Clínica para atuar. A Nutrologia como citado acima, correlaciona-se com várias áreas, sendo assim é rara uma especialidade em que a Nutrologia não agregará algo. 

É Pediatra? A Nutrologia pediátrica pode te auxiliar muito. Caso você assimile o conceito de imprinting metabólico, pode contribuir para uma geração totalmente diferente das demais. E isso não fica restrito só à pediatria, obstetras também podem aprender muito com isso. 
É endócrinologista? A nutrologia pode mudar totalmente sua atuação no tratamento da obesidade, diabetes, síndrome metabólica.
É cardiologista? A nutrologia pode te auxiliar a manejar melhores seus pacientes hipertensos, com síndrome metabólica ou portadores de insuficiência coronariana.
É nefrologista? A Nutrologia com certeza trará um melhor prognóstico para os seus pacientes nefropatas.
É infectologista? O suporte nutrológico pode mudar o curso de inúmeros processos infecciosos.
É geriatra? A nutrologia pode ajudar.
É oncologista? A nutrologia pode te auxiliar muito, melhorando a tolerância dos pacientes à quimioterapia e evitando a caquexia inerente ao processo neoplásico. 

Mas eu sou cirurgião, será que a nutrologia pode agregar conhecimento à minha atuação? Sim, já ouviu falar sobre imunonutrição? Nutrição enteral precoce? Menor tempo de jejum pré-operatório?

Ou seja, a nutrologia pode auxiliar a maioria das especialidades. 

A preocupação global das pessoas com a estética é uma faca de dois gumes. Se por um lado o excesso de preocupação pode precipitar transtornos alimentares, do outro temos pessoas de conscientizando mais sobre a importância de se alimentar melhor, favorecendo mais qualidade de vida e uma provável senilidade mais saudável. O mercado de emagrecimento gera bilhões em todo o mundo, assim como o desejo de hipertrofia muscular ou melhora da performance nos exercícios. Esse é um grande filão que recorre aos nutrólogos. Porém esse mesmo filão pode recorrer aos endocrinologistas, médicos do esporte, clínicos gerais, nutricionistas, profissionais da educação física, psicólogos. Ou até mesmo a farmacêuticos, enfermeiros, fisioterapeutas,  quem sabe o famoso "coach", "o tio da loja de suplementos" ou o "dono do espaço vida saudável". Ou seja, muita gente que sequer compreende as nuances da obesidade, querendo manejar uma doença multifatorial. Portanto se você quer ser nutrólogo saiba que você "concorrerá" com essas outras áreas, caso seu foco seja obesidade, hipertrofia e performance. 

Mas dá pra atuar em nutrologia sem ter como foco em obesidade, hipertrofia ou performance? Seja bem-vindo, é o que mais precisamos dentro da nutrologia. Médicos que queiram atuar em doenças. Manejo nutrológico de uma infinidade de doenças. Não necessariamente você precisa manejar só doenças. E crucial o manejo nutrológico dos principais ciclos da vida: infância, idade fértil, climatério, senilidade, ou seja, a nutrologia está presente do começo ao fim da vida.

O que temos visto é que a Nutrologia é uma das áreas médicas que mais tem atraído médicos na atualidade. Médicos de diversas áreas estão migrando para nutrologia ou complementando suas áreas com conhecimentos nutrológicos. Ainda são poucos nutrólogos titulados no Brasil. Segundo o último censo demográfico do CFM (2014), são cadastrados 1.536 nutrólogos em todo o país.

Modus operandi para se tornar nutrólogo

O que diferencia um médico nutrólogo de uma nutricionista é a formação (graduação). O médico nutrólogo geralmente faz 6 anos de graduação de medicina, 2 anos de residência de clínica médica (ou cirurgia) e 2 anos de residência de nutrologia. Ou então (até 2016) o médico que tinha outra formação de base, como por exemplo endocrinologia. Ele fazia 6 anos de graduação em medicina, 2 anos de residência em clínica médica, 2 anos de residência em endocrinologia, 2 anos de residência em nutrologia OU pós-graduação da ABRAN, com posterior aprovação na prova de título de nutrologia.

Na atualidade a ABRAN possui uma pós denominada de Curso Nacional de Nutrologia (CNN), que ocorre anualmente em São Paulo. Até 2016 a realização deste era obrigatória para quem desejava prestar a prova de título. Ou então ter feito a residência.

A partir de 2017 o edital da prova de título (clique aqui) teve uma mudança radical, feita pela Associação Médica Brasileira (AMB). Agora quem quer ser nutrólogo tem as seguintes opções:

Opção 1: Cursar 6 anos de medicina + 2 anos de residência de clínica médica e mais 2 anos de residência de Nutrologia (há 8 vagas no País inteiro - USP de Ribeirão Preto, USP São Paulo, UFRGS, BH). Nesse caso não precisa prestar a prova de título. Basta chegar no CRM e solicitar o seu Registro de qualificação de especialista (RQE) em nutrologia.

Opção 2: Fazer algum estágio ou Especialização em Nutrologia com prazo de formação mínimo de dois anos, sendo obrigatória carga horária anual de 2.880 horas, distribuídas entre atendimento ambulatorial, atendimento em unidade de internação e programa teórico. SE comprovado isso, com declaração do chefe do serviço de nutrologia (titulado) e diretor clínico, pode-se prestar a prova de título.

Opção 3: Atuar na área por 4 anos completos, em algum serviço de nutrologia que tenha atividade ambulatorial e hospitalar (obrigatoriamente) e esse serviço tem que ser reconhecido pela Associação Brasileira de Nutrologia. Nesse caso o médico deve receber uma declaração de atuação na área durante os 4 anos completos. SE comprovado isso, com declaração do chefe do serviço de nutrologia (titulado em nutrologia) e diretor clínico, pode-se prestar a prova de título.

Opção 4: Possuir 2 (dois) anos de residência médica certificada pelo MEC ou título de especialista certificado pela AMB/CFM/CNRM nas áreas de Clinica Médica e/ou Cirurgia Geral e/ou Pediatria e/ou Ginecologia e/ou Obstetrícia e/ou Medicina Intensiva. ALÉM DISSO o médico tem que possuir 2 (dois) anos completos de atividade em Nutrologia em serviço hospitalar e ambulatorial em serviços reconhecidos pela Associação Brasileira em Nutrologia - ABRAN. SE comprovado isso, com declaração do chefe do serviço de nutrologia (titulado em nutrologia) e diretor clínico, pode-se prestar a prova de título.

É importante salientar que nas Opções 2, 3 e 4 o médico que almeja prestar a prova de título deverá (segundo o edital de 2017) ter até 30 pontos no currículo e até 100 pontos de acreditação (conforme anexos do edital). Ou seja, o CNN ainda fornece uma pontuação alta e vale a pena fazer. Além disso o médico deve comparecer aos congressos ou jornadas da especialidade e preferencialmente produzir trabalhos científicos (artigos científicos, poster em congressos, artigos de livros de nutrologia, participação em mesas redondas da área). Ou seja, não basta apenas cursar o CNN, comprar os 4 anos de atuação, é preciso vivenciar verdadeiramente a especialidade e lutar para que ela cresça de forma ética.

Autores:

Dr. Frederico Lobo - Médico - Clinico geral (CRM-GO 13192)
Dr. Leandro Marques - Médico nutrólogo ( CRM-GO 14326 e CRM-DF 18413) RQE 10253
Dr. Delmir Rodrigues - Médico pediatra, endocrinopediatra e nutrólogo pediátrico (CRM- DF 14480, RQE 7746 e RQE 9984)



quinta-feira, 30 de março de 2017

Gases intestinais por Dr. Mauricio Bravim

Todos nós produzimos gases intestinais e eles precisam ser eliminados. A quantidade produzida varia de pessoa para pessoa e existe uma quantidade que podemos classificar como "normal", aquela que não causa desconforto ou não gera nenhum tipo de problema ao paciente.

Os gases que encontramos nos órgãos do sistema digestivo – esôfago, estômago, intestino delgado e grosso – chegam até eles de duas formas:


  1.  Quando engolimos ar (aerofagia); 
  2. Quando ingerimos alimentos que são fermentados pelas bactérias da microbiota intestinal. 


O que é aerofagia?

O ato de engolir ar é conhecido como aerofagia e é uma das principais causas do acúmulo de gases no estômago. É normal engolirmos certa quantidade de ar quando ingerimos alimentos. Os alimentos podem ser sólidos ou líquidos, principalmente quando comemos ou bebemos muito rápido, conversamos enquanto nos alimentamos, mascamos chicletes, fumamos e quando aparelhos ortodôntico ou dentaduras não estão devidamente encaixados na arcada dentária.

Eructar (arrotar) é uma das formas mais comuns de eliminar os gases estomacais. O gás que não é eliminado por meio do arroto vai para o intestino delgado onde é parcialmente absorvido. O restante se dirige para o intestino grosso para ser liberado na forma de flatus, por meio do reto.

Como os gases são produzidos no nosso organismo?

Os gases são produzidos quando o alimento é digerido naturalmente por bactérias que colonizam o intestino grosso. Essas bactérias atuam sobre carboidratos como açúcares, amido, celulose e fibras que podem ser encontradas em muitos alimentos.

Qual é a quantidade que produzimos desses gases?

A quantidade e tipo de gás produzido depende das bactérias que podem ser encontradas no intestino grosso. Há uma seleção exclusiva de bactérias para cada indivíduo. Um tipo de alimento pode servir como substrato para produção de gases em um certo indivíduo e em outro não.

Quais são os sintomas mais comuns provocados pelo excesso de gases?
Eructação, náuseas, borborigmo (ruídos pelo deslocamento dos gases), flatulência e inchaço abdominal.

Quais são os principais gases que produzimos?

Hidrogênio, metano, dióxido de carbono, oxigênio e nitrogênio.

Quais os alimentos que mais provocam gases?

A maioria dos alimentos que contém carboidratos. Gorduras e proteínas produzem poucos gases, mas algumas proteínas podem intensificar o seu odor.

Quais os carboidratos são responsáveis pela produção de gases?

●Rafinose – o feijão e a vagem contêm grande quantidade desse carboidrato. Ele está presente em menor quantidade no repolho, couve, brócolis, aspargos, outros vegetais e alguns grãos.

●Lactose – é o carboidrato encontrado no leite e em seus derivados – queijo, sorvete, iogurte e molhos para salada. Muitas pessoas, principalmente os afrodescendentes e asiáticos, produzem menos lactase, enzima responsável pela digestão da lactose. Quanto mais velha a pessoa, a produção de lactase em seu organismo diminui progressivamente.

●Frutose – esse carboidrato está presente diversas frutas, cebola, alcachofra e vários outros legumes. A frutose é também usada para adoçar refrescos e sucos de fruta.

●Sorbitol – esse carboidrato pode ser encontrado nas frutas (maçã, pera, pêssego, uva e ameixa). É também usado como adoçante artificial em doces e chicletes sem açúcar.

●Amidos - incluindo a batata, cereais, macarrão e trigo produzem gases. O arroz é um único alimento rico em amido que não favorece a produção de gases.

●Fibras - As fibras são ricas em carboidratos e não são digeridos pelo intestino delgado e isso faz com que cheguem ao cólon (intestino grosso) praticamente intactas. No cólon, bactérias fermentam estas fibras, provocando o aumento de gases.

Quais as diferenças entre fibra solúvel e insolúvel?

A fibra solúvel se dissolve em água e se transforma em uma espécie de gel. Ela pode ser encontrada no farelo da aveia, cevada, nozes, grãos como ervilha e na grande maioria das frutas.

Metilcelulose é uma fibra semissintética. Ela é solúvel e também forma um gel, porém não fermenta. O gel absorve líquido e adiciona volume (massa) às fezes.

Já a celulose é um exemplo de fibra insolúvel e pode ser encontrada em legumes, sementes e grãos, na raiz de alguns vegetais, farelo de trigo e milho.

Quais são os problemas causados pela ingestão inadequada de fibras?

A solubilidade e a fermentação de cada tipo de fibra influenciam em sua ação no nosso aparelho digestivo. Uma proporção adequada entre fibras solúveis e insolúveis pode diminuir os efeitos colaterais e ajudar no funcionamento intestinal. O aumento súbito da ingestão de fibras pode causar sintomas gastrointestinais. Esta ocorrência de sintomas varia de acordo com a quantidade ingerida de fibras, da microbiota intestinal do indivíduo e pelo tipo de fibra. Por isso, frente a necessidade de suplementos de fibras, o médico pode indicar diferentes tipos de produtos.

Qual é o tratamento mais indicado?

Para controlar o desconforto causado pelo excesso de gases é preciso que o paciente evite a aerofagia, mude sua dieta e tome medicamentos. O paciente também deve evitar carboidratos e vegetais que fermentam, como por exemplo, feijão, vagem, brócolis, repolho, couve e alguns açúcares como sorbitol que pode ser encontrado nos chicletes, em doces e alguns sucos industrializados. Aqueles que são intolerantes à lactose devem evitar leite e seus derivados ou utilizar a lactase.

O que acontece quando ingerimos bebidas com álcool?

O álcool pode alterar o odor dos gases produzidos.

Qual melhor abordagem para o controle dos gases intestinais?

Tente manter uma dieta saudável e identifique os alimentos que podem lhe causar sintomas por aumento da produção de gases ou que afete o odor dos gases. Testes respiratórios para intolerância à carboidratos ajudam na definição da dieta, evitando restrições desnecessárias. A dieta indicada é sempre individualizada, pois depende de quanto este ou aquele alimento interfere na produção de gases.

A presença de disbiose (alteração da microflora intestinal) pode ser diagnosticada também pelo teste respiratório e indicar o controle deste supercrescimento bacteriano no intestino delgado, quando houver algum distúrbio.

Atividade física facilita a eliminação de gases, evitando a retenção.

Existem medicamentos que podem ajudar a diminuir os sintomas. Enzimas que ajudam na digestão, como a lactase, quebra a lactose e permite o consumo de leite e seus derivados.

Dimeticona ajuda a romper bolhas de gás que estão no estômago e assim elas podem ser expelidas através da eructação. Este medicamento não atua nos gases intestinais.

Qual a ação da lactase (Lactosil®) sobre a lactose?

Se acrescentarmos a lactase(Lactosil®) ao leite antes de beber ou se a tomarmos imediatamente antes de comer, diminuiremos muito a possibilidade de sintomas desencadeados por estes produtos lácteos.

Qual o tratamento recomendado para pacientes com problemas crônicos?

Evitar chicletes, especialmente dietéticos, cigarro, comer devagar e checar com seu dentista próteses ou aparelhos mal ajustados.

Atenção!!

Principais alimentos mais interferem no aumento dos gases:

●Feijão e vagem;

●Vegetais (alcachofra, aspargos, brócolis, repolho, couve, couve-flor, pepino, pimentão, cebola, rabanete, aipo cenoura);

●Grãos, sementes e farelos de cereais devem ser consumidos de forma moderada;

●Bebidas com gás podem ser consumidas após ficaram abertas por horas para reduzir a quantidade de gás carbônico;

●Leite e seus derivados, exceto com o uso de lactase (Lactosil®);

●Alimentos que contém sorbitol, como alimentos dietéticos, doces e chicletes;

●Vinho e cerveja.

Quais alimentos principais responsáveis pela formação de odor?

Álcool, aspargos, feijão, vagem, repolho, couve, frango, café, pepino, ovo, peixe, alho, nozes, cebola, ameixa, rabanete e alimentos defumados.

Quais alimentos interferem menos na produção de gases?

Carne, aves, peixe, ovos, vegetais (alface, tomate, abobrinha, quiabo), algumas frutas (uva, cereja, banana, mamão), pão sem glúten e arroz.

Atenção!!

Cada organismo reage de maneira distinta em diferentes indivíduos, ou seja, não existe um padrão, mas seu médico pode ajudá-lo. Siga as orientações prescritas. O sucesso depende de você.

www.clinicacemad.com.br

segunda-feira, 27 de março de 2017

Posicionamento oficial da Associação Brasileira de Nutrologia sobre óleo de coco

Obtido a partir da polpa do coco fresco maduro (espécie Cocos nucifera L.), o óleo de coco é composto por ácidos graxos saturados (mais de 80%) e ácidos graxos insaturados (oléico e linoléico). Os ácidos graxos saturados caprílico, láurico e mirístico possuem entre 6 e 12 átomos de carbono e por isso são chamados de ácidos graxos de cadeia média. Os demais ácidos graxos saturados são capróico, cáprico, palmítico e esteárico. As gorduras láuricas, como o óleo de coco, são resistentes à oxidação não enzimática e, ao contrário de outros óleos e gorduras, apresentam temperatura de fusão baixa e bem definida. Em virtude de suas propriedades físicas e resistência à oxidação, o óleo de coco é muito empregado no preparo de gorduras especiais para confeitaria, sorvetes, margarinas e substitutos de manteiga de cacau [1, 2].

Considerando-se que o óleo de coco tem sido divulgado, especialmente na imprensa leiga, como integrante de uma dieta preventiva para doenças crônicas, como quadros neuro-degenerativos, obesidade e dislipidemia, bem como para outras funções tais como imunomodulação e tratamento antimicrobiano, a Associação Brasileira de Nutrologia considera que deve se posicionar sobre o assunto:

Quando o óleo de coco é comparado a óleos vegetais menos ricos em ácido graxo saturado, recente revisão mostrou que ele aumenta o colesterol total (particularmente o LDL-colesterol) o que contribui para um maior risco cardiovascular [3].

Tem sido reportado que o óleo de coco possui atividade antibacteriana, antifúngica, antiviral e imunomoduladora, porém tais estudos são predominantemente experimentais, notadamente in vitro, não havendo estudos clínicos demonstrando esse efeito. Assim, faltam ainda evidências suficientes para recomendar o óleo de coco como agente antimicrobiano ou imunomodulador [4].

Até o momento, não existem estudos clínicos que tenham abordado o efeito de óleo de coco na função cerebral de indivíduos saudáveis ou portadores de alteração cognitiva [5]. Enfatiza-se também que não existem evidências clínicas de que o óleo de coco possa proteger ou atenuar doenças neuro-degenerativas, como a doença de Alzheimer [6].

Um número muito pequeno de estudos, com resultados controversos, tem relatado os efeitos do óleo de coco sobre o peso corporal em seres humanos. Estudo observacional de populações de ilhas do Pacífico consumindo grandes quantidades de cocos revelou que os Tokelauanos, que consumiam quantidades mais elevadas de coco (63% de energia derivada do coco versus 34% na dieta de Pukapukan), eram mais pesados e tinham pregas de pele subescapulares maiores [7].

Em um ensaio controlado randomizado, 40 mulheres (20-40 anos) foram instruídas a consumir diariamente 30 mL de óleo de coco ou de soja (placebo) por 12 semanas. Os grupos também foram instruídos a caminhar por 50 minutos por dia e a seguir um padrão alimentar saudável, e ambos os grupos consumiram aproximadamente 10% menos calorias do que no início. Apenas o grupo de óleo de coco apresentou circunferência de cintura reduzida no final do estudo (redução de 1,4 cm) e uma tendência ao aumento de insulina circulante. Embora os autores tenham usado recordatório alimentar de 24 horas no início e no final do período de estudo, as quantidades exatas de óleo de coco consumido pelos indivíduos não foram precisadas [8]. Examinando pequena amostra (13 mulheres e 7 homens) com 24-51 anos e índice de massa corporal médio de 32,5 kg/m2, prévio estudo (sem grupo controle) mostrou que o consumo de óleo de coco virgem (30 mL/dia/4 semanas) foi associado a redução da circunferência da cintura (2,61 ± 2,17 cm) em indivíduos do sexo masculino [9]. Examinando o efeito na saciedade, pequeno estudo (n=18) mostrou que não existe efeito de uma refeição rica em ácidos graxos de óleo de coco sobre o apetite ou ingestão alimentar [10].

No geral, não existem evidências suficientes para concluir que o consumo de óleo de coco leva à redução de adiposidade.

Sendo assim, considerando-se inclusive a robusta associação entre consumo de ácidos graxos saturados e o risco de doenças cardiovasculares e a ausência de grandes estudos bem controlados relativos ao óleo de coco em humanos,

a ABRAN recomenda que:


  1. o óleo de coco não deve ser prescrito na prevenção ou no tratamento da obesidade;
  2. o óleo de coco não deve ser prescrito na prevenção ou no tratamento de doenças neuro-degenerativas;
  3. o óleo de coco não deve ser prescrito como nutriente antimicrobiano;
  4. o óleo de coco não deve ser prescrito como imunomodulador.

Associação Brasileira de Nutrologia

Referências:

[1] Martins JS, Santos JCO. Estudo comparativo das propriedades de óleo de coco obtido pelos processos industrial e artesanal. Blucher Chemistry Proceedings vol 3, 2015.

[2] Marina AM, Che Man YB, Nazimah SAH, Amin I. Chemical Properties of Virgin Coconut Oil. J Am Oil Chem Soc 86:301–7, 2009.

[3] Eyres L, Eyres MF, Chisholm A, Brown RC. Coconut oil consumption and cardiovascular risk factors in humans. Nutr Rev 74(4):267-80, 2016

[4] DebMandal M, Mandal S. Coconut (Cocos nucifera L.: Arecaceae): in health promotion and disease prevention. Asian Pac J Trop Med 4(3):241-7, 2011.

[5] Lockyer, S, Stanner S. Coconut oil–a nutty idea?. Nutrition Bulletin, 41(1), 42-54, 2016

[6] Fernando WMADB, Martins IJ, Goozee KG, Brennan CS, Jayasena V, Martins RN. The role of dietary coconut for the prevention and treatment of Alzheimer’s disease: potential mechanisms of action. Br J Nutr, 114(1), 1-14, 2015.

[7] Prior IA, Davidson F, Salmond CE, Czochanska Z. Cholesterol, coconuts, and diet on Polynesian atolls: a natural experiment: the Pukapuka and Tokelau island studies. Am J Clin Nutr, 34(8), 1552-61, 1981.

[8] Assunção ML, Ferreira HS, Santos EAF, Cabral Jr R, Florêncio MMT. Effects of dietary coconut oil on the biochemical and anthropometric profiles of women presenting abdominal obesity. Lipids, 44:593–601, 2009

[9] Liau KM, Lee YY, Chen CK, Rasool AHG. An open-label pilot study to assess the efficacy and safety of virgin coconut oil in reducing visceral adiposity. ISRN Pharmacology, doi:10.5402/2011/949686, 2011.

[10] Poppitt SD, Strik CM, MacGibbon AKH, McArdle BH, Budgett SC, McGill AT. Fatty acid chain length, postprandial satiety and food intake in lean men. Physiol Behav, 101:161–7, 2010.

Fonte: http://abran.org.br/sem-categoria/posicionamento-oficial-da-associacao-brasileira-de-nutrologia-respeito-da-prescricao-de-oleo-de-coco/

sábado, 11 de março de 2017

Orientação sobre sucos: dar ou não à criança? Por Dra. Kelly Marques

Uma palavra sobre os sucos:

Muitas mamães me perguntam em relação aos sucos: Dar ou não? A partir de que idade? Qual a quantidade? Fiz uma coletânea das recomendações de diretrizes nacionais e internacionais e artigos, tomei a liberdade de resumi-las aqui para vocês, e colocar as que considero mais relevantes e pertinentes. As referências estão ao final do post. Espero que ajude!

 Recomendações dos principais órgãos:

 Sociedade Brasileira de Pediatria – Brasil

  • Os sucos naturais devem ser evitados, mas se forem administrados que sejam dados no copo, de preferência após as refeições principais, e não em substituição a estas, em dose máxima de 100 mL/dia, com a finalidade de melhorar a absorção do ferro não heme presente nos alimentos como feijão e folhas verde-escuras.

 Academia Americana de Pediatria – EUA

  •  Sucos não oferecem benefícios nutricionais para crianças menores de 6 meses e não devem ser oferecidos para as mesmas. (Veja os posts sobre benefícios do aleitamento materno e introdução alimentar).
  • A fruta in natura deve ser oferecida em preferência ao suco. Sucos não oferecem nenhum benefício maior do que a fruta in natura para crianças maiores de 6 meses.
  • Suco de fruta 100% natural pode ser parte de uma dieta saudável quando consumido como parte de uma dieta balanceada. Sucos de fruta artificiais ou de “caixinha” não são equivalentes ao suco de fruta natural e não são recomendados.
  • Sucos não devem ser dados em mamadeiras, ou em recipientes de fácil transporte, de forma a estimular a sua ingesta ao longo do dia todo (o objetivo não é esse!)
  • Não oferecer sucos na hora de dormir.
  • Sucos não são apropriados para o tratamento de desidratação e diarreia.
  • Consumo excessivo de sucos pode estar associado com diarréia, flatulência, distensão abdominal e cárie dentária, além de subnutrição.
  • Sucos não pasteurizados podem conter bactérias (Escherichia coliSalmonella e Cryptosporidium), responsáveis por doenças.
  • A ingesta de suco deve ser limitada a 120 a 180ml por dia em crianças de 1 a 6 anos, e para crianças de 7 a 18 anos, de 200 a 350 ml, ou 2 copos por dia.
  • Em crianças consideradas malnutridas, com diarreia crônica, flatulência excessiva, dor abdominal e má digestão o pediatra deve avaliar a criança e determinar a quantidade de suco consumida.
  • cárie dentária pode estar diretamente relacionada com a quantidade de suco ingerida, sem os cuidados necessários.

 Health Canada – Canadá 

Não recomenda sucos no primeiro ano. Depois de 1 ano, orientam dar suco de forma limitada e não oferecer bebida adoçadas. Se a criança estiver com sede, ofereça água a ela.

 National Health and Medical Research Council – Austrália  

  • Sucos são desnecessários e não se recomenda para crianças menores de 1 ano de idade.
  • Bebidas adoçadas estão associadas com cáries dentárias.
  • Chás e outras bebidas não tem benefícios conhecidos para a criança e podem ser potencialmente perigosos.
 National Health Service (NHS) – Reino Unido
  •  Bebês abaixo de 6 meses não devem receber sucos de fruta.
  • Sucos de fruta diluídos (uma parte de suco para 10 partes de água) podem ser oferecidos à criança com as refeições após os 6 meses. Gente eu coloquei isso aqui, mas por favor, não entendam mal! Não é para dar suco diluído como forma de refeição ou porção de frutas, seria mais como uma “água com gostinho” com o objetivo de hidratar (quando for dar água pode ser dessa forma…).
  • Dica: dar água diluída com suco de fruta natural e frutas sempre in natura!
  • Sucos in natura podem ser dados após as refeições para reduzir o risco de cárie, em pequena quantidade.

 O problema do excesso de suco

  • Excesso de suco pode levar a anemia e malnutrição (com excesso de açúcares e falta de outros nutrientes, como proteínas, carboidratos e vitaminas). Nessa situação imagine aquele bebê que se adapta perfeitamente ao suco, e acaba ficando “preguiçoso” para mastigar e comer outro alimento sólido, substituindo suco pelas refeições do dia. Nesse caso, o bebê pode ter dificuldade de ganhar peso, e ter falta de vários nutrientes importantes.
  • O excesso de suco pode danificar o esmalte do dente, levando a cárie dentária, principalmente quando oferecida na mamadeira.
  • Excesso de suco pode provocar gases e diarréia.
  • O consumo de mais de 350ml de suco por dia está associado a baixa estatura e obesidade.
  • Sucos de fruta podem conter sorbitol e uma grande quantidade de frutose, que pode causar cólicas no bebê, pela produção de gases.
  • Os açúcares podem causar problemas futuros pois mais tardiamente as crianças tem dificuldade de reduzir o carboidrato da dieta, incluído esses açúcares.
  • Sucos têm alto índice glicêmico e crianças que ingerem grandes quantidades de suco tem risco de obesidade no futuro. É só pensarmos quantas laranjas precisamos para fazer 120ml de suco em média. Provavalmente 2 laranjas. E quantos bebês comeriam 2 laranjas inteiras assim, de uma vez?

 Minha opinião como pediatra…

Prefiro a fruta in natura. Porque? A fruta in natura proporciona uma experiência muito mais interessante da criança com o alimento, com diferentes sensações: cor, cheiro, paladar, textura. Os sucos perdem isso. Além disso, as fibras são perdidas no processo de produzir o suco, bem como as vitaminas.
O suco “enche” a criança, mas não necessariamente é mais nutritivo. A tendência ainda é usar mamadeira para dar o suco (apesar de o indicado serem os copinhos de transição ou mesmo copos adaptados para criança), o que pode levar ao desmame.
Enfim, ao invés de nos perguntarmos porque não dar o suco, a pergunta deveria ser: porque dá-los à criança? Existe alguma vantagem? Espero tê-los convencido…Ah! Nem preciso dizer que isso se refere aos sucos in natura ok? Os de caixinha nem pensar!

 Conclusões…

  •  A recomendação é que se dê suco para crianças acima de 1 ano, e ainda assim, numa quantidade limitada.
  • A ingesta de suco excessiva pode contribuir para o desmame, principalmente quando oferecida na mamadeira.
  • Quando oferecida na mamadeira, principalmente à noite, pode contribuir para o surgimento de cáries.
  • A água pode ser dada no copinho junto com suco natural diluído, como forma de hidratação e nunca como substituição da fruta in natura, na proporção de 1:10 (1 parte suco para 10 partes de água)
Tudo isso só sobre suco, quanta informação! Espero ter esclarecido bem esse assunto, que tem causado muita dúvida nas mamães.  Continuem mandando suas duvidas e experiências aqui no blog, obrigada pela participação de vocês!
Para seguir o blog e receber as novidades por email, basta clicar no botão “seguir” no site. Siga também no Facebook (ative o receber notificações, para receber aviso dos posts novos) e instagram (@pediatriadescomplicada).
 Um abraço,
 Dra. Kelly Oliveira
Referências bibliográficas:
The Use and Misuse of Fruit Juice in Pediatrics. Pediatrics 2001;107;1210. Committee on Nutrition. Disponível on-line em: http://pediatrics.aappublications.org/content/107/5/1210.full.html
photo credit: http://www.simplebites.net/wp-content/uploads/2012/09/Clara-peach.jpg

É Assim Que Se Aprende Endocrinologia! por Dr. Rafael Reinehr

Como se forma um endocrinologista?

Quando você vai ao Endocrinologista, e ele solicita alguns exames, estabelece um diagnóstico e lhe sugere um tratamento, por trás dele existem 10 anos de estudo e aperfeiçoamento (6 anos na Faculdade de Medicina, 2 anos na residência de Medicina Interna e 2 anos na residência de Endocrinologia e Metabologia). Somente os estágios de residência (4 anos), exigem cerca de 11.500 horas de dedicação entre atendimentos ambulatoriais, pacientes internados, realização de procedimentos, rounds de discussão de pacientes e casos clínicos, estudos e plantões, muitos plantões!

Além disso, é importante lembrar que  para fazer Medicina, é necessário um concurso público. Para fazer Medicina Interna, mais um concurso público, com funil bem mais apertado. E para fazer Endocrinologia ainda mais um concurso público, com pouquíssimas vagas, onde somente os melhores entram.

Somente quem realiza residência médica em Endocrinologia e Metabologia ou é aprovado em uma prova anual de proficiência em Endocrinologia que tem direito ao RQE – Registro de Especialista, um número que deve estar presente em toda e qualquer publicidade e carimbo do médico. Fique atento(a)!

E um “nutriendocrinologista”?

Enquanto isso, vemos proliferar pelo Brasil uma onda de “cursos de formação” de “nutriendocrinologistas”, especialistas em “modulação hormonal”, criadores de síndromes inexistentes como “fadiga adrenal” e “hipotireoidismo com hormônios normais”, que são claramente atraídos pela existência de um público que está sempre em busca de algo novo e que não tem, necessariamente, a criatividade suficiente para se defender de pessoas cuja maior preocupação é não a saúde das pessoas mas aquela do seu próprio bolso.

Estes cursos de formação, alguns deles “aprovados pelo MEC” (pois tem o número suficiente de doutores que o MEC exige, entre outros parâmetros), são criados para beneficiar em primeiro lugar aqueles que os ministram (já que são cobrados altos valores para garantir a participação) e muitas vezes são realizados à distância, com um encontro presencial mensal. Para entrar? Basta pagar. Nenhuma seleção pública.

No outro dia, vi uma postagem de uma profissional da saúde se vangloriando de ter concluído um destes cursos, realizado por um “proeminente” médico, conhecido por sua visão polêmica em assuntos como “óleo de côco”, colesterol, dieta do hCG, no qual ela havia realizado 360 horas e havia sido certificada como “nutriendocrinologista”, palavra que em verdade não significa NADA, pois não é área de atuação reconhecida nem pelo MEC, nem pelo CFM, nem pela SBEM nem por nenhuma entidade internacional médica ou de saúde.



Como ocorrem os desvios éticos?

O que acontece a seguir? O próximo passo é começar a alimentar seu blog e Instagram com conteúdos relacionados à Nutrição e Endocrinologia, exaltando a sua “pós-graduação realizada em tal instituto ou com Dr. X”. O leitor incauto não consegue facilmente discernir entre alguém que realmente conhece a fundo todos os meandros e implicações endocrinológicas e metodológicas (o Médico Endocrinologista) daquele formado em cursos de final de semana (o “nutriendocrinologista”). Como nos lembra o doutor em Psicologia Moral Jonathan Haidt, nosso cérebro tende a se afixar primariamente às aparências e depois busca justificativas racionais para aceitá-las, ao invés de primariamente buscar discernir com cuidado sobre aquilo que se apresenta perante aos nossos olhos.

Assim, fica um alerta: se você realmente se preocupa com a sua saúde, busque ir além da superficialidade da internet. Descubra se o médico com o qual você está se consultando realmente dedicou – e continua dedicando – boa parte da vida para bem cuidar de você.

Descubra se o médico é um especialista de verdade

Entre na página do Conselho de Medicina do seu Estado, coloque o nome do médico que você quer saber mais (ou o CRM dele) e descubra se ele tem registro de especialista – ou se ele está enganando você com falsas promessas.

Por exemplo, as páginas dos Conselhos Regionais de Medicina do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina são as seguintes:



Na figura abaixo:

“Isso é com que se parece aprender Endocrinologia”

“Assim a 17-alfa-hidroxilase age na progesterona que se torna 17-alfa-hidroxi-progesterona que pode ou receber a 21-hidroxilase para se tornar 11-desoxicortisol ou receber 17,20-liase para se tornar a androstenediona”

“Eu estou confuso”

“Oh, desculpe! É um pouco complicado no começo. Mas eu trouxe comigo este diagrama que vai ajudar!”



Uma excelente jornada em busca do seu médico de confiança!

Glossário:

RQE: O RQE nada mais é que o Registro de Qualificação de Especialista. Trata-se de uma certificação, criada pelo Conselho Federal de Medicina, que tem a função de deixar claro quando um profissional da saúde é especialista em alguma área. Após a criação do RQE, tornou-se vedado aos médicos a auto divulgação como especialista, ainda que tenham sido aprovados no Exame de Título de Especialista. O RQE é emitido pelo Conselho Regional de Medicina de cada Estado. Para os médicos, o RQE é essencial para transmitir aos pacientes mais segurança e credibilidade, pois através dele fica comprovada a sua capacidade de especialização em sua área, reconhecida pelo CRM. Para os pacientes: antes de se consultar com qualquer profissional de medicina que se denomine especialista, cheque se o mesmo possui RQE. Trata-se de uma maneira simples e eficaz de evitar fraudes e profissionais despreparados.

hCG: Gonadotrofina Coriônica Humana, utilizada sem embasamento científico adequado como auxiliar no processo de emagrecimento. Existem estudos demonstrando que seu uso pode ser deletério à saúde. Vide http://www.endocrino.org.br/media/uploads/PDFs/posicionamento_oficial_hcg_sbem_e_abeso.pdf

CFM: Conselho Federal de Medicina – Regulamenta o Exercício da Medicina no Brasil – http://portal.cfm.org.br

CRM: Conselho Regional de Medicina – todo Estado tem o seu, monitora e regulamenta a atividade dos médicos em nível estadual

MEC: Ministério da Educação e Cultura

SBEM: Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (http://endocrino.org.br) – Entidade Associativa que reúne médicos endocrinologistas de todo país, organiza eventos científicos e promove o esclarecimento da população quanto a assuntos relacionados à Endocrinologia e Metabologia e suas sub-especialidades.

domingo, 5 de março de 2017

“Ficou fácil culpar o glúten por todos os problemas do intestino”

Abaixo uma reportagem que a revista Saúde publicou. Há 5 anos venho falando a respeito disso. Desde 2012 percebi que vários dos pacientes que referiam ter sintomas quando ingeriam alimentos com glúten, não apresentavam reações ao consumir tabule (que leva trigo). Após esses anos, novos estudos sobre Sensibilidade Não-Celíaca ao Glúten (SNCG) foram surgindo e alguns autores começaram a postular que o problema talvez não seja o glúten em si.

A maioria dos pacientes que alegam ter SNCG referem sintomas geralmente quando ingerem farinha de trigo refinada, alguns com a integral. Isso nos leva a pensar que o problema possa estar durante o refino. Outro ponto interessante é: teoricamente a aveia não contém glúten, sendo que o glúten que pode ser encontrado nela, geralmente é por contaminação cruzada, já que ela é manipulada no mesmo maquinário em que o trigo. Na prática percebo que a grande maioria dos pacientes que referem ter SNCG nada apresentam quando ingerem aveia.

Vale a pena ler a reportagem. Acredito que novos estudos surgirão nesse área, na tentativa de eximir o glúten da fama de vilão.

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Dr. Frederico Lobo
Médico - CRM-GO 13192

“Ficou fácil culpar o glúten por todos os problemas do intestino”

Na terceira e última entrevista de nossa série sobre o glúten, conversamos com o gastroenterologista Peter Gibson, professor da Universidade Monash, na Austrália. O pesquisador ficou conhecido ao publicar os primeiros experimentos sobre a existência da sensibilidade não celíaca ao glúten, nos anos de 2011 e 2013. Na entrevista, ele fala sobre a possibilidade de o problema não ser provocado pela proteína, mas por outras substâncias presentes no trigo.

A reportagem de capa da edição de fevereiro da revista SAÚDE é justamente sobre a polêmica que envolve a proteína presente em grãos como o trigo, o centeio e a cevada. Ela está disponível nas bancas de todo o país e em versão digital para compra e download no iba, na App Store e no Google Play.

Plantas como o trigo sofreram modificações genéticas que podem impactar a saúde humana?

As mais diferentes variedades de trigo foram desenvolvidas para suportar condições extremas, como a seca, e ainda assim promover aumento da produção. Isso levou a mudanças na composição do grão, como maiores quantidades de carboidrato, já que essa vantagem é utilizada pela própria planta para crescer diante de situações nada favoráveis. Além disso, o trigo com mais glúten faz um pão melhor. Logo, espécies com teores elevados dessa proteína foram privilegiadas na agricultura. Não se sabe, porém, se essa característica tem algum efeito na saúde do ser humano. As melhorias no plantio do trigo trouxeram grandes benefícios ao mundo, uma vez que ele é uma das maiores fontes de energia e nutrientes que temos. Mais do que isso, essas modificações contribuíram para melhorar a saúde das pessoas, pois ajudaram a combater a desnutrição.

A sensibilidade não celíaca pode estar relacionada a outros elementos além do glúten?

O trigo tem uma série de componentes e muitos deles estão relacionados à indução de sintomas. Ficou muito fácil culpar o glúten por todos os problemas do intestino. Carboidratos de difícil absorção, também presentes no trigo, podem desencadear a síndrome do intestino irritável. Mas há pessoas que são sensíveis ao glúten ou a outras proteínas presentes no trigo. Sem contar que existe uma série de alergias relacionadas ao grão que também precisam ser consideradas.

Esse campo de pesquisa sobre a sensibilidade não celíaca ainda é muito recente? Ou já temos confirmações sobre seus mecanismos?

Nós estamos conduzindo quatro grandes estudos. Neles, recrutamos voluntários que responderam bem a uma dieta sem glúten e reintroduzimos a proteína na alimentação em metade do grupo. Nas quatro pesquisas, nós encontramos uma porção de indivíduos que desenvolveu sintomas por causa do glúten, mas, em outra parte, os incômodos não estavam relacionados ao componente em si. O que podemos concluir é que efeitos induzidos pelo glúten especificamente são bastante incomuns. Os trabalhos atuais levam a entender que cerca de 90% dos pacientes com alimentação sem glúten se sentem bem por outros motivos, e não pela exclusão da proteína em si.

Como diagnosticar a sensibilidade não celíaca?

A única maneira seria realizar estudos controlados, em que nem os voluntários, nem os cientistas, saibam quem está ingerindo a proteína e quem não está. Mesmo se tivéssemos essa possibilidade, os resultados são de difícil interpretação, especialmente quando a resposta do indivíduo está relacionada a um fator psicológico. Por enquanto, não sabemos como realizar o diagnóstico. Quando entendermos o mecanismo fisiológico do problema, nós conseguiremos detectar a sensibilidade com precisão.

As estatísticas dizem que 1% da população tem doença celíaca e 5% manifesta a sensibilidade não celíaca. Porém, um terço das pessoas diz querer retirar o glúten da rotina. Como interpretar esse conflito estatístico?

Nós ainda não sabemos quantas pessoas realmente têm a sensibilidade não celíaca. Conhecemos, porém, os 15% da população com síndrome do intestino irritável. Inclusive, uma grande proporção deles desenvolvem sintomas relacionados à ingestão de determinados alimentos, mas nunca procuraram o médico para saber o que está acontecendo. Reduzir a ingestão de trigo pode ajudar pelo menos 70% das pessoas que fazem parte deste grupo. Não por causa do glúten, mas porque eles deixarão de consumir um importante exemplar dos carboidratos de difícil digestão, conhecidos pela sigla FODMAPs.

Fonte: http://saude.abril.com.br/alimentacao/ficou-facil-culpar-o-gluten-por-todos-os-problemas-do-intestino/