domingo, 17 de abril de 2011

Aspectos nutricionais e a Doença de Alzheimer

O que a ciência já sabe sobre a doença de Alzheimer”, esse é o título da matéria publicada pela revista “Viva Saúde”, edição nº 78. Mas será que tudo que se sabe para o controle dessa condição apenas envolve descoberta de genes, avanço no diagnóstico, novos remédios e vacinas? O texto aborda o efeito degenerativo da doença, o que pode ser didaticamente elucidado no site da Alzheimer’s Association em uma apresentação disponível em português: A viagem ao cérebro (http://www.alz.org/alzheimers_disease_4719.asp). Contudo, a reportagem deixa uma grande interrogação no que diz respeito à nutrição e alimentação.

O cérebro, assim como todo o restante do nosso organismo, é formado por células. Sua estrutura e função dependem dos nutrientes. Estudos mostram que inúmeros aspectos da cognição são comprometidos pela má nutrição desde a infância. Observando a realidade alimentar da população brasileira e global, não é de se espantar que 8,7% das crianças entre 8 e 15 anos foram “rotuladas” com TDAH ou transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, e 1 em cada 10 crianças tomem medicamentos estimulantes como ritalina. Já o autismo afeta 1 em cada 166 crianças e sua incidência aumentou em 11 vezes na última década. Problemas com o aprendizado afetam entre 5% e 10% das crianças em idade escolar. A doença de Alzheimer (DA) é o comprometimento cerebral após longa data de desequilíbrios, que hoje já afetam as crianças.

A Alzheimer’s Disease International (ADI) estima que existam atualmente 30 milhões de pessoas com demência no mundo, e 4,6 milhões de novos casos anualmente (um novo caso a cada 7 segundos); assim, em 2050 mais de 100 milhões de pessoas poderão estar afetadas, principalmente pessoas da terceira idade. A DA é a forma mais comum de demência, contando de 50 a 60% de todos os casos, e no Brasil acomete cerca de um milhão de pessoas.

Há pouco tempo, os considerados tradicionais fatores de risco para DA (idade avançada, histórico familiar de demência e polimorfismo do gene ApoE 4) mantiveram a prevenção longe das prioridades tanto de pesquisa quanto da prática clínica. Entretanto, nos últimos anos, estudos vêm acumulando evidências de que fatores de risco modificáveis relacionados ao estilo de vida também são importantes na DA. Uma série de estudos mostra que os mesmos fatores de risco para as doenças cardiovasculares também contribuem para a DA. Entre esses estão a obesidade, hipertensão, dislipidemia, diabetes, sedentarismo, tabagismo e consumo de álcool. Essas informações, quando rearranjadas e reavaliadas, sugerem que os mesmos mecanismos deletérios que acometem o sistema cardiovascular também afetam o cérebro.

Uma revisão sistemática publicada este ano no European Journal of Neurology traz a seguinte sentença: “Apesar de as pesquisas na DA focarem no desenvolvimento de intervenções baseado na hipótese da cascata amiloide, acredita-se que a DA não é uma condição singular definida exclusivamente por placas e emaranhados, mas sim o resultado de uma sobreposição conjunta de processos biológicos que constituem formas de envelhecimento cerebral grave”. E são justamente esses processos biológicos desencadeados por uma gama de fatores ambientais e comportamentais que influenciam o envelhecimento cerebral e a DA. Na ótica da Nutrição Funcional, são vistos como desequilíbrios fisiológicos, resultado da interação entre os genes com o ambiente. No caso da DA, os desequilíbrios oxidativo, inflamatório, estrutural e neuroendócrino são mais pronunciados. Nesse sentido a nutrição, considerada causa básica, também é solução, sendo capaz de modular esses processos prevenindo, retardando e melhorando a sintomatologia característica da doença.

Na última década, muitas investigações foram realizadas para avaliar a efetividade da dieta do mediterrâneo na prevenção do desenvolvimento de doenças crônicas como Alzheimer e principalmente de doenças cardiovasculares. Esta dieta é caracterizada por um alto consumo de peixes, vegetais, legumes, frutas, cereais integrais, azeite de oliva, baixo consumo de produtos lácteos, carnes e gordura saturada, assim como o consumo moderado de álcool, principalmente na forma de vinho tinto.

Em recente meta-análise publicada no Britsh Medical Journal, foi avaliada a relação entre aderência à dieta do mediterrâneo e a mortalidade e incidência de doenças crônicas. O resultado mostrou aumento significativo no nível de saúde. Houve redução de 9% nas taxas de mortalidade total e por doenças cardiovasculares, diminuição de 6% nas taxas de mortalidade por câncer e de 13% na incidência de Parkinson e Alzheimer. Em contraste, um estudo populacional realizado na Polônia avaliou o perfil alimentar de indivíduos diagnosticados com a DA. Os resultados mostraram um alto consumo de carnes, manteiga, produtos lácteos com elevado teor de gordura e açúcar refinado, além de baixo consumo de frutas e verduras.

O padrão alimentar ocidental possui características contrárias ao padrão mediterrâneo. É pró-inflamatório, pró-oxidante, promove desestruturação celular e gera desequilíbrios neuroendócrinos. Esses desequilíbrios são mais suscetíveis no tecido cerebral devido à sua composição e atividade metabólica. Composto por 60% de gordura, o cérebro pesa apenas 2% do peso corporal, usa 20% do oxigênio que respiramos e em torno de 20% das calorias que consumimos. Contém 100 bilhões de células conectadas às outras por aproximadamente 40.000 conexões (sinapses). Este é o número de conexões cerebrais que estão constantemente mandando e recebendo mensagens que mantém nossa saúde. Cada uma dessas conexões interage pelas membranas celulares que, quando não estão saudáveis, perdem efetividade e rapidez.

As membranas celulares dos neurônios são consideradas peças-chave para a ótima comunicação cerebral. O alto consumo de ômega-6, característico da dieta ocidental, deixa a estrutura rígida e não funcional, o que associado a ausência de antioxidantes desse padrão alimentar e a atividade metabólica cerebral, favorece ao estresse oxidativo, que por sua vez conduz a processos inflamatórios e vice-versa. Este processo impede a membrana de realizar boa comunicação e a célula fica incapaz de produzir quantidades suficientes de energia. Alguns estudos chamaram a DA de diabetes tipo 3 devido a identificação de resistência a insulina cerebral caracterizada por estes danos a membrana.

Os ácidos graxos poli-insaturados ômega-3 e os antioxidantes são os grandes responsáveis por estruturar e proteger a membrana celular, além de controlar a expressão gênica, regular o sistema imunológico e os processos inflamatórios, melhorando o metabolismo como um todo. Dado o padrão alimentar deficiente nestes nutrientes, é fácil entender um dos porquês que vivemos hoje uma epidemia de desordens psiquiátricas e neurológicas.

A íntima relação entre nutrição e saúde vem sendo intensivamente estudada pela ciência por mais de meio século. No entanto, modelos convencionais persistem em enxergar um único agente causando uma única doença associada a um único tratamento. Análises lineares como esta estão fadadas ao fracasso frente às desordens multifatoriais como o Alzheimer. Um modelo mais adequado entende que uma condição é resultado de vários desequilíbrios, e um desequilíbrio pode levar a várias condições patológicas. O raciocínio sistêmico considera esses desequilíbrios moleculares que afetam todo o organismo. Identificá-los e modulá-los é a maneiro como a nutrição pode intervir na DA.

** Texto elaborado pelo Dr. Nélio Carlos de Araújo Santos Filho, aluno bolsista do curso de Pós-graduação em Nutrição Clínica Funcional pela VP Consultoria Nutricional/ Divisão Ensino e Pesquisa.

Fonte: http://www.vponline.com.br/blog/?p=86

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