quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Prós e os contras de se consumir alimentos orgânicos

A revista Veja traz, em sua edição nº 2192, uma série especial de reportagens sobre alimentação. Entre elas está a matéria “Os orgânicos em pratos limpos”, que analisa os prós e os contras de se consumir alimentos isentos de agrotóxicos.

De acordo com o texto, os prós dizem respeito ao melhor valor nutritivo. Algumas pesquisas evidenciaram que produtos orgânicos tendem a conter maior teor de micronutrientes como ferro, manganês e ácidos graxos poli-insaturados, além de maior quantidade de compostos bioativos e algumas vitaminas, que previnem contra o surgimento de doenças como o câncer. Mas, talvez o maior dos pontos positivos, independentemente do valor nutricional, que parece estar muito mais relacionado ao solo, seja o fato de os produtos orgânicos serem livres de agrotóxicos.

Para alguns, a exposição do homem a substâncias como inseticidas, herbicidas, fungicidas, entre outros agrotóxicos, somente é prejudicial à saúde dos envolvidos com o cultivo, como os agricultores e familiares. Mas, e ainda bem, há os que acreditam que a presença de resíduos desses produtos nos alimentos também é prejudicial à saúde dos que os consomem. Ao contrário do que cita a reportagem, já existem evidências suficientes que suportem a afirmação de que o consumo de agrotóxicos através dos alimentos pode levar ao surgimento de câncer. Tanto que foram criados, e continuam sendo, órgãos governamentais para análise e controle dos níveis dessas substâncias nos alimentos, assim como para sua certificação como um produto orgânico.

Em 2009, a ANVISA analisou os vinte itens vegetais mais consumidos pela população brasileira, incluindo arroz, feijão, tomate, alface, pimentão, laranja, maçã, e outros; e identificou que, em praticamente todos os itens, havia uso de agrotóxicos não autorizados para aquela planta, quantidade excessiva de algumas substâncias inadequadas, ou as duas coisas. Se fossem inofensivos ao consumo humano, não haveria tanta preocupação acerca de sua presença nos alimentos. A prova para tal são os agrotóxicos que, antes permitidos, passam a se tornar proibidos e a sua utilização banida.

Uma coisa é fato. Produzir alimentos é caro. Não se pode correr riscos. Produtos agrotóxicos mais avançados, menos tóxicos, são mais caros que os mais antigos. Portanto, por muitas vezes, os produtores optam por soluções menos saudáveis para eles e para os consumidores finais, porém mais lucrativas. Produzir alimentos orgânicos tampouco é uma prática barata. Segundo especialistas, no preço estão embutidos os custos com a certificação, com uma produção menor por hectare e com a mão de obra. Talvez este seja o maior dos contras descritos pela reportagem: o preço dos produtos orgânicos. No entanto, o Instituto de Defesa do Consumidor constatou, em uma pesquisa realizada este ano, que se o produto estiver na época de sua safra, pode custar até mais barato que o convencional. Mas isso implica em dois contras descritos pela matéria: se submeter às estações do ano e tempo para pesquisar preços.

Mais uma vez, a solução para um problema que representa uma ameaça à saúde esbarra em um entrave completamente, absolutamente, incontestavelmente impossível de ser resolvido: o tempo para se dedicar à própria alimentação. Dizer que os produtos orgânicos são mais caros e inacessíveis a todas as classes sociais até vai, salvo às observações feitas de que podem ser mais baratos em algumas ocasiões. Para esse contra a reportagem traz, em sua tentativa mais bem sucedida de ser feliz, a dica de substituir pelo menos os itens mais consumidos pela família, pela versão isenta de agrotóxicos. Mas para o contra “falta de tempo” não há solução.

Dizer que a justificativa para o baixo consumo de alimentos orgânicos é a falta de tempo para procurar esses produtos, pesquisar preços e ter acesso a informações sobre as safras é, mais uma vez, minimizar a importância da alimentação para a saúde.

Inacreditavelmente, o consumo de aparelhos eletrodomésticos, desses que é só apertar um botão que está tudo pronto, vem aumentando absurdamente no Brasil e, acreditem, não somente nas classes sociais mais providas de recursos financeiros. Já temos mais telefones celulares do que fixos nas residências e o número de linhas telefônicas móveis já ultrapassam o número de habitantes do país. Sem falar que não basta ter um aparelho celular, ele tem que ser trocado todo ano, representando uma extensão do corpo humano.

O brasileiro também não é mais um excluído digital. Quase toda a população já tem acesso, de alguma forma, ao computador e à internet. Agora não basta ter um desktop em casa, é necessário um notebook, na mesma proporção que um órgão vital do corpo. Também nos organizamos melhor e agora já é possível assistir toda à programação da televisão, sem falar que conseguimos tempo e dinheiro para acompanhar por três meses inteirinhos a vida de pessoas confinadas em reality show, pela TV a cabo! E, mais recentemente, em um exemplo de otimização do tempo sem precedentes, conseguimos permanecer na frente do computador por duas horas, diariamente.

É um avanço indiscutível. Mas representa, na verdade, a prova de que, quando há interesse, seja por parte das políticas públicas, da mídia, da indústria ou da população, novos hábitos podem sim ser formados e aderidos por todos. Basta ter boa vontade!

Alimentos orgânicos são mais caros sim, alguns difíceis de serem encontrados a depender da localidade. Portanto, ainda representam uma meta difícil de ser atingida por todos. Mas cabe aos profissionais de saúde, enquanto educadores, orientar a população a substituir, pelo menos, os alimentos mais consumidos; informar as pessoas onde comprar os produtos livres de agrotóxicos; ensinar quais alimentos consumir de acordo com a safra, para otimizar os preços; além, é claro, de incentivar hábitos alimentares saudáveis, em detrimento de outra qualquer prática. Também é nosso dever, enquanto cidadãos, cobrar políticas públicas que venham a facilitar o acesso da população a alimentos saudáveis, livres de substâncias nocivas, ao invés de divulgar que a justificativa para o aumento do sobrepeso, da obesidade e do câncer é a falta de tempo e dinheiro da sociedade moderna.

*Texto elaborado pela Dra. Camila Almeida Menezes, aluna bolsista do curso de Pós-graduação em Nutrição Clínica Funcional pela VP Consultoria Nutricional/ Divisão Ensino e Pesquisa.

Fonte: http://www.vponline.com.br/blog/home.php/

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