segunda-feira, 9 de abril de 2012

Agrotóxicos por Dra. Carol Morais

AGROTÓXICOS por Dra. Carol Morais

Em 2001, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) criou o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA) com o objetivo de estruturar um serviço para avaliar a qualidade dos alimentos e implementar ações para o controle de resíduos de agrotóxicos.

Desde então, anualmente a ANVISA libera a lista dos alimentos que mais apresentam resíduos de agrotóxicos e os classifica da seguinte maneira:

• Agrotóxicos não autorizados (NA) para as culturas monitoradas;

• Agrotóxicos autorizados para determinada cultura;

• Resíduo encontrado acima do limite máximo permitido (LMR);

Segundo a lista divulgada em dezembro pela ANVISA (disponível na íntegra no link: http://portal.anvisa.gov.br/wps/wcm/connect/55b8fb80495486cdaecbff4ed75891ae/Relat%C3%B3rio+PARA+2010+-+Vers%C3%A3o+Final.pdf?MOD=AJPERES), 92% das amostras de pimentão foram consideradas insatisfatórias com relação à quantidade (limite máximo permitido) e ao tipo de agrotóxico utilizado (não autorizado para a cultura). Em 2010 o PARA monitorou 18 alimentos: abacaxi, alface, arroz, batata, beterraba, cebola, cenoura, couve, feijão, laranja, maçã, mamão, manga, morango, pepino, pimentão, repolho e tomate.

A escolha das culturas baseou-se nos dados de consumo obtidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na disponibilidade destes alimentos nos supermercados das diferentes unidades da Federação e no uso intensivo de agrotóxicos nestas culturas.

Há dois pontos cruciais e que devem ser levados em conta por nós nutricionistas. Desde 2008, ocupamos o posto de país que mais utiliza agrotóxicos no mundo. O segundo ponto é que dos 50 princípios ativos mais usados em agrotóxicos no Brasil, 20 já foram banidos na União Europeia e em diversos países. No caso do pimentão, o composto encontrado, Endossulfan, presente em 85% das amostras, é proibido em 44 países, dentre eles EUA e na China. A ANVISA reavaliou o composto em 2010 e o mesmo será banido do país até 2013.

Mas por que tanto alarde em relação a agrotóxicos? Por que a recomendação cada vez mais recorrente em se consumir preferencialmente alimentos orgânicos?

A médica e pesquisadora da Fiocruz, Dra. Lia Giraldo, coordena um grupo de pesquisadores responsáveis por revisar os estudos científicos existentes sobre onze agrotóxicos, que estão em processo de reavaliação pela ANVISA. A mesma afirma categoricamente que inúmeras são as evidências dos malefícios dos agrotóxicos. Quando questionada sobre como aparecem essas evidências, a mesma afirmou que “são evidências clínicas através de doenças, agravos, sintomas, efeitos como abortamento, distúrbios cognitivos, de comportamento, morte, manifestações de neoplasias, tumores, distúrbios endócrinos. E muitas vezes os médicos não associam essas evidências com a exposição aos agrotóxicos, não registram isso, não informam e os sistemas de informação não incentivam e não capacitam os profissionais. Então, há todo um sistema de ocultamento de risco”.

Ou seja, dessa forma, quando se consegue fazer o diagnóstico e documentar, acaba por ficar como um caso isolado. A Dra. Lia brinca dizendo que o próprio pessoal da saúde pública chama veneno de remédio, “remédio para barata, para mosquito”, quando, na verdade, remédio é um conceito farmacológico de cura e não para ser utilizado no lugar da palavra veneno. Veneno é para matar uma praga que está atrapalhando a lavoura, não tem nada que ver com a saúde.

Pode parecer insignificante, mas ela afirma que tais confusões conceituais fazem parte desse processo de ocultamento de risco. “Antigamente, esses produtos todos vinham com uma “caveirinha” para mostrar que eram perigosos. Hoje, as embalagens vêm com mensagens ecológicas, um bulário com uma linguagem muito sofisticada e de difícil interpretação, que as pessoas não conseguem entender. Boa parte dos nossos trabalhadores rurais é analfabeta ou semianalfabeta e não tem capacidade de entender o que está escrito”.

A maior parte dos estudos sobre efeitos dos agrotóxicos são experimentais, em laborátorios, com animais, com os protocolos que são estabelecidos pelas agências internacionais e, com esses estudos, as evidências são muito fortes.

Porém, em 2009, a ANVISA conseguiu uma liberação para reavaliação de 13 substâncias ativas. Com isso, estão procurando levantar evidências clínicas e epidemiológicas que justifiquem o banimento de tais substâncias. Algumas já foram banidas e outras estão nesse processo de reavaliação. Embora em menor quantidade, durante esse processo de reavaliação, encontraram muitas informações que mostram efeitos em populações expostas, em situações de pessoas que tiveram agravos e, nesses casos, o profissional que atendeu conseguiu estabelecer relações entre o agravo e a exposição ao agrotóxico.

Apenas para citar alguns dos possíveis efeitos de alguns agrotóxicos, temos:

• DDT, Endosulfan, Dieldrin e Clorado: Acumulam-se no leite materno. Segundo pesquisa da Organização Mundial de Saúde (2001), podem causar criptorquidia e hipospadia, irregularidades menstruais e efeito disruptor endócrino. Como já citado acima, o endossulfan foi proibido pela ANVISA em 2010 – a determinação é fundamentada em estudos toxicológicos que associam o uso desse agrotóxico, considerado extremamente tóxico, a problemas: 1) reprodutivos; 2) endócrinos; 3) imunológicos; 4) neurotoxicidade e 5) hepatotoxicidade: em trabalhadores rurais e na população.
• Compostos pirimidínicos: Inibem a produção de hormônios esteroides.
• Cihexatina: também banida pela ANVISA em 2010, pois estudos em laboratório com ratos, coelhos e camundongos mostram graves riscos à saúde. Os principais efeitos da cihexatina são má-formação fetal, em especial a hidrocefalia. As experiências provaram ainda risco de aborto, efeitos sobre o sistema reprodutivo, danos à pele, pulmões, visão, fígado e rins, entre outros. As doses em que apareceram esses efeitos nos animais sugerem que a cihexatina não é segura para os trabalhadores rurais, os consumidores das culturas tratadas e a população em geral.
• Triclorfom: já proibido em 2010 no Brasil porque a ANVISA detectou vasta literatura evidenciando efeito disruptor endócrino e neurotóxico (hipoplasia cerebelar).
• Metamidofós: a literatura evidencia efeito neurotóxico (alterações psiquiátricas, doença de Parkinson).
• Glifosato: pesquisa realizada em 2010 pelo Laboratório de Embriologia Molecular da Universidade de Buenos Aires (UBA), e publicada na Chemical Research in Toxicology, evidenciou que o mesmo pode causar microftalmia (olhos menores que o normal), microcefalia (cabeças pequenas e deformadas), ciclopia (um olho só, no meio do rosto), más-formações craniofaciais (deformação de cartilagens faciais e craniais) e encurtamento do tronco embrionário. E a pesquisa não descartou que, em etapas posteriores, se confirmem más-formações cardíacas. Estudos já comprovaram que a placenta humana é permeável ao glifosato.

A preocupação maior, principalmente por parte dos endocrinologistas, é com relação aos efeitos nos fetos e nas crianças. Vários estudos estão evidenciando efeitos dos pesticidas na embriogênese.

Em 2010, um artigo publicado na revista Pediatrics sobre a relação de pesticidas e distúrbios de comportamento, descobriu uma ligação entre a exposição a pesticidas e a presença de sintomas de Transtorno de déficit de atenção com hiperatividade. O estudo foi realizado com 1139 crianças, de acordo com uma amostra da população geral dos EUA, e mediu os níveis de pesticidas em sua urina. Os autores concluíram que a exposição a pesticidas organofosforados, em níveis comumente encontrados em crianças nos EUA, pode contribuir para o diagnóstico de TDAH.

Em uma pesquisa publicada na Revista Pediatría em 2010, um órgão oficial da sociedade Paraguaia de Pediatria evidenciou que crianças são suceptíveis a alterações celulares em decorrência da exposição a agrotóxicos. Participaram do estudo 48 crianças potencialmente expostas a agrotóxicos e 46 não expostas. Obtiveram-se amostras da mucosa bucal para determinar o dano no material genético, através da frequência de micronúcleos. Encontrou-se, no grupo potencialmente exposto a agrotóxicos, uma média maior de micronúcleos e de células binucleadas, bem como uma maior frequência de fragmentação nuclear (cariorréxis) e picnose, que são processos típicos de células necróticas.

Bem, as cinco maiores produtoras de agrotóxicos têm fábricas no Brasil e querendo ou não, nosso país ainda é um país agrário, a bancada ruralista tem um poder sobre as massas, dando a entender que sem “defensivos” agrícolas, o brasileiro comerá mal, ou seja, a produção será insuficiente. Paradoxalmente, o consumo de agrotóxicos aumenta, o Brasil produz cada vez mais alimentos “poluídos” e o brasileiro está mais carente de nutrientes. Como explicar?

*Texto elaborado pela Dra Carolina de Morais Luiz Pereira, aluna bolsista do curso de Pós-graduação em Nutrição Esportiva Funcional pela VP Consultoria Nutricional/ Divisão Ensino e Pesquisa.
Fonte: http://www.vponline.com.br/blog/home.php/

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