quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Agrotóxicos e agronegócio: uma aliança que mata trabalhadores



Como se não bastassem as mortes por intoxicação, o mercado de agrotóxicos agora ceifa também a vida daqueles que ousam cobrar o direito a uma vida saudável. Uma reportagem publicada pela revista Carta Capital desta semana levanta as circunstâncias que envolvem o assassinato do trabalhador rural Zé Maria. Morto há quatro meses, ele denunciava o uso abusivo de agrotóxicos na região do Baixo Jaguaribe, no Ceará, cujas terras vem sendo dominadas pelo agronegócio da fruticultura, que reúne empresas nacionais e estrangeiras.

A matéria, de autoria do jornalista Luiz Antonio Cintra, relata os esforços empreendidos por Zé Maria e o preço que pagou por denunciar os malefícios causados pelo uso inadequado de agrotóxicos nos quase 3 mil hectares de plantação de banana que empresas levaram para a região, atraídas por incentivos fiscais criados pelo último governo de Tasso Jereissati (PSDB) – entre 1999 e 2002 – e nos seguintes, cujo motivo era estimular as exportações:

Desde esse período, os incentivos para as empresas foram crescendo – incluindo a desoneração fiscal dos agrotóxicos –, enquanto os pequenos eram tragados por desvio de dinheiro na cooperativa local, ainda nos anos 90, além da falta de apoio técnico e financeiro, da especulação fundiária e das disputas por terras. Mas de todas as batalhas, enfrentar a contaminação da água provocada pela pulverização aérea dos bananais foi o que deu visibilidade a Zé Maria – e há quem acredite que tenha sido o estopim da emboscada, ainda que os problema-s fundiários sejam relevantes e aguardem uma solução definitiva da Justiça.

Como outros problemas da região, o descaso do poder público, no caso a prefeitura, é evidente, como relata a promotora do Meio Ambiente de Limoeiro, Bianca Leal: “É uma aberração usar o canal da irrigação para captar as águas que serão consumidas. Isso jamais deveria ocorrer”. Mas é rotina há anos nas comunidades locais.

A aberração é ainda maior porque o canal corre a céu aberto por 14 quilômetros, desde a sua origem no açude do Castanhão, outra obra iniciada no período Jereissati e construída para dar suporte ao agronegócio. “O problema é que os bananais ficam em alguns casos a poucos metros das casas, e o vento frequente na região trata de levar o veneno para o canal e de lá para as torneiras residenciais. Além disso, há a chamada deriva técnica, que, em média, significa a perda de 19% do veneno pulverizado pelos aviões”, afirma a médica Raquel Rigotto, professora da Universidade Federal do Ceará e coordenadora de uma pesquisa sobre a contaminação da água na Chapada do Apodi.

Entregue ao Ministério Público em uma cerimônia na quinta-feira 19, ocorrida na sed-e de uma faculdade local e diante de uma plateia de mais de 300 pessoas, uma parcela deles militante do MST, o evento serviu para lembrar os quatro meses do assassinato.

“Nas 13 amostras colhidas em diferentes pontos ao longo do canal foram identificados de três a 12 princípios ativos, alguns considerados tóxicos e outros altamente tóxicos, e sempre persistentes, ou seja, com efeito prejudicial à saúde por um tempo muito longo”, anota o relatório final, que conta com a colaboração de quase 30 pesquisadores de instituições como a Universidade Federal de Minas Gerais, que fez a análise das amostras, Universidade de Brasília e Fundação Oswaldo Cruz.

Também foi encontrada água contaminada em poços artesianos, no lençol freático e nas torneiras das casas. “No mundo todo, calcula-se em cerca de 7 milhões o número de intoxicações decorrentes do uso do agrotóxico e 70 mil mortes. A maioria dos casos se concentra nos países em desenvolvimento, para onde as empresas multinacionais estão migrando. Além disso, o uso na chapada está contaminando o Aquífero Jandaíra, um verdadeiro tesouro para o semiárido”, afirma a pesquisadora, que contou com o apoio do CNPq para levar adiante o trabalho. “Além da contaminação da água, verificamos que os agrotóxicos são vendidos sem os receituários e que não há um manejo adequado das embalagens, que precisam viajar mais de 100 quilômetros até chegar em Mossoró, onde fica o posto de coleta mais próximo.” A pesquisa relata ainda o caso de um funcionário de uma multinacional que morreu de uma doença no fígado após trabalhar por alguns anos no almoxarifado onde os defensivos eram armazenados. “Todos os indícios sugerem que a morte tem a ver com os agrotóxicos.” […]

Expansão perigosa

Os agrotóxicos ocupam o quarto lugar no ranking de intoxicações do país, atrás apenas de medicamentos, acidentes com animais peçonhentos e produtos de limpeza (saneantes). Em 2007, foram registrados 6.260 casos provocados por agrotóxicos.

Atualmente, vêm ganhando terreno no mercado de veneno brasileiro os agrotóxicos conhecidos como “genéricos”. No ano passado, esses venenos genéricos responderam por mais de 80% das 725,5 mil toneladas de agrotóxicos negociados no Brasil. Parte expressiva desse crescimento se deu pela evolução da soja transgênica e o aumento da demanda por seu principal agrotóxico, o glifosato.

O glifosato é o composto químico base do veneno que já foi campeão de vendas da Monsanto, conhecido como Roundup – largamente denunciado por suas propriedades letais –, e é utilizado sobre plantações de transgênicos cujas sementes foram geneticamente modificadas para serem resistentes à sua aplicação. Ou seja, por não comprometer as sementes, o glifosato pode ser aplicado em grandes quantidades sobre as plantações, o que faz com que o volume de veneno utilizado aumente e que tenhamos acesso a produtos com maior grau de contaminação.

Veneno financia o agronegócio

Ao longo dos últimos anos, as empresas de agrotóxicos vêm aumentando sua participação no financiamento do agronegócio por meio de um sistema conhecido como “barter”. Esse sistema funciona da seguinte maneira: as empresas adiantam a venda de venenos para os grandes fazendeiros que, em contrapartida, comprometem-se a entregar um determinado volume da produção para pagar por aquele veneno adquirido. O compromisso é selado por meio da troca de uma espécie de “moeda” conhecida como Cédula de Produto Rural (CPR) que é, inclusive, negociada nas bolsas de valores.

O agronegócio e os grandes fabricantes de venenos costumam chamar esse processo de triangulação. Segundo seus cálculos, nos próximos cinco anos, essa triangulação poderá ser responsável por 30% da venda de venenos a serem utilizados dentro do país.

Somente as transnacionais FMC e Monsanto, que estão entre as cinco maiores empresas de venenos atuantes no Brasil – ao lado das também estrangeiras Bayer, Syngenta e Basf –, lucraram 100 milhões de dólares cada uma na última safra com vendas via “barter”.

Enquanto as transnacionais exultam com seus lucros, o Brasil ocupa o posto de maior consumidor de venenos do mundo. A posição, antes ocupada pelos Estados Unidos, foi assumida em 2008, ano em que todo o mercado de agrotóxicos movimentou 7 bilhões de dólares.

FONTE

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